Português | English

Histórias

UM SER-FRUTO QUE ANDAVA DE MULETA E BENGALA

UM SER-FRUTO QUE ANDAVA DE MULETA E BENGALA

 

 

 

 

 

UM SER-FRUTO QUE ANDAVA DE MULETA E BENGALA

 

 

 

 

E dele só se sabia o que se via... Pois, caso não se pudesse ver nada se poderia saber. Ele nada contava...

 

Somente agora, quando a presença inibidora dele já não está entre nós, é que muitos e muitos vêm contando o que aquele homem que não ambicionava nada fazia pelas pessoas.

 

Todos os que chegam a nós [minha família] narram histórias e histórias, todas gratas, todas vindas de lábios melados de sabor feliz por terem um dia provado o gosto do amor de Deus por aquele homem fruto do Espírito.

 

Papai jamais consentia com divulgações... E não contava nada para ninguém mesmo. O que sabíamos era o que víamos ou ouvíamos daqueles que não se continham e falavam. Mas a maioria não dizia nada, pois, ele sempre fazia como seu Mestre. Por isso, após fazer qualquer coisa que pudesse gerar o tipo de divulgação que ele sabia que deveria ser evitada [ele desejava apenas o testemunho do Pai que vê em secreto] — instava as pessoas para que nada dissessem.

 

Assim, mesmo morto ainda fala. E fala cada vez mais. Sim, pois fala pelas bocas antes proibidas de dizerem o que o Pai por ele fizera em suas vidas.

 

Desde quinta-feira que estamos [mamãe, Suely, Ana Lúcia, Ane, Ana Luiza, Levi, Diego e eu] na Casa da Galega, a casa onde papai e mamãe ficavam aqui no quilometro 180 da BR 010 [Manaus – Itacoatiara]. Mamãe queria vir a este lugar que ele amava mais que todos, e no qual passou muitos dias-anos [se somados em seqüência], e onde estava quando foi levado à experiência do Irreferível [conforme já narrei aqui no site mais de uma vez] — pois, não queria voltar aqui sem ele e sem nós. Assim, viemos com ela; nós, os filhos, um casal de netos, uma bisneta e o marido da neta (Ane).

 

Na quinta à noite saí andando pelo escuro por uma vereda de uns três quilômetros, e que sai aqui da casa e vai até a praia no Rio Urubu. Entrei no escuro total e fiquei em silencio me deleitando com os sons da floresta.

 

Entrar na floresta à noite é uma experiência maravilhosa; de fato, mística.

 

São sons que chegam às centenas simultaneamente, mas que sempre têm sobre eles uns doze a 15 sons maiores, podendo ser canto de aves noturnas, ou as vozes de sapos poderosos, ou gritos guturais de bandos de macacos, ou roncos longínquos de porcos do mato; ou mesmo os ruídos dos bichos se movendo pela mata, ou os sons da própria floresta, com paus que caem, os galhos que despencam das copas, as folhas que se soltam...; sem falar que vez por outra se tem a impressão que humanos estão na vizinhança, não sendo, entretanto, nada além de vozes guturais de macacos ou assovios vindos de aves como a “Mãe da Lua” [uma coruja que faz uma espécie de mimetismo com o tronco de árvore onde pousa] e que parecem se comunicar em alternâncias de assovios.

 

Fiquei em silencio ali por cerca de uma hora, na total escuridão, com uma meia-lua de Lua sobre a copa das árvores e um céu coalhado de estrelas — e lembrei-me de como meu pai desde muito jovem, aos 18 anos, foi durante 7 anos ao Seringal da família [quatro meses por ano], a fim de fazer gestão das coisas; recolher os produtos; e esperar para entregá-los aos barcos [batelões, como são chamados]—permanecendo sozinho à beira do rio [de fato entre o rio e floresta densa], por períodos regulares de espera, e que poderiam ser tão curtos quanto uma semana, ou, quando longos, podendo chegar a dois meses; enquanto sem companhia humana alguma apenas comia farinha com água e castanha do Pará; e como se não bastasse, tinha que guardar os produtos [borracha e castanha] dos porcos do mato que passavam a noite tentando devorar as castanhas. Durante o dia ele lia clássicos da literatura, e a noite suportava os mosquitos e os porcos.

 

Então, vieram-me à mente dezenas, centenas de memórias; de histórias nossas; e, sobretudo, lembranças de como ele fora forjado no cadinho das temperanças e da paciência desde menino.

 

Vi a mão de Deus criando da fraqueza um homem monstruosamente forte na Graça; o qual já vinha sendo esculpido com cuidados muito especiais; todos os cuidados das dificuldades e das vicissitudes; e que são os únicos que forjam um ser humano para a vida.

 

De súbito fiquei tentando me lembrar dele [depois de haver encontrado Jesus de modo chocante] expressando mal-humor, impaciência, pusilanimidade, intemperança de qualquer tipo; ou inimizades, ou porfias, ou facções, ou dissensões; ou tendo inveja de qualquer tipo; ou buscando qualquer coisa que na passagem alguém pudesse ser machucado, ou prejudicado ou ofendido, e não encontrei.

 

Lembrei-me de coisas nas quais eu o vi crescer no entendimento, mas em nenhuma delas o vi ter praticado o entendimento anterior sem amor ou misericórdia.

 

Na realidade papai era um homem-fruto do Espírito de Deus; e digo isso com temor e tremor, porém, com toda a tranqüilidade de quem não exagera, e que teria contra qualquer que fosse o exagero o testemunho de milhares de pessoas que assistiram à vida de papai, as quais, poderiam simplesmente dizer: Não foi bem assim!...

 

O problema é que tal pessoa não existe. O que existe em contrapartida a isto é o testemunho de gente e gente que fala de todas as manifestações do fruto do Espírito na vida dele alcançando vidas.

 

Deus o usou muito na cura de pessoas, mas nada foi mais forte do que a sabedoria e o discernimento espiritual que a ele foi dado. Sobretudo, em tudo aquilo que decorre do amor, realidades como fé, esperança, temperança, bondade, domínio próprio, bom humor, alegria, confiança e humildade na expressão de cada coisa.

 

Eu olho para ele e, à semelhança da declaração de meu amigo Antônio Carlos Barros, também me envergonho.

 

Olho para ele e vejo o quanto tenho de crescer e de me render ao amor no Espírito Santo.

 

Ele é [Deus é Deus de vivos, não de mortos] um desses seres que você pode saber que se encontrasse Abraão, o pai da fé, ouviria dele [se Abraão fosse amazonense] a saudação: “OI! Meu mano!”; ou acerca de quem Paulo diria: “Meu cooperador em todas as jornadas!”.

 

Assim, sozinho na mata chorei e chorei; e pedi ao Pai que me enchesse do mesmo fruto de Graça, e que me desse a benção de poder viver como um ser-fruto do Espírito Santo.

 

Desse modo, a viagem continua...

 

 

Nele, que forja Seus filhos,

 

 

Caio

 

 

21/09/07

Manaus

AM