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Reflexões

UMA VELADA BLASFÊMIA!

UMA VELADA BLASFÊMIA!



Alguém disse numa entrevista à revista Refletir, que circula entre os evangélicos nos Estados Unidos, o seguinte: Refletir: Esta falta de convicção, passa pela ausência de pregadores da graça de Deus? Entrevistado: Talvez haja pregação de graça barata. Deus é um Deus de leis. Toda a criação se baseia em leis, leis, leis, naturais, morais e espirituais. Toda causa tem um efeito. O que é a graça? É escapar do efeito da lei. Em vez de receber punição, castigo e morte, alguém vai me perdoar. Se eu pregar esta idéia com muita veemência e não colocar nada sobre a lei de Deus na criação, o que a pessoa vai pensar? Que Deus leva todo mundo para o céu. Não tem inferno, o purgatório já quase desapareceu - risos. O inferno também está desaparecendo, e daqui alguns anos ninguém mais vai falar no inferno. Isto significa que Deus é gracioso para com todo mundo... Deus aceita todo mundo. É impressionante a incapacidade das pessoas quanto a discernirem algo simples sobre Deus em relação à Sua criação, e, em particular, à salvação espiritual dos seres humanos. No texto acima o entrevistado diz que “Deus é um Deus de leis”... e continua dizendo o seguinte sobre a Graça de Deus: “Toda causa tem um efeito. O que é a graça? É escapar do efeito da lei. Em vez de receber punição, castigo e morte, alguém vai me perdoar. Se eu pregar esta idéia com muita veemência e não colocar nada sobre a lei de Deus na criação, o que a pessoa vai pensar? Que Deus leva todo mundo para o céu”. O entrevistado ficaria muito irritado se Deus de fato decidir levar todos para o céu. “Que raiva! Que ódio! Que desrespeito para comigo!” Assim, pelo visto, o entrevistado espera que seu premio seja que Deus mande alguns maus para o inferno, pois, do contrário, de que teria adiantado a ele ser bom? Falta ao entrevistado puro e simples prazer em Deus, pois, quem assim vive não sofre dessas amarguras! Nosso entrevistado, pelo que anunciou, precisa ser salvo pela sua obediência à lei. Afinal, Deus é um Deus de leis. Ora, de fato, nosso amigo está no “samba do crioulo doido”. Para Ele Deus corre riscos ao se ensinar muito “veementemente” acerca da Graça de Deus. E por quê? Porque Deus é um Deus de leis, e a prova disso é o mundo físico, onde tudo obedece a leis de causa e efeito. Nesse caso, a Graça acabaria com a consequencialidade das leis de causa e efeito, pois, apesar de haver leis no universo, a Graça faria uma relativização desse absoluto, posto que nela, pela fé, colhe-se o que não se plantou com as próprias mãos (obras), e ceifa-se o que não se semeou com as próprias obras (Graça). Ora, o próprio universo físico, que na sua maior parte obedece a leis fixas (há exceções), conhece a contradição em relação a essa fixidez. Hoje se sabe que um Buraco Negro opera de modo a fazer do efeito, causa. Ou seja: os buracos negros surgem quando estrelas morrem. Assim, quando de sua morte, elas explodem; e tal explosão que espalha matéria pelo universo, tem algo diferente acontecendo em seu núcleo. O núcleo implode, e isto acontece de tal maneira que tudo aquilo que era até então matéria e massa, entra num colapso estranhíssimo, posto que toda matéria cai em si mesma, e se anula obedecendo a um processo de auto-anulação e de compressão, de tal modo que uma grande estrela se torna tão mínima quanto uma partícula que só pode ser vista de microscópio. Ora, esse “centro-de-algo” que é quase que anti-matéria passa a devorar tudo o que sendo massa passe em seu caminho. E tamanho é o seu poder de engolir matéria, que muitos sois podem ser chupados para dentro desse quase-nada, ao ponto de que o almoço estelar de tais buracos negros poderia reduzir muitas estrelas ao tamanho de uma ervilha. Assim, no próprio universo físico as leis invioláveis são anuladas e comidas pelo Buraco Negro. Sendo assim, até naquilo que se julga fixo e inalterável—o universo físico—, uma aberração antitética se manifesta, e anula o que para nós é inanulável. A confusão do entrevistado é básica. Ele confunde as leis que operam no universo físico com a Lei de Deus. E confunde a Graça de Deus com Libertinagem. Falta a ele a compreensão de que se no universo físico existem leis quase fixas—isto porque o tempo dessa inocência acabou para a ciência Física—, mas que no mundo do espírito a Lei das Leis é a Lei da Graça. As leis fixas Deus estabeleceu. A Lei da Graça Deus estabelece. Uma é fixa. A outra é viva, e tem aplicabilidade imprevisível e em estado permanente, sendo pertinente tal conhecimento apenas a Deus. O medo do entrevistado é que se alguém anuncia a Graça de Deus, o resultado pode ser que Deus seja visto como bonzinho demais, e, assim, as pessoas percam o medo de Deus, e o desobedeçam. Esquece ele que é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento, e também que é o constrangimento do amor de Cristo aquilo que faz nascer a nova criatura em nós. O entrevistado também esquece que o próprio universo físico é nascido da Graça, posto que o Cordeiro de Deus foi imolado por estrelas, sois, luas, e todas as criaturas—especialmente a criatura humana—antes que houvesse mundo. Desse modo, diga-se ao entrevistado que não há nada que não seja Graça, e que a própria Lei, mesmo na sua vigência mais dura, ainda anunciava que Deus visitaria a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração, mas que faria misericórdia até mil gerações nas vidas daqueles que o amam. Ora, desse modo, até mesmo diante do Sinai incendiado o grito da maior veemência era o grito da Graça. Afinal, o que é maior, quatro gerações ou mil? O entrevistado também confunde Lei com Justiça. Deus não é um Deus de leis. Ele é sim o Deus da Justiça. Isso porque a injustiça do homem não sabe o que certo e justo, nas nuances de cada coisa. Assim, a fim de proteger a humanidade, Deus estabeleceu leis (Paulo diz que a lei é para criminosos e transgressores), e ordenou que não passássemos da aplicação da lei quanto a transgressão social, tentando aplicá-la aos ambientes do coração, da individualidade. Isto porque, quanto ao ser dos indivíduos, a ordem divina é para não julgar, nunca; porque pode ser que um indivíduo esteja condenado pela Lei e absolvido pela Justiça Divina mediante a fé... ou por pura decisão soberana da Graça de Deus. Afinal, de acordo com o salmo 32 e com Paulo em Romanos, pecado é aquilo que Deus imputa, não o homem. Nem todo aquele que é absolvido pela Justiça Divina está isento da Lei. E nem todo aquele que está isento da Lei está absolvido pela Justiça Divina. Isto porque o critério de verificabilidade da Lei é externo, enquanto a realidade da Justiça Divina só é verificável pelo olhar de fogo Daquele que sonda mente e corações. Se Deus fosse um Deus de leis, Jesus seria um grande transgressor. Afinal, do ponto de vista das exterioridades da Lei, Jesus a transgrediu muitas vezes, curando no sábado apesar da Lei. Deus é o Deus do amor e da justiça. Na justiça há amor e no amor há justiça. Porém, nesse ambiente, as leis perdem seu poder, posto que para fazer justiça, às vezes, leis precisam ser violadas. As leis são fixas, mas a vida não é. Portanto, a Lei serve para ordenar o ambiente social, mas não tem a capacidade de mergulhar nos ambientes dinâmicos para os quais somente a justiça tem pertinência. A Grande Transgressão à Fixidez da Lei é a Cruz. Onde a Lei é cumprida apenas por Um (o segundo Adão, Jesus), e, por esse ato, justifica a todos os injustos; sim a todos os que estavam sob o domínio implacável da Lei violada pelo primeiro Adão. Por isso a Cruz é escândalo. Por isso a Graça é escândalo. Por isso Jesus diz: “Bem-aventurado é todo aquele que não achar em mim motivo de tropeço”. Ora, Ele disse isso a quem não transgredia a Lei—aliás, ao maior dos nascidos de mulher: o Batista—, mas que corria o risco de não discernir a Graça, e que estava em operação, curando, libertando e cancelando as leis de causa e efeito. Não! Deus não é um Deus de leis. Deus não está sob a Lei. A Lei está sob Deus. Por isso Ele é o Deus da Graça, e não transgride nada quando a derrama sobre quem Ele mesmo deseja, sem falar que Ele faz isso todos os dias sobre maus e bons, sobre justos e injustos. Afinal, que Lei se levantará para interpelar Aquele que faz o que quer segundo a Sua Vontade? Eu, de minha parte, dou Graças a Deus pela Lei da Vida, que cancelou a Lei da Morte, à qual o entrevistado acha que pode cumprir, pelo menos em parte. Deus é Deus! O que passar disso é apenas velada blasfêmia! Caio