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Reflexões

“TO BE OR NOT TO BE”: NÃO É A QUESTÃO!

“TO BE OR NOT TO BE”: NÃO É A QUESTÃO!



“Veio para o que era Seu, mas os Seus não o receberam” — é como o apóstolo João descreve o modo como os filhos de Abraão trataram o Messias, o Cristo, o Emanuel, o Verbo da Vida. Neste contexto imediato, no qual “os Seus” são os da descendência da Promessa feita a Abraão, aqueles que “o receberam” — os quais também Dele “receberam o poder de serem feitos filhos de Deus” — são visto por João como sendo todo e qualquer ser humano que acolha a Jesus pela fé, confessando que Ele é o Verbo Eterno que se encarnou. Estes, os que não eram os Dele, o reconheceram; enquanto aqueles que eram “naturalmente” “os Seus”, esses não o receberam, nem sequer o reconheceram. Ora, conquanto este seja o sentido original e imediato do texto de João, conforme seu entendimento e aplicação consciente da revelação que o possuíra, a Palavra não se circunscreve e nem se deixa escravizar por nenhum “contexto imediato”. Ou seja: por aquilo que no momento da produção do texto era o alvo consciente do autor, no caso, João. O texto, em si mesmo, e para além do contexto imediato, propõe um sentido muito mais amplo e móvel; porém permanente no seu poder de determinar quem são “os Seus” que não o recebem; e quem são os aqueles que não sendo “naturalmente” Seus — conforme a as linhagens históricas da confissão da fé como religião —, “o recebem”; os quais da parte de Deus, “recebem” também o “poder de serem feitos filhos de Deus”. E quem são uns e outros? Na visão da “igreja”, no que diz respeito a pratica da pregação e conforme as doutrinas da salvação, “os Seus” que não o recebem, são todos aqueles que ouvem a mensagem da “igreja” acerca de Jesus, e não o aceitam como Senhor e Salvador; portanto, não aceitando também serem membros da “igreja”; decisão essa que se tornou na única prova cabal de que alguém “pertence a Jesus.” Assim, do ponto de vista da “igreja”, o “mundo” é feito daqueles que eram “os Seus”, e que não o receberam. E a “igreja” é aquela que o “recebeu”, e cujos membros são os “filhos de Deus”. Ora, isto demonstra como a “igreja” se esquizofrenizou entre ser “gentia”, e, ao mesmo tempo, “o Israel de Deus”. A verdadeira Igreja é “o Israel de Deus”, segundo a Promessa feita a Abraão, e da qual se tornam herdeiros todos os que crêem em Jesus, posto que os herdeiros da promessa são os da fé que teve Abraão, não importando a raça, a cultura, o sexo, a etnia, ou qualquer outra forma de diferenciação feita pelos homens. Desse modo, a Igreja é aquela que é feita dos que “o receberam” (não sendo naturalmente “os Seus”), os quais, por esta razão, não apenas receberam “o poder de serem feitos filhos de Deus”, mas também se tornaram “o Israel de Deus”. E aqui reside uma grande confusão: “a Igreja não é ‘Israel’”, pois é quase que inteiramente “gentia”; ao mesmo tempo em que, pela fé, se torna herdeira das promessas feitas a Abraão, segundo a fé que justifica pela Graça, tornando-se, por esta razão, “o Israel de Deus”. Eis o híbrido: incircuncisos que se tornam circuncidados pela fé; pagãos que são feitos filhos de Abraão; gentios que se tornam o Israel de Deus. Paulo trata disso chamando de um “enxerto” do galho da “oliveira brava” no caule da “oliveira natural”. Assim, quem não era, passa a ser; e quem era, deixa de ser. E esta é uma dinâmica que vai e vem, de tal modo que o eixo de quem é e quem não é, varia conforme a jactância de ser ou seu quebrantamento. Ou seja: quando quem era creu que era tanto, que não poderia deixar de ser (o Israel histórico), então, não o reconheceu. E quando aqueles que não eram, passaram a ser, assim foi porque como gentios segundo a carne, aceitaram a oferta da Graça como aqueles que recebem o que sabem que não merecem, porém crêem no poder da promessa a eles feita por Aquele que os chamou de filhos, por Sua livre vontade. Portanto, quem era “de-mais”, deixou de ser; e quem era “de-menos”, passou a ser. Isto porque sempre que alguém pensa que é, começa a deixar de ser. O ser só se mantém sendo! Ora, para a “igreja”, que “se vê” como o “Israel de Deus”, tal realidade não muda. Desse modo, ela, sem saber, se torna um verdadeiro Israel segundo a carne, não o “Israel de Deus”. Ou seja: quando ela é tomada por tal presunção, ela passa a fazer parte do grupo com potencial para “não o reconhecer” Hoje. É a jactância do pedigree de “ser o Israel de Deus” aquilo que torna a “igreja” um “Israel segundo a carne”, visto que o que João disse, não se tornou algo cristalizado, mas varia conforme as mudanças do coração humano. E aqui há um princípio espiritual apavorante, o qual nos ensina que todas as “certezas” que deixam de ser apenas “fé grata”, transformam-se no oposto daquilo que um dia foram, quando bem-aventuradamente se tornaram justamente aquilo que “por natureza” não eram. É por esta razão também que João diz que esses que “recebem o poder de serem feitos filhos de Deus”, não nasceram “nem da carne e nem da vontade do homem, mas de Deus”. Ou seja: eles nunca são o resultado nem da continuidade histórica (da carne), nem tampouco são filhos de decisões humanas (da vontade do homem, ou de sua declarações acerca de quem é ou quem não é). Ao contrário disso, eles são exclusivamente filhos do acolhimento do amor de Deus. Portanto, é o amor feito confissão de fé e vida grata pela Graça, aquilo que mantém a pessoa nesse “lugar existencial” no qual ela é sempre; e isto porque sempre sabe que não é; visto que ela é justamente porque sabe que não seria; tendo em si mesma a gratidão que nunca a deixa se ver como “dona” de si mesma; ou como um ser que já não precisa ser, visto que em jactância diz que já é. Em outras palavras: aqueles que não eram e passaram a ser, são aqueles que são-sempre-sendo, nunca parando; e continuamente olhando a si mesmos com o olhar da gratidão, declarando todos os dias a Graça que os faz serem aquilo que por natureza não eram, visto que a verdadeira “natureza” do ser que é, é justamente feita dessa fé que nunca vira certeza humana, e nunca evoca qualquer privilégio especial em razão de ligações históricas com a História da Fé. Recebem o “poder de serem feitos filhos de Deus” os que acolhem Jesus todos os dias com a gratidão de quem “foi feito”, posto que “não era”. Assim esses são porque sabem que não mereciam terem se tornado. Ora, o verdadeiro “Israel de Deus” é feito de gente que se vê como aqueles que não deveriam ser, pois, no momento em que julgam que são, e crêem que esse é um estado cristalizável, nesse mesmo momento, deixam de ser. O principio, portanto, é este: no Evangelho só se é, sendo! Assim, a questão não é “to be or not to be”, mas sim, ser-sendo. Nele, Caio