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Cartas

A VILA– Um espelho do Aushuwitz Espiritual?

A VILA– Um espelho do Aushuwitz Espiritual?



Querido Caio, Que o Senhor Jesus continue lhe abençoando e nos abençoando através de você... Ao ler suas respostas às milhares de cartas, suas reflexões, seus conselhos, sua honestidade, e sua “cara limpa” em falar, escrevendo e assumindo o que diz a respeito do que ninguém se aventura—eu e minha esposa, ficamos com a frase dos servidores em João 7:46 – “Nunca homem algum falou assim como este homem”. Os que não enxergam a Graça somente atacam e amaldiçoam, mas Graças a Deus, que a Graça se manifestou em Cristo, e Cristo em nós; e onde os heróis da “igreja” depois da “Reforma” tocaram de raspão, você mergulhou e está colocando disponível neste site... Graças a Deus! Bom, eu gostaria de lhe perguntar se você assistiu o filme A Vila ( The Village)? Cara, quando comecei a assistir pensei que seria um suspense... e acabou sendo uma surpresa... O filme é muito bom. Olha, eu não sei se você já viu, e não sei também se o que vou dizer tem tanto a ver..., mas eu vi uma faceta da vida espiritual neste filme. Se eu estiver errado, por favor, me corrija... A história gira em torno de uma vila que vive escrava do medo de não poder romper uma linha imaginária e entrar na floresta proibida(por seus líderes). O que acontece é que se diz que “há um ser malévolo” que ataca todos aqueles que desejam ir a cidade, pois o monstro sente-se atraído pela cor ruim (vermelho carmesim). Mas o negócio é que no meio do filme se dá a entender claramente que os líderes—ou seja: os anciões que decidem e respondem pelas vidas das pessoas—, se revelam os grandes farsantes da trama. Tudo por causa de seus traumas, feridas e medos do passado. Os líderes-anciões eram presos aos erros e desastres do passado e decidiram então manipular e discipular a nova geração em seus métodos no estilo mais esdrúxulo; tipo: “faço isso por amor a suas vidas, por isso escolhemos por vocês”. A palavra “fardo” é repetida várias vezes. A cor de sangue deve ser retirada das proximidade da vila e da vida das pessoas naquela comunidade. Alienação pura! O interessante é que no meio de tudo isso há uma moça cega que parece ver mais do que os outros. O enredo love story rola entre ela e um dos jovens que faz um papel de puro e ousado. E ela é quem acaba cruzando a floresta para salvar a vida do seu amado e a dela, mas só vai por ser uma cega. O que fiquei impressionado foi com a semelhança com o regime de campo de concentração adotado por muitos pastores xiítas e que defendem “seus” rebanhos na base das “cercas”, e de um tipo de “campo de concentração” mental e espiritual, que é fundamentado nas doutrinas de homens, e que são defendidas como bíblicas, e que se tornam “fardos” que eles mesmos não suportam, mas não renunciam, por causa do medo de quebrar as tradições da antiga aliança. Os fardos anulam o sangue. O monstro foi criado por eles mesmos e agora eles não têm coragem de contar a verdade, e impedem que as outras pessoas conheçam a Verdade e tenham Vida. Pode ser que eu esteja espiritualizando demais, entretanto, fiquei boquiaberto o enredo. Se você assistiu, e se quiser e puder dar sua opinião, eu apreciaria muito. No mais, desejo que o Senhor lhe proporcione todas as alegrias, as vitórias, a esperança, a paz, a saúde, a riqueza, a força, a perseverança e a garra que é característica sua; e, se eu esqueci algo, que seja completado com a Graça abundante que há em você e que Ele tem prazer em cada dia renovar e renovar e renovar... Nele, onde todas as nossas fontes estão, Com todo o carinho que nosso coração comporta, Antônio Carlos e Ana Paula Santana _____________________________________________________________ Resposta: Queridos Antônio e Ana: Graça, Paz e Liberdade em Cristo! Sim, assisti a Vila e pensei exatamente as mesmas coisas. Quase escrevi uma recomendação aqui no site pedindo as pessoas para assistirem, assim como desejaria que todos também vissem “Dogville”, filme que mostra de modo bem claro as doenças que podem possuir uma comunidade fechada à vida, como normalmente é o caso da “igreja”. Sim, na Vila, à semelhança da “igreja”, o vermelho se tornou a cor do mal (entre nós o vermelho virou cor do diabo, e foi entregue à macumba). Por isso os crentes da Vila andam de amarelo... A liderança estabelece que o nome do monstro (s) é “Aqueles de quem não se fala”, à semelhança do que se faz na “igreja” com relação aos temas da vida, os quais não podem ser tratados por causa do diabo, cujo nome é muito mencionado, mas cujas artimanhas são ignoradas pelo tabu que envolve a realidade do que ele faz; sendo que, na maioria das vezes, a sua obra é feita dentro da comunidade que diz que se “protege dele”, à semelhança também do que acontece na Vila. O mais importante é o fato que a tentativa de se afastar do mundo gera toda sorte de doenças, conforme a “igreja” tem demonstrado no curso de sua existência. A iniciativa original—patrocinada pelo trauma dos que um dia haviam sido enredados pelos artimanhas da existência—e que se destinava a ser uma iniciativa de “Proteção”, acabou por se tornar um esquema de “Poder e Controle”, como também sempre acaba por acontecer dentro da “igreja”. O filme revela a inevitabilidade da perversão de todas as tentativas de afastamento do mundo, conforme Jesus previra ao orar pedindo que o Pai não nos tirasse do mundo, mas nos livrasse do mal. É estranho, mas o mundo é fundamental para manter a saúde da Igreja. Isto porque o mundo, com todas as suas contradições, faz com que a Igreja tenha que sair de si mesma e enxergar a vida, tendo também que aprender a responder à existência de modo pertinente. Ora, é nesse choque que a saúde acontece num mundo caído. Quem lê o Evangelho vê que à volta de Jesus não havia cercas de nenhuma natureza. Ao contrário. Afinal, Aquele que diz de Si Mesmo que é a Porta, não tem em mente fechar nada, mas sim abrir tudo. Isto sem falar que Ele diz que quem entra pela Porta, entra e sai e acha pastagem. Na Parábola do Joio e do Trigo Jesus disse que “o campo é o mundo” (não a Igreja, como sempre se tenta fazer crer), e que foi “um inimigo” quem plantou o joio no meio do trigal do mundo, da vida. Portanto, o lugar do trigo é no campo do mundo, apesar do joio que nele existe. Desse modo, por inferência, sabe-se por meio de Jesus que o mundo é do trigo, e que a presença do joio não deve fazer com que o trigo seja removido de seu lugar original: o campo do mundo. Toda tentativa de afastar a Igreja das portas do inferno—seja ela qual for e esteja onde estiver—, faz a Igreja virar “igreja”; ou seja: uma comunidade de fanáticos, alienados da vida, com medo do diabo, com pavor do mundo, e completamente governada pela tirania dos traumatizados, e que fazem de suas experiências ruins na vida uma doutrina para ser seguida. Desse modo, é mais do que próprio ver o filme como você o viu, pois, de fato, esta é a sua mensagem e essa também é a mais que verdadeira exortação que ele faz. Na realidade desde há muito que as maiores mensagens cristãs que eu vejo e recebo vêm de fontes extra-eclesiástica, como é o caso dos filmes que mencionei: a Vila e Dogville. O que lamento de todo o coração é que os crentes não vêm tais produções do “mundo”, e, quando as vêm, parecem nada entender ou discernir, tão paralisados, atrofiados e entupidos que estão para todo e qualquer discernimento abstrato. O filme Dogville mostra o outro lado dessa mesma história, revelando o que acontece quando a bondade é governada pela moral, pois, ao final, atrás de todas as bondades, aparece a perversidade, a qual, no filme, é expressa de modo extraordinariamente chocante. Se você ainda não viu, por favor, veja logo o Dogville. Apenas como dica sugiro também que você veja o filme “Jornada da Alma”, e que é baseado em fatos reais, especialmente na relação medico-paciente entre Jung e Sabina Spealrein, jovem que foi curada pelo amor, mas que veio a ser por um curto espaço de tempo amante de Jung, realidade essa que não deixou de marcar profundamente a obra dele como psicoterapeuta; e marcou não somente a ele próprio, mas também a Freud. Trata-se de um filme lindo e comovente, e que vale a pena ser visto. Sempre que tiver outros comentários cinematográficos pode escrever. Cinema ainda é a minha melhor diversão externa a mim mesmo! Receba meu carinho e o estenda a sua esposa. Nele, em Quem todas as coisas são lícitas, exceto as perversas e as que fazem mal, Caio