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Reflexões

Médico Que Mata? Sim, sou eu!

Médico Que Mata? Sim, sou eu!

Vejo todos os dias pessoas doentes daquilo que deveria ter sido a cura. O Evangelho de Jesus não teria como ter produzido a “igreja” que nós nos tornamos. Não me refiro a nada de natureza pessoal. Estou falando de “atitude” e, mais profundamente, de “percepção”. Quem vê Jesus em movimento nos evangelhos e olha para a “igreja”—e o significado das aspas tem a ver com soberania da auto-definição institucional—não pode imaginar como o Corpo ficou tão diferente da Cabeça. E mais ainda: como a interpretação conseguiu se afastar tanto do Percebido. A interpretação que a “igreja” faz de Jesus nunca combina com a totalidade de Jesus conforme expressa no Evangelho! Então você diz: “Bem, nós somos nós e Jesus é ou (para alguns) era Jesus!” “Claro”—é minha resposta. Por isto é que Ele é o santo e eu pecador, é o Salvador e eu o salvo pela Graça, é o Senhor e eu desejo ser o servo. Sempre pensamos na imitação de Jesus como impecabilidade. Essa obstinação eu não possuo. Ele é Ele e eu sou menos que eu. Daí essa idéia não me ocorrer. Busco a imitação do espírito de Jesus. A imitação do ser Jesus pode até me fazer mal, se ocorrer de modo legalista, pois me abisma num mundo de “aparências” e caotiza o meu interior, onde tenho que perceber toda hora que eu sou caído e Ele é o Santo. E essa percepção, fora da Graça, é sempre contra mim! Sede santos como é santo vosso Pai Celeste. Pois Ele faz nascer o sol sobre maus e bons; sobre justo e injustos!—é o grito da Verdade. “Senhor, queres que façamos descer fogo dos céus para os consumir?”—indagava Boanerges: filho do trovão! “Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos filhos dos homens e sim para salva-las”—respondeu a Verdade. Esse contraste mostra quem somos e quem Ele é! Somos de Jesus, mas não somos Jesus e nem tampouco como Jesus. E a imitação não precisa matar o temperamento, a certeza de relatividade e a consciência permanente de inacababilidade. Sou pecador! É essa consciência que na Graça de Cristo também me conduz a salvação. Mas eu quero a imitação da santidade do Pai Celestial, que é Bom para maus e bons e que é Justos para com justos e injustos. Eu não quero invocarmos qualquer que seja o tipo de fogo dos céus para consumir os homens. Cairia primeiro sobre mim mesmo! Bem, se falo de qualquer tipo de fogo—incluindo o da língua—então, outra vez, não sobra ninguém! Ou seja: nenhum de nós é santo como o nosso Pai que está nos céus, pois nosso amor é fraco e nossa capacidade de fazer descer fogo— seja do céu, seja do inferno, seja alma, seja do céu da boca— é infindável e fazemos isto todos os dias. Não escapo! Misericórdia quero, e não holocaustos; se houvésseis entendido tais coisas não teríeis condenado inocentes!—grita a Voz. Quem não consegue fazer o bem absoluto tem que se precaver de sua total relatividade sendo auto-relativizado em sua consciência. “Bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia”. Jesus está nos chamando para essa imitação no tamanho de nosso tamanho. Não para a mentirosa tentativa do tamanho da imitação de Deus. Nosso dom mais desgraçadamente natural nesse estado de consciência falida é “coar mosquitos e engolir camelos”. E por quê? Porque é somente a misericórdia que põe cada coisa em seu próprio tamanho. Sem misericórdia mosquito vira camelo e camelo vira mosquito. E onde nasce a misericórdia? Bem, ela nasce da auto-percepção que antes de tudo pergunta a si mesmo o seguinte: Se eu estivesse nesse perrengue, como é que eu gostaria de ser tratado? Então escolha seu caminho, se é de punição ou se é e misericórdia. O que quereis que os homens vos façam, isso fazei a eles, pois essa é toda a lei e os profetas! Outra vez eu desfaleço! Estou aquém dessa atitude. Consigo fazer isto com muita freqüência de modo natural, às vezes como obrigação e, outras vezes, não consigo. Então, trato os outros do modo como eu odeio ser tratado. Admito meu pecado! Ora, isto é arrependimento? Mudança de mente? Não é Arrependimento é arrependimento. Arrependimentos a gente tem sempre ou de vez em quando. Mas Arrependimento é um estado de ser que quando a gente se apropria dele, já perdeu para a virtude de ter se “apropriado”. Então, tenho que me arrepender dessa virtude, pois, não devo me vangloriar de modo meritoriamente auto-percebido de qualquer mudança de mente como sendo uma virtude minha, especialmente se eu não consigo praticar tudo aquilo do que, com a mente, eu já me “apropriei”. O sentido de se apropriar em Cristo precisa implicar em rendição e entrega, e não em “possessão”. Falo de um estado de “possessão”, visto que essa experiência é de controle. Controle sobre minha relação com Deus. Eu digo quando eu estou “bom para Deus”. Este é o “nosso espírito”. Esta é nossa possessão! Ou não é? Eu não tenho controle sobre nada. Eu não garanto que nada jamais pode separar a Deus do meu amor. Eu creio no contrário: que nada poderá me separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, o nosso Senhor! Eu poderia prosseguir indefinidamente mostrando como até as nossas melhores virtudes como a bondade, a consciência e até o arrependimento podem nos matar de pecados que não têm cara de pecados, mas que são pecado, pois roubam de nós o espírito de naturalidade na vida. Toda virtude auto-celebrada como tal já não é mais virtude! Deveria eu, então, não tentar mais discernir as coisas? É claro que não. Devo “examinar-me”, e então comer e beber. O que estou dizendo é apenas que somos pecadores, mesmo. Não somos pecadores porque pecamos, mas pecamos porque somos pecadores—já repeti essa frase um trilhão de vezes na vida! Então, do que estou falando? Refiro-me às curas que matam! É por isto que não parecemos com Jesus em nada do que não precisamos e também em nada do temos que parecer. Não sou páreo para Ele! Sei quem Ele é e sei quem sou! Então, sabendo também de minha outras impossibilidades, sobra apenas uma imitação: a do espírito de Jesus e da busca de Sua percepção das coisas. Ora, o espírito de Jesus é-era sempre o de curar e nunca o de impor a cura. E a percepção é-era sempre de misericórdia. Mesmo quando Ele julga o faz porque ao Filho compete todo julgamento. Ainda assim, também diz: “Eu a ninguém julgo”. Mesmo o Absoluto trabalha com a ambivalência num mundo caído! É essa auto-percepção de imperfeição e essa falta de percepção do absoluto num mundo caído, aquilo que mais nos tem adoecido. Oferecemo-nos o tempo todo para papeis que não são nossos e atribuímos o tempo todo aos outros a vivência de nossa própria frustração. Só é possível curar num mundo caído quando a gente percebe que não dá exagerar na cura! Hoje um amigo me contou que a mãezinha dele estava se submetendo a uma carga diária de radioterapia. Faz uns dias o médico o chamou e informou que era preciso parar um pouco o tratamento radio-terápico. “Temos que parar para que aquilo que pode cura-la, não a mate”—disse o doutor. Fiquei pensando em nós, todos nós! Que susto! Estamos morrendo daquilo que deveria nos curar! E por que?—me perguntei. É porque vocês todos querem ser médicos de si mesmos. Enquanto vocês não aprenderem a misericórdia, nem começarão a caminhada. E o caminho da misericórdia só acontece quando o coração se enxerga na Graça. Sem isto, tudo o mais virará lei e, pela lei vem o pleno conhecimento ou ignorância do pecado. E o pecado gera morte, seja ela eterna, seja psicológica, seja nos sentidos humanos. Foi o que me disse a Voz que sempre fala em mim. Então, tenho ainda mais razão para somente me gloriar na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo e aguardar que pela Graça do Espírito Deus vá sendo meu Médico em Jesus e em Sua Palavra. “Vê se há em mim algum caminho mal e guia-me pelo caminho eterno”—é minha oração para dentro. Caio Fábio