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Cartas

 O V. TESTAMENTO ESTÁ CHEIO DE CAUSA E EFEITO: como é isso?

O V. TESTAMENTO ESTÁ CHEIO DE CAUSA E EFEITO: como é isso?

 

 

 

 

----- Original Message -----
From: O V. TESTAMENTO ESTÁ CHEIO DE “CAUSA E EFEITO”: como é isso?
To: contato@caiofabio.com
Sent: Friday, June 23, 2006 1:48 PM
Subject: Lei de causa e efeito no VT


Graça a você Caio!


Estou feliz deste contato que posso ter contigo. Já li o Enigma da Graça e agora estou lendo o Sem Barganhas e, para mim, já está ficando bem claro sobre a teologia moral-de-causa-e-efeito e seu prejuízo nas vidas. Mas lendo o Velho Testamento me parece que esta lei está bem acentuada. Estou lendo os salmos e me parece que a lei-de-causa-efeito está ali estampada. Também em Provérbios.

Seria correto afirmar que esta lei ou teologia da terra foi pregada e praticada no Velho Testamento?

Abraço, Caio!


Daniel
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Meu amado amigo: Graça e Paz!

 

O seu conflito, ou questão, nem Paulo e nem o escritor de Hebreus tinham. Digo isto porque Paulo, que conhecia o Antigo Testamento e todas as tradições a ele ligadas, lutou contra a Teologia Moral de Causa e Efeito em todas as suas cartas. E mais: ele recorre ao Antigo Testamento, aos salmos, e aos profetas, a fim de mostrar que aquela “Fase Humana” havia ficado sepultada em Jesus; e que, conforme as mesmas Escrituras, em Cristo começaria uma nova consciência, com a lei gravada no coração, não como mandamentos de exterioridades, mas como percepção fundada no amor, na justiça e na verdade — tudo isto “inscrito no coração”.

Paulo também diz que a Lei foi dada, e com ela as causalidades e seus efeitos, a fim de que se avultasse a consciência do pecado em nós. O próprio Paulo também diz que a Lei era parte da infância da consciência, pois nos servia de guia, de aio, de servo que pega e leva para a escola — embora, agora, já andando no Caminho pela fé, ele diga que já não se precisa mais da Lei-Babá.

Além disso, toda a argumentação de Paulo acerca da justificação pela fé conforme o dom da Graça, se fundamentava nas declarações dos salmos e dos profetas; bem como, além do que estava declarado, ele, Paulo, interpretava o que estava apenas implícito na leitura — e ele faz isso lendo a Escritura a partir de Jesus, e não Jesus a partir da Escritura.

Isto porque Paulo lia o Velho Testamento a partir da consciência histórica adquirida em Jesus. Ou seja: Jesus era a “Chave Hermenêutica” de Paulo.

Assim, a partir dessa “Chave Hermenêutica”, Paulo interpreta a Abraão, a Sara e Hagar, a Ismael e Isaque, a Esaú e Jacó, etc... — sempre visando mostrar como Jesus era o cumprimento de todas as coisas. E foi também a partir da mesma “Chave Hermenêutica” que o escritor de Hebreus interpretou o VT.

O escritor de Hebreus chega ao ponto de dizer que Jesus era maior do que Moisés, e maior do que tudo no Velho Testamento. Portanto, tornando tudo o que era pertinente à Velha Aliança, coisa obsoleta e que não tem mais nenhuma utilidade.

Assim, o que se tem no VT é o seguinte:


1. A justificação pela fé, mediante a qual todos foram justificados, de Adão a João Batista. Hebreus 11 declara isto. E isso embora as pessoas vivessem sob “o regime da lei”, conforme Paulo. A justificação, entretanto, segundo Hebreus e Paulo (em todas as suas cartas), sempre aconteceu pela fé, e nunca pela Lei. Esta é afinal a tese de Paulo em Romanos e Gálatas; em especial.

2. A busca humana de se justificar pela Lei; pois, estava dito que aquele que desejasse se justificar pela Lei, esse teria que cumpri-la toda. E Jesus, dando continuidade aos profetas, deixou claro que tal obediência à Lei deveria ser por dentro e por fora. Mas é Davi quem diz: “Se observares iniqüidade, quem, Senhor, subsistirá?” Para então também declarar: “Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniqüidade”.

3. A declaração, especialmente fundada no Livro de Jó, de que as calamidades da vida não são absolutas quanto a determinar o juízo de Deus sobre os homens. E Jó é a prova disso. Normalmente, todo homem acaba colhendo o que planta, mesmo que isto não chegue com cara de calamidade. Muitas vezes somente a própria pessoa sente as conseqüências. Entretanto, conforme Jó e o Eclesiastes, as calamidades não nos vêem como aplicativo absoluto de uma Lei de Causa e Efeito; e, menos ainda, têm elas, as calamidades, o poder de justiça; pois, muitas vezes, é o homem inocente de certos males aquele que recebe as suas conseqüências; e, muitas vezes, aquele que faz algo que deveria trazer um efeito negativo equivalente ao mau-causa praticado, aparentemente, sai ileso — o que ninguém sabe é o tamanho do desmonte na alma desse ser; pois, quando não vem como mal externo (calamidade), sempre vem como mal interno (medo, solidão, angústia, designificação existencial, amargura, sofreguidão do ódio, desespero da morte, etc...).

4. O que não há no Velho Testamento é justificação sem Sangue. Portanto, na Antiga Aliança, tudo, a própria Lei, foi sancionada com derramamento de sangue; conforme o primeiro rito de “vestimenta espiritual” praticado “por Deus” no Gênesis, quando vestiu o homem e sua mulher com as peles de um animal morto para vesti-los.

Assim, meu irmão, no Antigo Testamento nós tanto temos a manifestação da primitividade da consciência e da devoção humana; assim como temos a linha mestra de indicação do Caminho, e que é uma linha carregada de sangue de bodes e de touros; até que chegou o Cordeiro, que já havia sido imolado desde antes da fundação do mundo (portanto, infinitamente anterior à Lei); e, Nele, toda a Lei — tanto os mandamentos de conduta individual e social (10 mandamentos; por exemplo) como também as leis e ritos cerimoniais — foram cumpridos; e com isto tudo o mais se torna obsoleto; visto que o que agora prevalece explicita e encarnadamente é o Evangelho; e, nele, a obediência é conseqüência da fé que atua pelo amor que nasce do Amor que nos amou primeiro; e que se entregou por nós.

Para os que ainda são da Lei, a emoção prevalente como “motor da obediência”, é o medo. Já no Caminho do Evangelho nada tem sentido se o motor do ser não for amor e gratidão expressos na fé que atua pelo amor.
 
Por último quero dizer que na existência existe causa e efeito em tudo (na justiça legal, nas leis naturais, nas leis econômicas, nas leis físicas, nas leis relacionais, nas leis conjugais, nas leis negociais, etc.) — menos no que tange a salvação em Cristo, conforme o Evangelho.
 
No Evangelho a Lei fica para o Estado na regulamentação dos vínculos sociais (Rm13). Mas ela, a Lei, nada tem a ver com a justiça de Deus para salvação, que salva o condenado pela Lei, como o ladrão ao lado de Cristo; posto que opera segundo a Graça que é mediante a fé, que também é Graça; pois é também dom de Deus; assim como dom de Deus também é o próprio arrependimento. Pois tudo provém de Deus!

Assim, no tempo Antigo, temos gente tentando viver pela Lei, com toda sinceridade; temos gente fazendo de conta que guardava a Lei, com toda insinceridade; e temos gente que guardava a Lei por fé e esperança num Amor Maior; conforme Hebreus 11; e também de acordo com o todo do Evangelho e com inúmeras afirmações de Paulo em suas cartas, mas em especial Romanos de 9 a 11.

Espero ter clarificado alguma coisa a mais para você!


Nele, em Quem Deus tira o pecado do mundo com Sangue desde antes da fundação do mundo,

 

Caio