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Histórias

VIVA O ÓCIO CRIATIVO E CONTEMPLATIVO!

VIVA O ÓCIO CRIATIVO E CONTEMPLATIVO!

 

 

 

 

VIVA O ÓCIO CRIATIVO E CONTEMPLATIVO!

 

 

 

 

Admito sem problemas o fato de eu ser membro de uma família de gente que não sabe relaxar.

 

Somos sérios, embora alegres. De meus avós paternos veio a gravidade européia de minha avó de ascendência francesa, misturada com a atitude arigó e trabalhadora de meu bisavô, a qual foi herdada por meu avô, João Fábio, e, por ele transmitida a todos os filhos e filhas, sem exceção. Talvez apenas meu tio Renato Fábio, que se mudou para o Rio ainda bem jovem para estudar, e que pela permanência na Cidade Maravilhosa, vindo a casar-se com uma mulher de alma carioca, tenha sido o único dos filhos de meu avô a ter aprendido o poder do ócio leve e feliz.

 

Do lado de minha mãe o peso do trabalho e da sobrevivência jamais derem lugar ao riso frouxo ou à incontinência no uso do tempo. Minha avó materna, a Mãe Velhinha, chegava a ser neurótica em seus muitos e infindos afazeres, todos justificáveis e necessários, porém, nem por isto, menos excessivos.

 

Quando menino a Mãe Velhinha me acordava bem cedo, por vezes às 5 da manhã, com o argumento de que quem não via o sol nascer não conhecia o dia.

 

Por razões diversas, que combinavam a cultura familiar, a neurose da Mãe Velhinha, as ansiedades do Buraco Negro Existencial que me sugava para o que eu chamava “vida” naqueles dias juvenis, mais os estresses de uma existência perigosa até aos 18 anos — fugido mais de uma vez da Polícia, e algumas vezes ameaçado de morte —, acabei me tornando uma pessoa que dormia pouco e que considerava o sono tanto um desperdício como um crime contra o dia, contra a vida, contra a vigilância, contra o curtir; e, depois de convertido, um crime contra o significado de ser útil, tanto quanto fosse possível.

 

Depois dos 19 anos, permitindo que entrasse no meu dia mais do que no dia cabia, com hordas de possessos à porta, e toda sorte de aflitos e aflições tendo prioridade sobre tudo na minha vida; da manhã bem cedo à noite ou em meio à madrugada, não havia trégua; lembrando ainda de mencionar a muitas e diárias pregações, os longos jejuns, alguns por dias a fio, e a incansável dedicação à leitura — minha vida tornou-se um estado de Zumbi do Bem: amante da libertação humana, e entregue ao serviço do reino de Deus; porém, incapaz de não me sentir culpado caso admitisse somente para mim mesmo que estava cansado e precisava descansar.

 

Era pecado ficar sem fazer nada, a menos que eu estivesse lendo, escrevendo ou jejuando e orando.

 

Mas andar à toa e dormir sem hora para acordar, era algo que eu não sabia o que era e nem mesmo como era possível que algumas pessoas conseguissem praticar em paz.

 

Eu não acordava. Eu pulava da cama. Sempre como se fosse tirar “o pai da forca”. Sim! Havia uma culpa latente em mim, e que era pura neurose do fazer, da utilidade e da seriedade de ser.

 

Foi preciso que eu acordasse morto no final de 1998 para que eu pudesse “relaxar”.

 

O poder que me parou foi o fato de ter acordado e visto que eu morrera; e, assim, pela total raiva de estar naquele estado, foi que me dediquei ao lazer e ao descanso desesperado de agonia.

 

Era lazer para não morrer!

 

No meu livro “Nephilim”, o personagem central, Abellardo Ramez II, também não sabe descansar. De fato seu grande desejo na vida era poder sentar quando estivesse sentado, e, quem sabe, desenvolver o poder de mesmo andando, andar como quem descansa.

 

Quando escrevi o livro eu não conhecia Adriana ainda. Entre o ter escrito e sua publicação — que foi quando vim a conhecer a Adriana, no lançamento do livro — sonhei com ela, Adriana, três vezes, sem saber quem ela era. No sonho ela vinha leve como um anjo e me dizia: “Eu vim para você ter descanso. Para dar descanso! Venha!” E me mostrava uma grande cama. Eu ia... Então, acordava.

 

Depois que nos conhecemos, logo depois, perguntei a ela se tendo que me oferecer um único cenário na vida, que cenário seria esse. Ela pensou e disse que seria uma grande cama, num quarto amplo, com muitos livros, e com as portas abertas para os nossos filhos entrarem e saírem.

 

Assustei-me. Eu nunca dissera nada a ela do meu sonho e nem de meu desejo ardente de descansar.

 

“Por mim você teria férias remuneradas por umas três vidas, apenas pelo que já viveu e fez até aqui” — me disse ela.

 

Logo percebi que ela era o oposto de mim. Onde eu era stress ela era total tranqüilidade. Dormia com prazer. Amava ficar rolando na cama. Deitada fazia todas as suas devocionais antes de sair da cama todas as manhãs. Orava horas no banheiro tomando banho. E sempre se atrasava em tudo.

 

Tive [ainda tenho... rsrsrs] que trabalhar o atraso dela. Mas, no mais, foi adaptação minha ao que eu não sabia fazer, nem provar, nem curtir e nem viver: o descanso para o meu corpo e mente.

 

Foi ela que foi amansando o meu levantar e o meu deitar.  

 

Hoje, continuo não sendo um grande dormidor. Porém, durmo até não agüentar mais, o que, para mim, infelizmente, não é mais do que umas cinco horas por noite, e, em havendo muito relaxamento, talvez umas sete horas de sono eu consiga hoje em dia agüentar. Depois de tal tempo a cama me expulsa: o corpo dói todo.

 

A maior mudança, no entanto, está acontecendo acordado.

 

Sempre amei ficar quieto e só, mas quase nunca era possível. Daí os aviões, durante mais de trinta anos, terem sido meus lugares de silencio e produção de textos. A maioria dos meus livros foram escritos literalmente nos ares. Afinal, não apenas foram milhares de viagens, até quatro ou cinco vezes por semana, mas também milhares e milhares de horas de silencio.

 

Mas eu não sabia descansar no chão e nem na presença das pessoas, exceto minha família. Entretanto, até mesmo com a família eu me impunha limites, parece que para que eu não me acostumasse ao ócio. Levava os meninos para esquiar na neve uma vez por ano, mas enquanto eles se divertiam eu lia teologia ou qualquer outro livro de bom saber. No principio até na Disneylândia eu lia enquanto eles se divertiam. Parecia que eu não tinha o direito de ficar à toa.

 

Então veio a Adriana...

 

Então veio Copacabana...

 

Então veio o mar todos os dias...

 

Então veio a naturalidade de ficar leve e simples...

 

Então veio Brasília...

 

Então veio, bem devagar, o relaxamento que hoje me permite dizer: “Chega! Agora não! Hoje é meu dia de Sábado.”

 

E mais:

 

Hoje não consigo nem mesmo imaginar como foi que consegui viver a vida toda sem relaxar!

 

Até no Jiu-Jitsu eu não relaxava. Nunca gostei de treino com “pano”, pois, para mim aquilo ainda não era real, e eu queria era ficar bom de briga. Portanto, era sem pano que eu treinava. E gostava de me oferecer para ser sparing dos melhores lutadores.

 

Hoje faço logo tudo o que preciso e tenho de fazer a fim de que me sobre o máximo de tempo para não fazer nada.

 

Sim! Estou amando o ócio criativo. Quanto mais relaxo mais emerge a criatividade.

 

Digo isto sabendo que há tempo para tudo, inclusive para correr muito. No entanto, o plano de Deus é que a vida tenha seus “sábados para o homem”, do modo como Jesus o fez, pois, lutando contra o sábado como legalismo, Ele, no entanto, abriu o sábado para o descanso do homem, sendo que o próprio Jesus não tinha nenhum pudor quanto a deixar as multidões esperando horas ou até dias, enquanto Ele apenas ficava só.

 

Conto isto como viagem minha, não como proposta para ninguém. No entanto, se você está podendo ficar quieto e não fica por pressão da ansiedade e dos vícios cerebrais de produtividade social e econômica, considere a possibilidade de que tal vereda viciada pode estar fazendo grande mal a você, na mesma medida em que impede você de provar o grande bem que poderia lhe estar sendo benção no dia de hoje; e isto apenas pela benção do descanso sem culpa e sem obrigação de descansar ou de coisa alguma.

 

Receba meu carinho!

 

Nele, que disse: “Vinde repousar um pouco em um luar solitário”,

 

 

Caio

5 de janeiro de 2009

Lago Norte

Brasília

DF