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Histórias

O HOMEM QUE NÃO QUERIA NADA... — pois tinha tudo!

O HOMEM QUE NÃO QUERIA NADA... — pois tinha tudo!

 

 

 

 

 

O HOMEM QUE NÃO QUERIA NADA...pois tinha tudo!

 

 

 

Papai era um homem que só pegava o que todos deixavam.

 

Nunca o vi candidatar-se a nada. E tudo o que teve foi porque ninguém queria.

 

Um menino aleijado e que se arrasta sobre as mãos até aos 8 anos, acostuma-se ao que sobra: sobra o chão.

 

Depois, de muletas, sempre procurava lugares onde não o balançassem muito. Por isso gostava dos cantinhos que todos rejeitam.

 

Antes de ficar idoso e ter os privilégios dados aos velhos, como cadeira de rodas em lugares como aeroportos, ele nunca embarcava na frente dos demais, apesar da muleta [que justificaria tais privilégios] — ele era sempre o último.

 

Quando se formou com honras até hoje imbatíveis na Faculdade de Direito daqui, escolheu ir para uma comarca que ninguém queria: Canutama, que nem no mapa está; e que foi onde vivi meus primeiros dois anos de vida.

 

Quando foi obrigado a candidatar-se a deputado estadual em razão de um pedido de meu avô [que teve longa carreira política no Estado], aceitou ir perder, sem problema algum; pois meu avô lhe dissera: “É para perder. Você vai pedir votos para meus amigos. Só receba votos onde eu não tiver amigos candidatos. Sua presença é para ajudar a legenda do Partido”. Assim ele fez, e quase foi eleito para a tristeza dele, que odiaria tal papel de deputado.

 

Quando ganhou muito, e, depois, perdeu a paz durante o Golpe de 64, saiu daqui deixando tudo para trás. Praticamente deu tudo o que tinha.

 

No Rio, depois que fez o nome por si mesmo, recebeu o Dr. Bernardo Cabral como sócio no escritório [papai era padrinho do filho do Bernardo, o Antonio Julio] — para, logo depois, deixar tudo e ir para Niterói, pois, o Rio, segundo ele, em 1967, não era calmo.

 

Em Niterói, depois de crescer da noite para do dia, fez um nome; e, então, converteu-se ao Evangelho; e não conseguiu mais advogar. Abriu mão de tudo o que ganhara, e voltou para o Amazonas a fim de cuidar de ribeirinhos usando barcos. Os barcos estão aí até hoje. Ele, porém, entregou tudo para outros, mais jovens. E nunca se preocupou que seu nome não apareça lá. Uma vez perguntado por mim sobre isso, ele disse: “Meu filho! Fiz tudo pra Jesus! Só me interessa o que Jesus vê!”.

 

Aqui, quando voltou em 71, aceitou o que ninguém queria: uma igreja que se reunia na periferia pobre, num templo de palha, e quase sem ninguém. Um salário mínimo de ajuda.

 

Depois o mandaram pastorear o Cemitério: a Igreja Presbiteriana Central de Manaus, onde nenhum pastor lograva êxito. Foi lá que me uni a ele três meses depois dele assumir a jazigo com capacidade para 600 pessoas, e freqüentando por menos de 20 aos domingos. Cresceu tanto que hoje tem gente que pensa que sempre foi assim. Mas ele nunca se deu ao trabalho de contar nada nem mesmo para os que o procuravam narrando a ele feitos dele, mas como se dele não tivessem sido. Ele apenas ouvia...

 

Quando ele me ouviu pregar a primeira vez, com 18 anos, depois de algumas outras vezes, me chamou e disse: “Eu sou seu pai e pastor da igreja. Como seu pai estou mais que feliz pelo dom de Deus em sua vida; e como pastor da igreja também; pois, o que me alegra é ver a Palavra sendo crida. Por isso, daqui pra frente você prega em quase todos os cultos, e eu prego para dar descanso a você. Você prega e eu cuido das pessoas. Esta será minha grande alegria”. Ora, ele era ainda um jovem e vigoroso homem de 40 e poucos anos quando fez assim...

 

Ele era capaz de mexer um cafezinho com o dedo para não dar trabalho a alguém. “Estou sozinho, vou importunar por quê?” — era o que ele dizia quando mamãe o censurava.

 

E até para morrer ele fez a escolha de não dar trabalho.

 

Senti que ele começou a ficar triste no meio da batalha da UTI quando, em plena lucidez, eu disse a ele que já fazia 30 dias... Ele arregalou o olho. Naquele mesmo dia ele estava tão lúcido que um dos anjomeiros perguntou: “O senhor quer falar com o seu filho no telefone?” [Nós falávamos também com ele ao telefone fora das horas – eles colocavam o aparelho no ouvido dele e ele ouvia e fazia sinais de compreensão, até mesmo indicava aos anjomeiros que eu já havia me despedido...]. Mas ele disse “não”. Perguntado se era por que ele achava que nós estávamos cansados, ele disse “sim”.

 

Eu tenho certeza que aquele menino que aprendeu a andar com as mãos, estava tão perto e dentro de Deus, que na intimidade ele deve ter dito ao seu Amigo: “Pai, agora eles já estão preparados. Deixe-me ir... Eles precisam descansar...”.

 

Ele era assim...

 

Antes de ir para o Hospital para uma hora que estava mais para fatal do que para fetal... — ele disse coisas como [e falando sério]:

 

“Não gastem dinheiro comigo. Gastem com os vivos. Se eu morrer desta vez, não comprem urna cara e nada disso. Eu já não estarei lá... Eu aqui vivo sem isso, por que depois de morto vou querer? Bobagem. Enrolem-me num paninho como fizeram com o meu Senhor; e podem me botar direto na terra. O corpo vai pra terra. Eu vou pra Deus.”

 

E disse muitas outras coisas, todas relacionadas à não ser pesado a ninguém.

 

Levou a maior bronca de paixão de minha mãe, mas disse: “Se vocês forem sábios farão tudo simples!”.

 

Ela disse: “Está bom, Caio! Mas se você for... — não venha me dizer que não; pois, eu vou fazer como eu quiser. Até Jesus mandou guardar perfume para o embalsamento dele!”.

 

Era assim que ela era...

 

Sempre buscando o que ninguém queria!...

 

 

Caio

 

16/09/07

Manaus

AM