Português | English

Reflexões

VISÃO É LOUCURA, MAS HÁ UMA QUE ILUMINA!

VISÃO É LOUCURA, MAS HÁ UMA QUE ILUMINA!



Hoje é dia 27 de dezembro de 2005. A noitinha vem chegando. Há uma melancolia infantil quieta em meu peito. E, por me sentir desse modo ‘agora’, lá fora, a agitada Barata Ribeiro, se aquietou e se vestiu de mata e se cobriu de perfume silvestre das florestas eternas de meu sentir infantil. Assim, querendo nós ou não, por mais realistas e isentos que sejamos, o real-subjetivo é que determina a objetividade de nossa percepção daquilo a que chamamos ‘realidade’. Ou seja: é o ver interior, que é anterior até mesmo ao sentir, aquilo que determina o sentir, e este o “ver” a realidade. Ora, se é assim, o que é então o que determina este ‘ver anterior’ que é anterior até mesmo ao sentir? Antes de dar minha opinião, quero dizer que a maioria das pessoas vai achar que estou ‘viajando’. No entanto, com toda consciência, quanto mais o tempo passa, mais convencido fico de que os mundos são todos criados dentro de nós. E por uma razão: esse é o modo de Deus; pois o próprio Reino de Deus está em nós, e só se manifesta de modo visível se pré-existir em nós. Deus, que é Alguém, cria sempre do nada para o algo, até chegar a alguém outra vez; ou seja: `a Sua imagem e semelhança. Daí em diante, alguém (qualquer alguém) só construirá para o bem, se construir à semelhança de Seu Criador: do nada para o algo, e do algo para alguém. “Alguém” é sempre o ápice de todas as coisas... em qualquer escala do existir e da existência. E todas as coisas que são, vieram das que não são. Ou seja: o que é; um dia não-era. Somente Deus é; e nada havia com Ele em Seu ato de dizer: Haja! — para então tudo começar a ser. Assim, para mim, a realidade-real é sempre aquela que vem do que não era. As demais coisas são “estelionatos do real”. São fantasias. Porém, como são visíveis de modo objético, são chamadas de reais. Mas que visão anterior ao sentir é esta que altera toda a realidade? Quando os discípulos estavam na tempestade e Jesus aproximou-se andando por sobre as águas, eles não o reconheceram. No entanto, o que Ele lhes disse antes de tudo foi: “Não temais! Tende bom ânimo!” Não temer e ter bom ânimo. Era o que poderia manter-lhes a lucidez naquela hora tão assombrosa, tanto do ponto de vista natural quanto também na perspectiva sobrenatural. Afinal, além de águas que queriam engoli-los, havia também um “fantasma” andando sobre as águas. De onde vêm tais poderes: Não temor e Bom ânimo? Sim, porque se a realidade-real-e-boa é feita desse sentir, eles precisam ser levados mais a sério do que qualquer outra coisa na nossa lista de crescimento interior. De outro lado, não aprender a controlar o temor, o medo essencial, e, por tal razão, entregar-se ao desanimo dos que já saem vencidos, deveria nos fazer também cautelosos quanto ao aninhar do medo em nossas almas. Só não teme e somente tem bom ânimo, aquele que não teme porque tem bom ânimo! Que ajudão eu dei ao seu pensar, não foi? Brincadeira. Parece bobagem e ‘jogo de palavras’, mas não é. Isto porque não dá para temer e ter bom ânimo ao mesmo tempo. No medo não há ânimo para nada, a não ser, na melhor das hipóteses, para “enterrar o talento”. É somente na confiança de quem “está em casa” que se tem ousadia de aumentar o ganho ou de procurar “a dracma perdida” até achá-la, conforme ensinou Jesus. Assim, é o não-medo aquilo que deflagra o bom ânimo, e este é que tem o poder de alterar a realidade para o bem. O medo, porém, tem o poder no mínimo da imobilidade covarde; mas, a maioria das vezes, o que ele produz é inatividade perversa e omissa. Sim, o medo deixa todos os mundos acabarem; ou, então, ele mesmo, pelo seu agir contra o bom ânimo, caotiza qualquer mundo. E aqui está mais um paradoxo: O medo realiza tudo aquilo que teme, pois, não havendo ‘bom ânimo” , o dês-ânimo provocado pelo medo, carrega o germe da auto-destrutividade, sem falar que o medo exala convite à desgraça. Não temer e ter bom ânimo são as recomendações de Jesus quando se está no meio da Realidade da Tempestade! Sim, mas de onde vêm tais poderes? Alguém apressadamente responde dizendo:“ do interior” —, sem explicar que é também do “interior” que procedem “maus desígnios”. Portanto, não se trata de algo que, por “vir do interior”, carregue em si a virtude de algo “profundo”. Sim, porque existem as “profundidades interiores do mal”— e isto em todos nós! De fato, a libertação do medo e o bom ânimo, os quais se retro-alimentam, nascem apenas no berço da Confiança. Sim, a pessoa tem que confiar em Alguém, embora haja aqueles que até mesmo confiem em algo. E não é possível negar tanto na prática quanto psicologicamente, que qualquer tipo de confiança produz segurança, ousadia e feitos. Sim, uma pessoa confiante, ainda que com pequenas e medíocres motivações, produzirá, “para o lado de fora”, muito mais do que uma pessoa acovarda e insegura, mesmo que seja inteligente. No entanto, tais “auto-ajudas” têm seu teto baixo, pois são ainda apenas mecânicas de autotreinamento do homem; sendo o homem e seu saber, a medida e a proporção do poder adquirido. Assim, pela auto-ajuda, dá pra surfar ondas pequenas, mas não dá pra enfrentar o Tsunami da existência quando ela se tipifica como dor e desgraça. Ou seja: como Tempestade de Angustia e Perplexidade, e em cujo tempo até Deus parece com um fantasma! Mas Jesus disse que era para “não temer... e para ter bom ânimo” em meio à tempestade e também diante da perplexidade. Sim, porque as vezes, além da tempestade, somos visitados pelo assombro, pela visão fantasmagórica de Alguém andando por sobre as águas. Quem é de Jesus e Nele já cresceu em confiança um pouco mais, não tem que ter medo de nada, nem do absurdo, nem de fantasmas, nem das estranhezas de Deus, nem de qualquer outra criatura... Assim, para se ter “auto-ajuda”, basta um bom treino mental e de etiqueta relacional. Mas para enfrentar a Deus como fantasma e a tempestade como açoite — sendo que Jesus mesmo os havia estimulado a atravessar sozinhos —, tem-se que reconhecer uma Voz. “Não temais! Sou eu! Tende bom ânimo!” — bradou Ele. Assim, não há “do lado de fora”, em nossas realidades e seguranças, nada que nos valha na hora da Tempestade que não brinca! Tem gente pensando que tempestade é aquela hora na qual as crianças ficam felizes no fundo do quintal tomando banho de chuva. Quem dera! Vejo os homens ‘mais que fortes’ sucumbirem quando a visão interior é de medo e pânico, ou quando vêem que seus poderes pessoais se acabaram! “Sou eu!”— também disse Ele. E, conquanto estejamos outra vez entrando no âmbito da realidade intangível e impossível de ser “provada” com “provas”; digo, à luz da realidade observável, que sem esse Supremo “Sou eu” nosso poder se desvanece ante os primeiros banzeiros da existência. Esse não-medo, de fato, chama-se Confiança no fato de se ser amado por Alguém que é o sentido de tudo; e esse bom ânimo é a fé que se origina na confiança de que esse Alguém ama, me ama; e anda, ainda que de estranhas maneiras, em minha direção; e entende meu temor; e me anima dizendo que é Ele mesmo quem está ali, comigo, em minha fraqueza. É dessa possibilidade de ver o “Eu sou-Sou eu” por trás de tudo, e que é um ver antes de tudo, pois é um ver-ser-em-nós, é que se pode andar sem medo e, portanto, com bom ânimo. Sem Deus no mundo, à exceção de alguns truques de bem-estar-químico que a natureza descarrega em nós aqui e ali, e as gratificações de circo que a sociedade nos propõe como méritos e honrarias enganosas, o que resta é vontade de chutar cão, de amarrar rabo de gato no telhado do vizinho incomodo, de abusar de todos os abusivos, de dar na cara antes de levar, de viver de modo tão cansado que seja um existir esgotantemente morrendo... ainda que se chame a isto ‘meu prazer e minha escolha’. Sem Deus no mundo, que bom ânimo há? Sei que me mataria se vivesse sem Deus no meu mundo, onde a Vida nasce, em meu coração! Com isto dou testemunho de que vivo sem medo de morrer e nem tampouco de viver! Sei que a Placa de Procura-se que existe a meu respeito diz o seguinte: “Procura-se Caio vivo!” — pois não posso mais morrer. Surtei no amor de Deus e fiquei eterno, imortal, inacabado para sempre... porque sou sempre sendo Nele!... Quando mudo minha visão interior, e a projeto no que se chama de Realidade (essa coisa que os olhos vêem), e me deixo invadir por ela, impressionando-me com suas muitas ondas e tsunamis, sinto que na mesma hora a Realidade vai crescendo em poder sobre mim, e vai transformando minha visão em algo muito maior e mal, a qual me é devolvida como pessimismo e inoperância existencial, uma espécie de “deixa pra lá”... um “let it be”...; só que contra o ser; pois não é misericórdia com os bobos, mas desistência do “bom ânimo” para viver. E tal estado eu também conheço razoavelmente bem! “Pedro, vendo que era Jesus,... foi ter com Ele andando por sobre as águas. Reparando porém na força do vento e das ondas, teve medo; e começou a submergir. Jesus porém o socorreu, tomando-o pela mão; e dizendo-lhe: ‘Homem de pequena fé, por que duvidaste?” Basta perder a visão interior, do coração, e olhar a realidade tangível, e com ela se impressionar, que mesmo aquele que ousa andar sobre as águas começa a submergir. “Bem-aventurado o homem cuja força está em Ti, e cujo coração estão os caminhos aplanados; o qual, passando pelo vale de Baca, vale árido e de lágrimas, faz dele um manancial”. É assim que a poesia dos salmos diz o que estou aqui tentando fazer ficar um pouco mais claro aqui, para mim e para todos. Ora, é em razão de que o real-está-no-coração que Jesus diz que Seus discípulos seriam felizes apesar de qualquer realidade; fosse aprendendo sempre em humildade, mesmo que sabendo; fosse chorando, mesmo que sendo herdeiro; fosse sendo perseguido como injusto, mesmo que seja justo; fosse não sendo entendido, ainda que só estivesse desejando a paz; fosse perseguido em razão da justiça do bem que realiza como extensão do bem de seu coração. “Makarius”, bem-aventurados, ainda que seja apesar de tudo! Jesus chega mesmo a dizer que a “realidade”, o “mundo exterior”, não teria o poder de nos tirar a alegria de viver, de crer, de exultar, de esperar dos Céus o Filho do Homem! Esta tal alegria é aquela que Ele disse que o mundo não tinha e nem teria poder de nos rouba-la do coração. Todavia, para que seja assim, o nosso ver-essencial precisa enxergar a partir dos paradigmas do interior, do que vale para sempre, e do amor que é. Do contrário, não há ninguém que não venha a submergir ante o pânico da tempestade — é só uma questão de tempo. Alguém diria que essa tal fé é também um “truque da mente”, sendo também uma “fabricação mental”. Portanto, também humana e de natureza “psicológica”. Ora, para quem deseja penar assim, eu acho justo que assim seja. Afinal, no plano da subjetividade, qualquer um pode dizer o que desejar; e a única demonstração de verdade, nesse caso, é a vida, o amor, a paz, a graça, a bondade, a vontade de ser para o que é bom e faz bem. Por esta razão eu sou daqueles que não tenta provar nada a ninguém. Eu apenas afirmo o que creio. E aprendi isto com Jesus. Ele nunca discutia, Ele apenas fazia. Ele era e demonstrava. Ele provava em-si-mesmo, assim, Ele era a prova. Também foi por esta razão que quando Pilatos perguntou a Ele o que era a Verdade, Jesus nada disse. Ora, Ele era a verdade e estava ali, bem na frente de Pilatos! O que poderia Ele dizer? Eu existo? Não podes me ver? Sim, logo Ele, que ensinou que quem quer que deseje saber se a verdade do Pai é verdade ou não precisa antes saltar e a ela se entregar? Não! Ele não tinha discursos gregos e apologéticos a fazer nem a Pilatos e nem a ninguém. Não! Ele simplesmente se manifesta como quer e a quem quer. Assim, quem beijar, beijou; quem não beijar, quem sabe, não beije mais... Pelo menos por um bom longo quase eterno tempo. O Evangelho e Jesus são a mesma coisa. Portanto, não é um corpo de doutrinas, mas uma visão ulterior da própria existência, e que produz o fruto da coragem de ser e do bom ânimo apenas porque quem Nele crer, esse provará que Deus é vivo. Quem, porém, não crer, apenas lamento muito. Não aquele lamento perversamente calamitoso dos crentes-de-si-mesmos. Mas tão somente o lamento daquele que provou e que apenas pode convidar a que se prove também. No entanto, para quem acha que tudo não passa de um truque da mente, desejo propor a esse tal que desenvolva uma “auto-ajuda” que seja eficaz quando a desgraça chegar de súbito, quando a enfermidade comer a quem ele ama, quando um atravessar de rua levar um filho que ele mais que ama, quando sua vontade de fazer o que é bom for tratada como maldade... Sim, quero ver tal “auto-ajuda” ser suficiente quando as portas do absurdo se abrirem e quando as caretas mais cruéis da existência se tornarem os motivos de seu baile de mascaras. Não é sarcasmo! Se você acha que é, então, perdão, mas é que você não tem o que por no lugar! Quem será? Ou, quem sabe: o que será? — “isto” ou “este” que você porá em tal lugar interiormente divino? Eu sei em Quem tenho crido, e estou bem certo de que guardará o meu tesouro até aquele Dia! Sim, porque a única visão interior é essa Loucura do amor de Deus por nós! O resto é loucura. Mas o que salva a alma para ver a realidade tem de ser mais que loucura. Sim, tem que ser Loucura, dessas que fazem os gregos pirarem e os judeus fazerem araquirí. E tal Loucura mais que louca, é a doença de Deus, é Seu pathos, é sua paixão, é Sua total Loucura, Seu lindo e Absurdo devaneio de amar! Nele, que é — creiam ou não; queiram ou não; admitam ou não — a Loucura que Ilumina o que real e verdadeiro, Caio