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Cartas

A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL ERA UMA ARMADILHA?

A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL ERA UMA ARMADILHA?



   

 

 

Meu amado amigo: A Árvore da Vida será dada ao que Vencer! Responderei às suas questões dentro de seu e-mail. Volto ao final.

 

Original Message

From: A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL ERA UMA ARMADILHA?

To: cafecomgraca@caiofabio.com

Sent: Thursday, April 15, 2004 7:55 AM

Subject: A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL ERA UMA ARMAdilha?

 

Rev. Caio,

O site continua maravilhoso; é uma ambiência de Graça e profundo compromisso com a Palavra que sai da boca de Deus. Gostaria que o senhor pudesse me responder algo que ouvi do meu pastor.

Ouvi um sermão dele em que ele dizia que a árvore do conhecimento do bem e do mal tinha algo como que um fruto envenenado; tal qual a maçã que a Branca de Neve comeu. Minha pergunta é:

 

1-      Por que Deus colocaria uma armadilha no jardim para contribuir com a desgraça humana?

 

Resposta: Deus a ninguém tenta. Cada um é tentado pela sua própria cobiça. Todavia, não haveria liberdade se não pudesse haver a “escolha”.

 

Liberdade sem escolha é tirania. Aquela “árvore” era uma porta de escolha. E não havia nela uma droga especial, um alterador de consciência. Não! A droga nunca esteve fora do coração, mas na farmácia da alma.

 

A “árvore” poderia ser até um pé de saputi... Que o resultado seria o mesmo. A Árvore do conhecimento do bem e do mal tem na “árvore” a sua simbolização; pois, de fato, o fruto dela só viraria fruto de morte se comido com medo e culpa.

 

Se Adão e sua mulher tivessem comido sem saber que aquela era a “árvore”, nada lhes teria acontecido; apenas voltariam para “casa-jardim” de barriga cheia.

 

Portanto, não foi “árvore” que gerou a “queda”, mas a transgressão; e isto aconteceria até com manga-rosa.

 

2-      Seria o caso de que aquela árvore e seu fruto poderiam em algum tempo virem a suprir o homem?

 

Resposta: Ora, seja para o bem, seja para o mal, nós comemos do fruto dessa “árvore” todos os dias. O fato é que houve a Queda. Mas, misteriosamente, ela aconteceu, pela Graça do Cordeiro imolado antes da Fundação do Mundo, como uma queda para cima.

 

Afinal, se o Éden fosse o ideal da existência, não estaríamos indo para a Nova Jerusalém; mas sim para o Novo Éden.

 

Nada disso tira a responsabilidade do homem; porém, tudo isto nos mostra que todas as coisas concorrem conjuntamente para o bem dos que amam a Deus; até a Queda.

 

Com todos os percalços desta existência caída, eu ainda prefiro milhões de vezes ser quem eu sou — caído e redimido na Graça — do que estar vivendo na inocência semi-consciente do Éden.

 

Mas isto falo por mim. Há, todavia, quem goste mais da infância que da vida adulta. Eu gosto de todas as fases que vivi; mas não gostaria de voltar ao Jardim da Infância.

 

3-      A Bíblia diz em Gênesis 2:9 que o Senhor fez brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. O argumento do pastor é o seguinte: Somente a árvore do conhecimento do bem e do mal não deu fruto bom.

 

A minha dúvida é se é de fato possível que Deus tenha armado essa para o homem. Sei que Seus caminhos são mais altos que os nossos caminhos; mas, porque Ele plantaria com Suas mãos uma árvore que poderia levar o homem à morte?

 

Resposta: O fruto não era mágico. O coração é que produziu, pela culpa, a droga.

 

Espero sua palavra. Que Deus continue a abençoar toda a sua vida. Bom mesmo é comer da árvore da vida.

 

Paz!

___________________________________

 

Continuação da resposta:

 

 

 

A fé cristã ainda não se deu conta de que o Éden virou uma neurose na cabeça da humanidade. Ou é uma fixação perfeccionista, ou é uma nostalgia culposa... Mas este é o sentir cristão acerca do Éden.

 

Acerca do Éden como neurose eu escrevi, faz tempo, aqui no site, o seguinte:

 

Adão abriu os olhos e se viu Adão. Nascia a consciência de si mesmo?

 

Adão abriu os olhos e viu a si mesmo separado de Deus. Nascia o quê?

 

Nunca fui não-caído. Por isso não posso responder a nenhuma das questões acima. Para mim, pelo menos, não há como medir o que vejo a partir do que não vivi e nem conheci.

 

“Em pecado me concebeu minha mãe...” Sou caído. Vejo tudo desse lugar. Tudo que vejo, vejo apenas como vejo. Mas não sei se o que vejo é o que é. Daí eu ter que também andar pela fé.

 

Não sei quase nada. Mas sei que não dá para voltar ao Éden, pois ele não existe mais. O Éden deixou de ser no único lugar verdadeiro onde ele sempre existiu: o olhar-ser do homem.

 

Tudo muda em volta quando a gente muda dentro. É assim hoje porque passou a ser no Éden interior. Tudo é assim. E não estou no Éden!

 

Por que, então, sinto tanto sua nostalgia em mim? Será que ele me persegue? Não conheço nenhum Éden, ao mesmo tempo em que sou perseguido pelas suas memórias.

 

Por essa razão é que nunca mais se pode negar o que se perdeu, e também não se pode voltar ao que ficou para trás.

 

O Éden perdido é algo como o tempo: uma vez perdido vira sempre passado e nunca deixa de ser memória!

 

Assim, o Éden nunca vai embora. Insiste. Faz-se lembrar. Sugere a si mesmo como perda. Nós saímos dele e ele não saiu de nós como fantasia e culpa.

 

Eu acho que sei disso. Você também. Então, por que... o Éden?

 

Um acesso de pragmatismo me assola agora.

 

Quero encurtar este texto.

 

Eu grito: "Todos sabemos que somos caídos e todos sabemos o que é pecado, apesar de nunca termos vivido no Éden!"

 

"Como?" — indagam. "Pecado precisa de definição!" — afirmam.

 

Mas minha certeza é outra. Eu creio que Pecado não precisa de definição. Somente o indivíduo pode examinar a si mesmo a fim de discernir seu próprio pecado.

 

Ora, isto seria o equivalente a se enxergar cada vez mais, incluindo a admissão da existência de horas nas quais pensamos de nós para nós mesmos que não estamos pecando — pecando, assim, conforme a presunção de não sermos nós mesmos pecado, em nossa latente e patente ambigüidade em tudo, pelo menos ao nível da autopercepção.

 

A gente cresce. Cheguei ao estágio no qual o Éden vai virando História, e deixa de ser como lugar-não-lugar em nós. Agora é Passado. Nem me lembro dele. Mas ainda sinto a necessidade de me comportar conforme a impressão de sua idealização.

 

Então me julgo. Algumas vezes a meu favor, outras contra.

 

Os “acordos” da comunidade passam a ser o que há de mais próximo do Éden, para alguns, e para uns poucos, aparece como desespero de que quanto mais eu me aproximo, mais distante eu fico. Esse é o julgamento dos gentios que não têm lei, de acordo com Paulo!

 

Bem, eu já ouvi o Evangelho. Não sou mais “gentio”, no sentido pejorativo. Nasceu em mim uma nova criatura — digo de mim a mim mesmo.

 

Mas se é assim, por que não consigo voltar ao Éden? Mesmo conhecendo o Evangelho, por que não experimento as maravilhas do Éden?

 

Por que me sinto fora dele toda vez que abro a janela ou sempre que olho dentro de mim mesmo?

 

Nossa consciência nos acusa e nos defende — pelo menos de nós para nós. Isso é consciência da relatividade de tudo. Só Deus é Absoluto. Eu só enxergo a partir do mais-que-relativo.

 

Meu juízo absolutiza quase tudo para todos e relativiza quase tudo para mim mesmo, dependendo de onde eu estou como ser.

 

Todavia, as piores faltas do ser são sempre aquelas que sobreviveram tenazmente como “nossas características relativas de identidade”. E damos a elas autorização para rugirem para dentro.

 

Desse modo, garantimos que elas não existam apenas porque ainda não se exacerbaram como caricaturas momentâneas de nossa realidade interior do lado de fora.

 

"É para esse lugar de encurralamento que Jesus nos leva primeiro?" — indagamos nós.

 

Não sei com você, só sei que comigo foi-é assim!

 

Ele me abismou na consciência de minha perdição sem a Graça!

 

Ele me convenceu e me convence de pecado!

 

Ele me desesperou ante a constatação de que eu precisava e sempre precisarei do meu Salvador!

 

Mas me fez ver que nem sabendo disso eu conseguiria voltar ao Éden. O Éden continuava no passado e eu não tinha e nem tenho como voltar para ele.

 

Então fui me acostumando! Recebi meu Salvador. Seu nome é Jesus. Confessei que recebi perdão em Sua Graça. No início, a Graça me soava como um elogio.

 

Depois de um tempo, como “um recurso”.

 

Então, virou algo que existe. Mas que, de preferência, a gente nunca deveria precisar em relação ao nosso próximo, pois perdemos a fé nos outros na mesma medida em que nos julgamos certos de nós mesmos.

 

Como “somos bons”, garantimos Graça para os outros. Mas já não preciso tanto desse “recurso”. Nesse ponto dizem que viramos “santos”.

 

O Éden, todavia, permanece no passado. E nós não chegamos a lugar nenhum. Há apenas um Paraíso do é-futuro-futuro-é, pois eis que para mim ainda não chegou, mas já é! “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” — ouviu o ladrão.

 

Agora eu sabia que o Paraíso não estava ao alcance das mãos ou dos sentidos animais. O Paraíso pertencia ao Celestial. A formatação do texto está ruim? Clique aqui para que o sistema tente ajustá-la.