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Histórias

TRIBUTO A LACY D’ARAÚJO

TRIBUTO A LACY D’ARAÚJO

Hoje, dia 2 de julho, minha mãezinha está fazendo aniversário. Longe dos setenta e ainda não nos oitenta. Forte. Determinada. Incansável. Ativa. Jovial nos prazeres. Pronta sempre para uma boa gargalhada. Dirige o próprio carro. Faz discipulado pessoal. Visita. Tem seu próprio grupo de oração em casa. Viaja. Fala em congressos. Atende os aflitos. Ora sempre. Ora muito. Canta. Adora música. Gosta de programa de humor. Dorme em todos os filmes. Ronca com poesia. Cozinha com carinho. Hospeda com liberdade. Milhares ela já hospedou. Ama ser mãe de todos os que a vejam como mãe. Os netos lhe admiram a força e o amor. Os filhos, eu, Suely e Aninha a amamos, gratos a Deus por ter nos dado a melhor mãe que poderíamos ter tido. A nossa mãe. “A Lacy”, como diz o papai.

De fato, todos nós tivemos nela uma grande sombra e forte coluna, embora fosse coluna do canto, pois no centro do castelo a coluna mais visível era a de nosso pai. E ela tinha prazer em que ele estivesse ali, e que ela estivesse onde estava. E quando a coluna do meio quase ruiu, foi essa coluna do canto que sustentou a casa.

Papai era fascinante, e é. Mamãe era a fascinada. E esse fascínio por ele lhe custou muita dor, mas depois a imergiu em profunda alegria e gratidão.

Sempre lhe foi a melhor companheira! Sim, meu pai jamais poderia ter sido feliz na vida sem a companhia da fascinada fascinação da mamãe.

Para nós, os filhos e netos, mamãe é como o bom vinho, pois quanto mais velha, melhor ela fica.

Na verdade a mamãe é o vinho lá de casa. Dela nos veio o legado do apetite e do sabor que sempre é, não importando o que esteja acontecendo.

Mamãe é a mãe lá de casa. Foi dela que vimos os mais difíceis gestos de perdão.

Mamãe é a grande secretária lá de casa. Sobre ela também sempre esteve o peso de quase tudo o que papai e eu fizemos juntos, e em volume tão grande.

Mamãe é a santa lá de casa. Nós fazíamos a bondade. Ela tratava das feridas. Nós evangelizávamos. Ela era o evangelho. Nós expulsávamos os demônios. Ela cuidava dos ex-possessos. Nós tínhamos os sonhos. Ela varria o lixo. Nós éramos amados. E ela muito amou por nós.

Hoje eu lembrava das centenas de abacaxis que ela descascou por mim. Dentre esses há o de uma moça que eu encontrei no Rio e levei para Manaus. Ninguém sabia o que ela tinha. E me pediram que a levasse. Levei. Mas mamãe foi quem cuidou da moça.

—Meu filho, essa moça chora sangue e pinga pelas unhas.

Foi o que ela me disse acerca da garota, pois, embora a tivesse levado para Manaus, logo vi que o problema dela teria que se manifestar sozinho, sem provocações. E viajei para pregar. Mas foi com a mamãe que o negócio se manifestou, como em muitos outros casos.

Levei a moça para meu escritório e ela me contou tudo, pela primeira vez na vida. E tudo era tudo mesmo.

Ela havia sido criada num convento. E foi lá que conheceu o sexo. Depois ela foi levada para cuidar de uma casa de padres. E lá ela se deu a todos. Ou melhor: todos a tiveram. E de muitos ela ficou grávida. E de todos abortou. De um deles, porém, ela decidiu prosseguir com a gravidez. Mas quando o menino nasceu, ela o enforcou e o matou.

Jamais se perdoaria. Chorava sangue e também o vertia pelas unhas!

Quando creu na Graça, se perdoou, e experimentou o Perdão. Ficou curada.

Mas foi com mamãe que o mal se manifestou, pois ela estava sempre cuidando dos potenciais possessos...e de todos os aflitos que abrigávamos, e ela cuidava.

Liguei pra ela agorinha, e disse a ela o quanto sou feliz de tê-la como mãe!

Então ela me saiu que essa pérola.

—Sabe, meu filho. Quando eu estou orando por vocês, eu oro também por cada netinho. Eu peço pelo Ciro, pelo Davi, digo: ‘Obrigado Jesus’, pelo Lukinhas, e peço ao Senhor pela Jú.

Mal sabia ela que eu acabara de ter um daqueles sustos... Eu estava ligando para os filhos, conforme a ordem de idades.

Ciro, estava fora. Davi, falou comigo. Lukas...aquele frio... “Obrigado Jesus”...; e Jú, já falei...

Bem, quando ela me disse que tinha o mesmo reflexo e que fazia a mesma coisa, meu coração agradeceu mais uma vez por ela ser minha mãe.

—Seu irmão, o Luiz Fábio, já partiu há tantos anos...e até a pouco tempo eu ainda fazia assim. Mas vai passando...

Pra você, mamãe:

Obrigado, por sempre ter sido você mesma, e por sempre ter dito o que pensava e pensa. Obrigado por dizer sempre muito mais o que pensa pelo que você faz. Palavras são redundantes em você. O que você é, todos sabem, e amam. Sim, você é a mulher mais segura que eu conheço. Você é linda. E nós somos felizes e gratos. Conhecer você, mamãe, é ver a bondade de Deus na terra dos viventes.

Seu filho,

Caio