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Reflexões

O Éden e a neurose de ser...

O Éden e a neurose de ser...

O ÉDEN E A NEUROSE DE SER...

 

Adão abriu os olhos e se viu Adão. Nascia a consciência de si mesmo?


Adão abriu os olhos e viu a si mesmo separado de Deus. Nascia o quê?


Nunca fui não caído. Por isso não posso responder a nenhuma das questões acima. Para mim, pelo menos, não há como medir o que vejo à partir do que não vivi e nem conheci.


“Em pecado me concebeu minha mãe...”


Sou caído. Vejo tudo desse lugar.


Tudo que vejo, vejo apenas como vejo. Mas não sei se o que vejo é o que é. Daí eu ter que também andar pela fé.


Não sei quase nada. Mas sei que não dá para voltar ao Edém, pois ele não existe mais.


O Éden deixou de ser no único lugar verdadeiro onde ele sempre existiu: o olhar-ser do homem. Tudo muda em volta quando a gente muda dentro. É assim hoje porque passou a ser no Éden.


Tudo é assim. Não estou no Éden. Por quê, então, sinto tanto sua nostalgia em mim?


Será que ele me persegue?


Não conheço nenhum Éden, ao mesmo tempo em que sou perseguido pelas suas memórias.


Por essa razão é que nunca mais se pode negar o que se perdeu, e também não se pode voltar ao que ficou para trás.


O Éden perdido é algo como o tempo: uma vez perdido vira sempre passado e nunca deixa de ser memória!


Assim, o Edém nunca vai embora. Insiste. Se faz lembrar. Sugere a si mesmo como perda.


Nós saímos dele e ele não saiu de nós como fantasia e culpa.


Eu acho que sei disso. Você também. Então, por quê... o Éden?


Um acesso de pragmatismo me assola agora. Quero encurtar esse texto. Eu grito: Todos sabemos que somos caídos e todos sabemos o que é pecado, apesar de nunca termos vivido no Éden.


Como?—indagam.


Pecado precisa de definição!—afirmam.


Mas minha certeza é outra. Eu creio que Pecado não precisa de definição. Somente o indivíduo pode examinar a si mesmo a fim de discernir seu próprio pecado.


Ora, isto seria o equivalente a se enxergar cada vez mais, incluindo a admissão da existência de horas nas quais pensamos de nós para nós mesmos que não estamos pecando—pecando, assim, conforme a presunção de não sermos nós mesmos pecado, em nossa latente e patente ambigüidade em tudo, pelo menos ao nível da auto-percepção.


A gente cresce. Chego no estágio no qual o Edém vai virando História e deixa de ser como lugar-não-lugar em nós. Agora é Passado. Nem me lembro dele. Mas ainda sinto a necessidade de me comportar conforme a impressão de sua idealização. Então me julgo. Algumas vezes a meu favor outras contra. Os “acordos” da comunidade passam a ser o que há de mais próximo do Éden, para alguns; e, para uns poucos aparece como desespero de que quanto mais eu me aproximo mais distante eu fico.


Esse é o julgamento dos gentios que não tem lei, de acordo com Paulo!
Bem, eu já ouvi o Evangelho. Não sou mais gentio. Nasceu em mim uma nova criatura—digo de mim a mim mesmo.


Mas se é assim, por que não consigo voltar ao Éden? Mesmo conhecendo o Evangelho, por que não experimento as maravilhas do Éden? Por que me sinto fora dele toda vez que abro a janela ou sempre que olho dentro de mim mesmo?


Nossa consciência nos acusa e nos defende—pelo menos de nós para nós. Isso é consciência da relatividade de tudo.


Só Deus é Absoluto. Eu só enxergo à partir do mais-que relativo. Meu juízo absolutiza quase tudo para todos e relativiza quase tudo para mim mesmo, dependendo de onde eu estou como ser.


Todavia, as piores faltas do ser são sempre aquelas que sobreviveram tenazmente como “nossas características relativas de identidade”. E damos a elas autorização para rugirem para dentro. Desse modo garantimos que elas não existam apenas porque ainda não se exacerbaram como caricaturas momentâneas de nossa realidade interior do lado de fora.


É para esse lugar de encurralamento que Jesus nos leva primeiro?—indagamos nós.


Não sei com você, só sei que comigo foi-é assim!


Ele me abismou na consciência de minha perdição sem a Graça!


Ele me convenceu e me convence de pecado!


Ele me desesperou ante a constatação de que eu precisava e sempre precisarei do meu Salvador!


Mas me deixou ver que nem sabendo disso eu conseguiria voltar ao Edém. O Éden continuava no passado e eu não tinha e nem tenho como voltar para ele.
Então fui me acostumando!


Recebi meu Salvador. Seu nome é Jesus. Confessei que recebi perdão em Sua Graça. No início isso me soava como um elogio. Depois de um tempo como “um recurso”. Então virou algo que existe. Mas que de preferência a gente nunca deveria precisar em relação ao nosso próximo, pois perdemos a fé nos outros na mesma medida em que nos julgamos certos de nós mesmos.


Como “somos bons”, garantimos Graça para os outros. Mas já não preciso tanto desse “recurso”. Nesse ponto dizem que viramos “santos”.


O Edém, todavia, permanece no passado. E nós não chegamos a lugar nenhum.


Há apenas um Paraíso do é-futuro-futuro-é, pois eis que para mim ainda não chegou, mas já é!


“Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”—ouviu o ladrão.


Agora eu sabia que o Paraíso não estava ao alcance das mãos ou dos sentidos animais. O Paraíso pertencia ao Celestial.


Mas mesmo sabendo disso, eu agora ainda não me nego a continuar buscando o Edém na terra, ou pelo menos na Psicologia. Então mergulho em depressão. O Éden virou depressão!


Não me aposso do Paraíso—já passei da morte para a vida—e nem consigo voltar ao lugar de onde saí. E pior: não consigo sair do lugar onde não estou mais, visto que dele eu já fui expulso.


Meus Deus, qual é o meu problema?—indago-me outra vez, em outra fase da existência.


O problema é que a Graça, agora, já não significa um elogio para você!—creio que foi isto que ouvi como Voz em mim.


É verdade. No início precisar da Graça me honrava, me parecia adequado e verdadeiro. Agora, no entanto, tenho que honra-la. Antes era o máximo ser dependente dela. Agora isso me é vergonhoso!


A Lei perdeu o seu papel de “aio” para me levar a Cristo. E depois que eu me-tornei-em Cristo, a Graça virou “aio” para me abandonar outra vez nas mãos da Lei.


Eu não conseguia entender a razão da viagem. Parecia a estrada Manaus-Manaus: era apenas uma voltinha!


A leitura da epístola aos Galatas me põe outra vez no Caminho!


Olho de novo em volta e vejo que o que operou essa desconversão da Graça para a Lei é um outro problema. É a questão do tempo de casa. Afinal, continuamos com a ilusão de que podemos voltar ao Éden.


Mas eu sei que não consigo. Estou teológica e filosoficamente convencido disso. Então, por que no início era a Graça e agora é o Tempo de Casa?


Outra vez o Éden me persegue. Afinal, o Éden é o tempo e o tempo só existe no Passado. E eu não consigo voltar para ele. Entretanto, o somo como crédito meu. Mas se é crédito não é Graça e se é Graça não é meu o crédito.
Me desespero. O que faço? É, mais não é? Como? Que lugar é esse?
É o Éden!--eu sei.


Quando eu caí ele caiu em mim!


Fui expulso e ele saiu comigo, perdido, nostálgico, inachável, implacavelmente passado e desgraçadamente presente.


É Passado Hoje!


Vou esperar a eternidade. É assim mesmo. Com você não seria diferente!—tento convencer-me.


Então descubro que o problema é o passado. Claro! O problema é o passado!
Sei sobre isto. Afinal, Paulo diz que nem morte nem vida, nem altura nem profundidade, nem coisas do presente nem do porvir e nem mesmo qualquer outra criatura poderá nos separar do mor de Deus!


Mas não menciona as coisas do passado!

E por quê?—me pergunto.


É porque é nas obras mortas—portanto, no passado—onde vive o “espírito da separação” do amor de Deus!


Claro, é o Edém!—exclamo para mim mesmo.


“As culpas, as fobias, os traumas e as autopunições alimentam-se do passado”—leio num texto que escrevi para mim mesmo. Então descanso. Sinto-me aliviado.


Eu creio. Confesso. Hoje é. Tem que ser vivido. É inapropriável como tempo. Quando chega já não é. E o futuro, na linearidade de Cronos existe apenas como o que será, mas também ainda não é. De outro lado o futuro já é, pois, para Deus, tudo é, assim como para Ele todos vivem. Eu Sou—é o Seu Nome!


Viram? Eu creio. Mas e o Éden?


Não! Para mim chega de Éden. O Éden é o problema. O problema?—essa afirmação me suscita uma questão.


Sim! pois o problema é que mesmo quando Deus diz que o passado está perdoado—que o Éden está perdoado—, ainda assim, a maioria não se perdoa por ter vivido, ter errado, ter se enganado, ser sem jamais ter sido do Éden.


E por quê?


É que a maioria gostaria de ter vivido, acertado sempre e tido bom êxito em tudo. Nós queríamos que o Edém nunca tivesse existido como lugar perdido.
Alguma coisa errada com isso?


Sim e não!


Não, porque ninguém tem que buscar o mal. Nossa consciência se alimenta da busca do que é bom!


Sim, porque na maioria das vezes a gente só se arrepende do mal porque ele esvaziou o nosso arquivo de créditos para barganha com Deus e com os homens. Não adianta teologizar. A guerra milita em minha carne. O problema não é o Éden. O problema sou eu.


Por isso é que não posso negar a possibilidade mais que presente do engano em mim. Seria uma irrealidade com minha condição de ser caído.
Penso: quem não tem auto-percepção de sua própria Queda jamais será totalmente aberto para a significação da Graça!


É no e do passado que o diabo vive!


A Antiga Serpente!


O Filho de Eva pisou a cabeça da Antiga Serpente. Mas para onde vou desse ponto em diante?


Concluo que a Antiga Serpente vive na mesma medida em que o Antigo Éden vive em mim. Ela não tem que fazer parte do meu Hoje. Ela é do Edém. Não serei o Velho Jardim da Antiga Serpente.


Tenho outra vez que decidir. O passado é o problema. A Serpente se alimenta dele.


Mas é daí? Tenho que fazer alguma coisa? Não consigo voltar e não consigo sentar para descansar.


Para onde irei?
“Só tu tens as palavras da vida eterna”—brada-me um de meus melhores amigos, um chamado Pedro.


Nada pode me separar do amor de Deus. Nem eu mesmo?
Sim e não!


Não, apenas porque a Antiga Serpente é, entre as criaturas, mais uma das que não tem poder para nos separar do amor de Deus.


Sim, porque nós somos as criaturas que podemos não crer não inseparabilidade desse amor, especialmente em razão do passado!


As obras mortas são as que mais matam. A morte vem do Edém!


Mas eu agora sou filho do Dia Chamado Hoje. As distâncias, a solidão, o abismo e até os céus não podem me afastar do amor de Deus.


O passado não é incluído!


O passado não pode nos separar do amor de Deus, mas pode nos separar da experiência do amor de Deus!


O passado pode me roubar o momento, pode não permitir o Dia Chamado Hoje de me fazer bem. Afinal, basta a cada dia o seu próprio mal.


O amor de Deus só é inaproveitado como Graça em razão das culpas e justiças próprias que viraram neurose, fobia, trauma e legalismo paralisante e auto-punitivo!—e que procedam do Edém, portanto, do passado.


O Éden agora é neurose. Por isto é que Hoje é o dia de salvação.


Tudo isto apenas para terminar sem hesitação dizendo o seguinte:
Não brinque de esconde-esconde com o passado. Você vai viver expulsa-mente preso no Éden!


É dele que procedem os demônios que nos atormentam hoje!


Assim, uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam (incluindo o Éden), prossigo para as que adiante de mim estão!


A nova criatura só será nova se não tiver um passado. As coisas antigas já passaram, mesmo as velharias do dia de ontem, 24 horas antes de eu haver escrito esse texto. Tudo virou o não-Éden, pois, eis que tudo se fez Novo.


Quer dizer que o que vivi não foi vivido?


Não! Quer dizer que já foi...


“Fui”—é a gíria da moçada!


E se eu não fui, não sou!


O que me resta?


Resta-me tudo. Resta-me ser em Cristo. Ele é meu criador. Não é um lugar. Só se é filho da eternidade quando o Éden perde seu poder "de lugar" e a eternidade assume seu não-lugar, que é sua maior realidade em nós.


O primeiro Éden era da terra. Se transmudou como lugar de culpa para a alma. Virou campo de batalha para a religião e laboratório para a filosofia. Existiu muito tempo como mito, depois como arquétipo psicológico, e então ganhou status de Portal. Mas o Velho Homem continua aqui sendo tentado pela Antiga Serpente. E esse Adão que sou eu, não consegue não conseguir.
Só que agora eu sei disso. Sei disso pela fé. O Edém terrestre desse corpo se corrompe. O Éden interior é que se renova de dia em dia, se não houver medo.


Primeiro semeia-se corpo corruptível. Então colhe-se o incorruptível.

Primeiro vem o que é terreno. Depois é que vem o que é celestial.


Insensatos, não sabeis que tudo obedece a um ciclo?—nos provoca Paulo.
É, eu sei. Primeiro tem que vir o Éden. Depois é que vem a Nova Jerusalém.

O Éden foi a semente do que haveria de vir. Assim, o que eu chamo de Queda era inevitável. Daí o Cordeiro de Deus haver sido imolado antes que houvesse Éden. O mais é uma seqüência: aos que de antemão conheceu, a esses predestinou; e aos que predestinou, a esses chamou; e aos que chamou, a esses justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. É a invasão do desígnio da eternidade rasgando a criação do tempo e nos levando junto para o lugar de onde viemos: o amor de Deus.


Que diremos pois à vista dessas coisas?


Se Deus é por nós, quem será contra nós?


Se você desejar eu recomeço. Mas você já sabe o fim.


“Eu sou o princípio e o fim”—disse Aquele que é!

 



Caio