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Reflexões

SOU CONTRA ABORTOS: contra os que matam ou deixam existir...

SOU CONTRA ABORTOS: contra os que matam ou deixam existir...

Há uns 2 meses respondi uma carta, e que era sobre a situação de um casal que teria um filho com “Síndrome de Down”, os quais haviam sido aconselhados por um profissional da psicologia, que fizessem o aborto ainda nos estágios iniciais. Eles, porém, embora desejando interromper a gravidez em razão da mal-formação do feto, tendo ficado na dúvida, me escreveram, e, no curso de sua carta, deixaram claro que não queriam tirar (é claro!), e nem se sentiam em condições de ter a criança. Este é o resumo do ocorrido. A carta e a resposta seguem aqui transcritas, mas ao final eu volto, em razão de que tenho alguns comentários a fazer. Sim, porque alguns por sério temor e outros apenas tentando ver se me pegam em alguma coisa, escrevem querendo esclarecimentos; e também alguns outros, que pedem “esclarecimentos”... já cheios de “certezas”; as quais, se eu as tivesse, não faria perguntas a respeito. Mas é que, para o bem ou para o mal, a boca sempre fala do que está cheio o coração. _____________________________ ----- Original Message ----- From: A ESCOLHA DE SOFIA- aborto de um filho To: contato@caiofabio.com Sent: Sunday, November 27, 2005 3:56 PM Subject: URGENTE - AMANHÃ FAREI UMA LOUCURA(?) Amado Caio, Me sinto num inferno. Sou evangélico desde pequenininho, tenho 37 anos e sou casado com uma missionária de 38 anos, e que ama muito a Jesus. Temos um filhinho e descobrimos que estamos grávidos de uma menininha com 13 semanas e que é portadora da síndrome de Down. O mundo desabou sobre nossas cabeças. Procuramos um psicólogo amigo, que é cristão, e ele nos ajudou a decidir por interromper a gestação, pois o nascimento traria muito mais dor, tanto para nós quanto para o neném. Apesar de nosso lado racional dizer que realmente é melhor esta interrupção, nossos sentimentos estão terrivelmente abalados. Será pecado? Temos este direito? Se Deus é soberano, pode nos impedir de agir errado (oramos pedindo que Ele assim fizesse). Também orei pedindo perdão a Deus pois fiquei muito bravo com Ele, por permitir que isso ocorresse com minha esposa, uma mulher que o ama tanto (sei disso muito bem, pois convivo com ela o suficiente para saber). Estou muito confuso e com minhas emoções latejantes. Preciso que me diga se posso livrar minha filhinha de uma vida de preconceito, tratamentos dolorosos e morte prematura. Mas por favor, me responda rápido, pois hoje é domingo, e amanhã, dia 28 de novembro, às 15h, está marcada a retirada do feto. Por favor, me ajude a ter paz! Em Cristo ________________________________________________________ Resposta: Meu amado irmão: Graça e Paz! Primeiramente peço perdão por só ter visto sua carta agora, um dia depois de seu “prazo de angustia”. Mas sei que Deus é soberano, e que teve cuidado de vocês. Na realidade já faz mais de 25 dias que não respondo cartas ou textos aqui no site, e a razão tem a ver com o fato de eu estar sentindo muitas dores nas mãos como resultado das milhares de cartas e textos que escrevi nos últimos quatro anos. Nunca escrevi tanto, e meus dedos estão meio cansados e me pedindo umas férias. Sinceramente esta é uma carta que eu não gostaria de responder, ao mesmo tempo em que não posso deixar de faze-lo. Já tive que ordenar uma ação médica em razão de risco de vida para a mãe de meus filhos no ano de 1978, e, mesmo sabendo que era a coisa certa a fazer, não deixei de sentir as angustias decorrentes da decisão. No meu caso, entretanto, tais angustias não tinham nada a ver com Deus, mas apenas com as minhas afetividades paternas. Além disso, tive também que literalmente enterrar dores feitas corpos de irmão e filhos. Quando eu tinha 21 anos meu mano de 19 anos partiu num acidente de carro. Lembro-me que até cerca de 5 anos após a partida dele eu ainda me apanhava chorando de saudades. Quando tinha uns 23 anos tive que enterrar um filho homem, que nasceu prematuramente, viveu umas 7 a 8 horas, e foi morrendo bem diante de meus olhos, sem que eu pudesse fazer qualquer coisa para impedir. Ganhou nome e foi sepultado como Luiz Fernandes D’Araújo, e seus restos repousam na tumba de minha família em Manaus. Todavia, a pior de todas as dores eu vim a conhecer no dia 27 de março de 2004, quando meu filhote Lukas, de 22 anos de idade, foi levado aos olhos dos irmãos, quando um carro que vinha a cerca de 150 Km por hora, apenas “triscou” nele, arremessando longe, e, por cujo trauma, ele abriu os olhos diante da face de Cristo, seu Senhor e Salvador. Celebrei sua vitória, conforme o Apocalipse. Mas chorei e choro as minhas dores, conforme as limitações de meu ser tão pequeno e tão cheio de saudades. Sobre sua questão, se é pecado ou não, digo-lhe, com minha consciência limpa diante de Deus, que se eu estivesse em situação semelhante, com todas as dores desta vida, ainda assim aceitaria a sugestão do psicólogo e cristão. E por quê? Ora, é que o ato homicida no aborto é aquele praticado com descaso e frieza por aqueles que transam irresponsavelmente e decidem descartar as eventuais situações de gravidez como quem se livre de um “Absorvente menstrual”. Essa, no entanto, não é a situação de vocês. Ao contrário, Deus vê a angustia de suas almas e o amor que vocês já têm por esse rebento que foi formado com uma deficiência de natureza irreversível, a qual, foi antecipadamente revelada a vocês, pondo-os diante de uma terrível “Escolha de Sofia”. Creio que há duas situações nas quais levar uma gravidez desse tipo até o fim é objeto de aceitação, e que pode virar até mesmo em alegria e contentamento. A primeira é quando o casal não sabe e tem o filho com tal deficiência. Conheço muitos pais com filhos portadores da “Síndrome de Down” e que reportam o fato de que tais crianças são alegres e felizes, embora cria-las mude toda a vida do casal e da família, sem falar que na adolescência, com o aparecimento dos impulsos sexuais, em geral os portadores da síndrome manifestam intensa energia de natureza sexual, nem sempre fácil para os pais quanto a fazer a gestão de tais impulsos e suas práticas. A segunda situação é quando, uma vez informados da gravidez existente em tal estado, o casal sente o desejo e o impulso de não interromper a gravidez, embora avisados das dificuldades inerentes a tal situação. No entanto, se o casal foi informado durante a gestação, e se angustia com o que será de suas vidas e da vidinha da criança, a menos que surja uma súbita convicção da parte de Deus no coração, o que deve ser feito é o que vocês fizeram. Creio também no Deus que vê o coração, e que não julga como julga o homem, e que sabe com que coração vocês tiveram que fazer isto. Pecado, meu irmão, é ter filhos sem amor, é deixa-los crescer sem afeto, é não educa-los na justiça e na misericórdia, e, sobretudo, é chamá-los à existência sem que se tenha a disposição em amor quanto a cuidar deles; e isso todos os dias da vida que sobre a terra nos for dada viver. Pecado não é abortar a criança que nasceria sem meios de viver a vida com independência, sendo que tal decisão foi objeto de dor e tristeza (Deus vê) por parte dos pais. Não! Pecado é gerar filhos que existem como abortos vivos no chão da Terra. Quanto ao mais, meu querido amigo, cuide bem de sua esposinha, encha-a de amor e carinho, e, tão logo quanto seja possível, busquem juntos ter um outro filho. Agora, no entanto, é hora de vocês se cuidarem, posto que muitos casais, uma vez tendo que lidar com algo tão traumático e considerado algo “moral”, tendem a entrar um processo de “acusações”, gerando um clima que não raramente azeda o casamento, e, vez por outra, desemboca em separação. Portanto, nada de ficar tentando entender a situação, e, menos ainda, nada de ficarem trocando culpas ou fazendo exumação acerca da decisão tomada. O que tanto você quanto a sua esposa precisam saber é que nesta vida, no chão dessa Terra caída, onde nascem aberrações — “cardos e abrolhos”—, ninguém tem a chance de poder fazer o tempo todo apenas as coisas boas e ideais. Sim, porque num mundo caído não existe a harmonia da criação que permita que, à semelhança do Éden, se possa apenas escolher entre o bom e o bem. Não, meu mano! Neste mundo caído a ética não é uma linha horizontal, mas sim uma linha vertical. Ou seja: se o mundo não fosse caído, nada estaria em choque no nível horizontal da existência, não havendo, portanto, necessidade de se escolher, muitas vezes, não entre o bom e o ótimo, mas sim entre o péssimo e o ruim. Nesse caso, a ética segue uma hierarquia de valores verticais, em razão de cuja realidade, muitas vezes, a gente tem que fazer “Escolhas de Sofia”, decidindo qual dos filhos salva; ou, então, tendo que escolher se salva dez crianças morrendo ou duas também morrendo. Ora, quem escolher salvar as dez crianças, sofrerá pelas duas que morreram. Mas se decidir salvar as duas crianças, viverá com os gritos das dez que morreram sem ajuda. Exemplo: Imagine-se num paredão inclinado a uns 45 graus. Você está de sunga. Vai derrapar mesmo...não tem como evitar o escorregão...você já está escorregando...e vê que o paredão todo está crivado de cacos de vidro. Mas lá em baixo há um lago, e se você saltar, você poderá cair direto na água. Há riscos. Você não sabe a profundidade da água. Uma dúvida: será o lago profundo? Uma certeza: se eu escorregar daqui até em baixo, passando por todos esses cacos, chegarei completamente esfolado, com ferimentos em todos os lugares...e muita perda de sangue! O que você, instintivamente, fará? 1. Escorregará por todo o trajeto de vidros, esfolando-se? 2. Saltará o mais rápido possível para dentro da água, fazendo o possível para cair sem afetar o pescoço? Responda para você mesmo... Aí a decisão é pessoal! Minha escolha instintiva seria sempre a segunda. No barranco ou no precipício, o nome disso é acidente. Na vida, segundo os homens, esses acidentes têm valor moral, ético e são objeto de um juízo humano. Então, quando você tem que escolher entre o ótimo e o bom, você é um abençoado. Mas quando você tem que escolher entre morrer ou viver, você á chamado de desgraçado. Mas, eu garanto: se você estiver derrapando no caco de vidro ladeira abaixo, não pense duas vezes: pule na água. Água, é sempre água. Vidro, é sempre vidro. Os outros, são sempre os outros. Mas você, é só você. A vida é sua. E é para Deus que você dará conta dela! Assim, meu mano, confie no amor de Deus por você, e saiba que se eu entendo você, Ele entende você mais do que você pode saber o significado de tal entendimento. Foi somente quando eu decidi crer de todo o coração que Deus “sabe”, e sabe com verdade e amor quem eu sou e o que existe em meu coração; e que Ele não é moralista em seu saber, posto que a verdade não é moral, mas apenas verdade — foi então que fui aprendendo a andar em paz, até quando o mundo inteiro diz que estou errado; pois, eu sei que o exercício da justiça e da verdade, conforme a consciência e o testemunho do Espírito em nós, nem sempre é algo visto como moral pela maioria dos cegos guias de cegos. Minha oração é para que o Espírito de Jesus dê paz a vocês, e que o amor Dele em seus corações cresça mais e mais, até ao ponto em que vocês sejam surpreendidos com o fato de que tragédias acontecem também a fim de que nosso coração, pela dor, aprenda a misericórdia e a humanidade. Receba todo meu carinho e amor! Que Jesus faça cafuné na alma de vocês dois. Sim, que o Espírito de Graça se derrame sobre vocês hoje! Nele, em Quem o coração é o lugar de toda a verdade que em nós concerne somente a Deus, Caio _________________________________ Continuando... Sou contra toda intervenção humana contra a vida. Ponto! No entanto, quando falo de vida, falo de vida e de vivos. Não falo apenas da vida em gestação, mas também da vida da gestante. É fácil ficar em casa decidindo o que é bom ou não pros outros. Na minha opinião todos os que são contra deveriam criar uma associação beneficente para pais de filhos com graves deficiências mentais, ou de qualquer natureza, e deveriam financiar tal instituição (além de abrir frentes dela em todo o país; e, se possível, no mundo); e, além disso, deveriam se voluntáriar como babás noturnas dessas crianças; bem como, deveriam se dispor a trabalharem como enfermeiros voluntários em todas essas casas. Então, desse ponto, eu aceito ouvir o discurso de qualquer um. Sou contra o aborto. Sempre lutei contra a irresponsabilidade sexual também em razão do perigo de gravidezes geradoras de órfãos e filhos abandonados, o que, para mim, equivale a um estado de aborto, e não a um ato de aborto. Sou contra o aborto, de todas as formas, especialmente sou contra os “não-abortos” que geram abortados-vivos, que enchem o mundo de dor, angustia, violência, abandono, ódio e cinismo! Sou contra pais-abortos, que são aqueles que parem filhos; e os abortam da vida deles! E sou contra todo aquele que não estando na pele do outro, e aparentemente sem a capacidade de sentir o drama do outro, arroga-se ao papel de decidir o que é pecado ou não nas angustias dos impotentes e desesperados. Esses tais, para mim, são os que “se fizeram abortar do ventre da misericórdia”; e, também, do “recôndito reverente do silencio”; posto que sou contra o aborto, porém, sou mais contra ainda os que “abortam em juízos” aqueles que, em agonia, abortaram o que não poderiam transferir para ninguém como responsabilidade, e, ao mesmo tempo, não se viram em condições de criar quem geraram. Ah, Deus sabe como sou contra o aborto! Quem adota uma criança toda purulenta e sem perspectivas de ter uma vida mental e organicamente sadia, como era a previsão médica para a filha que escolhi adotar, não pode ser a favor do aborto. Sem falar que até hoje, ninguém no chamado mundo evangélico incitou e conseguiu que mais crianças abandonadas fossem adotadas (um total de mais de 8 mil), e que escreveu o livro cristão mais lido até hoje sobre o tema aborto, possa ser a favor do aborto. Na realidade sou apenas a favor de duas coisas: 1. Que quem transa, se cuide; pois é abominável colocar na vida um ser que não se deseja e nem se vai cuidar. 2. Que ninguém se meta em tais questões relacionadas a casais que estão na situação de angustia do casal que me escreveu, pois, tais decisões, são de foro intimo, e ninguém que não foi chamado deve se meter nelas. O mais, que cada um respeite a dor e os limites de seu irmão na presença de Deus. Pois é somente Ele quem conhece os segredos dos corações. O resto é cômoda ou traumatizada presunção, e que transforma o caso particular do traumatizado, em lei universal para todos os homens. Nele, que tem olhos como chama de fogo, Caio