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Histórias

LUKINHAS MEU AMOR: feliz é sua e nossa eternidade!

LUKINHAS MEU AMOR: feliz é sua e nossa eternidade!

 

 

 

Estranhamente, quando o Lukinhas nasceu, no dia 10 de janeiro de 1982, dia de minha ordenação ao ministério pastoral vários anos antes, e também dia da ordenação de meu pai, mais tempo ainda antes do nascimento dele — senti que sofreria muito com e por ele.
 
De fato, uma dor densa como um caroço de abate de angustia tomou conta de meu peito e traspassou meu coração!
 
No início atribui ao fato de Alda, mãe dele, e, então, minha esposa, ter caído doente, tomada por uma profunda e angustiante depressão pós-parto.
 
A depressão durou alguns meses. Não me lembro exatamente. Mas me pareceu uma eternidade. Foi naquele período que senti uma das maiores angustias até então. Ela estava doente e não podia ajudar. Eu, cheio de compromissos, cancelei tudo. Fiquei em casa com eles. Mas o que doía “the most” era não ter peito, leite e os dotes maternos.
 
Ciro, com 6 anos e o Davi com 5 anos me ajudaram muito, especialmente o Davi, que ficava sempre disponível pra ajudar — o que os amadureceu muito cedo.
 
Ciro aprendeu a fazer o café da manhã e deixar tudo pronto. No ano seguinte o Davi assumiu essa tarefa e várias outras em relação a ajudar o Lukas.
 
Durante dois anos eu cancelei talvez 80% de minha agenda de viagens e de trabalho no escritório ou no aconselhamento de pessoas. Lukas tomou quase toda a nossa atenção.
 
Logo ele se mostrou não adaptado à escola creche da igreja e a qualquer outra escola. O Davi ficava com ele na classe até que ele se acalmasse. Quando dava, umas duas vezes na semana, eu mesmo ia e ficava sentado naquele banquinho mínimo, ao lado dele, até que ele consentia, muito relutantemente, que eu saísse para trabalhar. No entanto, mudei minhas atividades para começarem apenas depois das 2 da tarde, pois, até essa hora ele ocupava as atenções.
 
É que ele aprontava muito e em silencio. Foram tantas as aprontações sonsas dele que fiquei quase neurótico. Sumiu de casa por duas horas quando nem tinha dois anos. Caiu de cabeça numa fossa aberta e cheia. Caía de árvores, muros e aceitava riscos. Por exemplo, quebrou o braço, o queixo, a cabeça, etc. muitas vezes.
 
Também me afligiam as perguntas dele sobre o sentido da vida. Com quatro anos ele me trazia questões de significado essencial sobre a existência humana.
 
Com a chegada súbita da Juliana, minha caçula, ele ficou tomado de ciúmes. Amaram-se e odiaram-se apaixonadamente. Brigavam e brincavam o dia todo. Mas aí de quem se metesse com ela. Ele virava bicho.
 
Depois ficaram cúmplices e amigos.
 
Quando ele tinha uns sete anos fomos passar dois anos na Califórnia (88-90). Lá ele explodiu como uma árvore na primavera. Ficou lindo. Alegre. Cheio de graça. E foi também lá que seu jeito pra dança de manifestou. Ele e a Jú dançavam juntos em muitos estilos e a gente adorava ver.
 
Na volta ele se tornou fã do Davi, já bem mais velho na capacidade de autodeterminação do que ele. Com o Davi ele começou a sair. O Davi reclamava. Não queria levar o “pivete”. Mas ele insistia e nunca desistia quando queria algo. Depois de um ano ele já estava tão enturmado que era o Davi quem gostava de levá-lo para todas as ocasiões. Ele e Davi ficaram mais que irmãos — viraram amigos; e o Davi tinha grande prazer nele.
 
Lukas se tornou uma alegria ambulante!
 
Então, quando chegou aos dezesseis, morando e estudando na Florida, começou a dar sinais preocupantes. Amigos que nos preocupavam. Americanos que sofriam de doenças já “pós-modernas”.
 
Mas ele ficou bem... Até 1997.
 
Foi naquele ano que a Alda me disse que estava preocupada com ele. Ele parecia meio tomado pelo espírito gelado da América do Norte. Uma espécie de angustia fria...
 
Então passei a estar o máximo de tempo que podia com ele, além de levá-lo comigo para várias viagens.
 
Foi em 1999, todavia, que ele começou a se deprimir com o mundo. Obviamente que sofreu muito com a minha separação da mãe dele, e, também, com tudo o que aconteceu em 1998.
 
De julho de 99 em diante ele começou a ficar cada vez mais em casa e deprimido. Minha angustia, que já estava lotada de tudo o que mata a alma de dor, ficou mais angustiada ainda. Parei tudo e fiquei com ele. De fato ele virou meu chaveirinho. Onde eu ia o levava. E ele gostava.
 
Voltamos ao Brasil. Começou o novo século. Ele parecia sentir os tempos como poucos. E pior: eu via nele as minhas angustias juvenis.
 
Ciro já estava criado e morando em sua própria casa. Davi já estava casado e também morando com a esposa, Tatiana. Hellena acabara de nascer. Ele e Juliana moravam comigo. Depois de dois anos a Jú foi morar com a Alda. Tudo próximo. Tudo na mesma cidade. Todos se vendo diariamente. Todos sofrendo. Mas todos lutando. Ele, todavia, não queria mais sair da cama. Dizia que o mundo não valia a pena.
 
Foi no final do ano 2000 que Alda e eu decidimos interná-lo. Ele havia se envolvido com ácidos e drogas como estase. Só levantava na sexta-feira e voltava totalmente alterado. No caso do estase, voltava cheio de carinhos e caricias, confessando amor por todos. É o efeito nefasto da bicha. Levanta. Depois deprime. Cada vez mais...
 
Vendi a casa que estava começando a construir para família e, com a ajuda da Adriana (já estávamos juntos), internei-o na melhor clinica da cidade. Uma fortuna. A casa pagou os meses que ele ficou lá.
 
Adriana e eu íamos quatro vezes por semana lá. Íamos a todas as reuniões de pais e do N.A. também. Foi duro, angustiante e aflitivo!
 
Mas ele saiu daquela, Graça a Deus!
 
Voltou a estudar. Começou a trabalhar. E tentou continuar. Depois de um ano ele me disse que precisava morar só nos Estados Unidos, com amigos nossos, porém, sustentando a si mesmo. Orei e deixei-o ir...
 
Ele bancou tudo. Trabalhou e se sustentou. Voltou de saudades. Quase morro de alegria quando o vi pelo vidro da porta de nossa casa, chegando de surpresa.
 
Tentou alguns cursos, mas não gostou de nenhum. Trabalhava. Era Caxias em tudo. Embora fosse aparentemente liberal, por vezes era quase moralista.
 
Sempre conversamos muito. Mas depois que ele voltou da América passamos a conversar muito mais. Às vezes horas e horas. E ele ficava ao meu lado enquanto escrevia as primeiras cartas e textos no site em 2003. Por vezes ele lia as respostas. Fazia comentários próprios. Eu sempre gostava de ouvir.
 
No final de 2003 ele teve uma experiência com Deus. Iniciou 2004 cheio de alegria. Mas foi em fevereiro de 2004 que ele teve uma experiência profunda mesmo. Começou a ler o Novo Testamento e também o livro “A volta do filho pródigo”. Então, ele que vinha morando com o Ciro, ao lado de minha casa com Adriana, decidiu passar uns tempos com a Alda em Niterói. Mas como ele estudava e trabalhava no Rio, e como havia um intervalo de seis horas entre o trabalho e a faculdade de letras (que ele estava cursando e amando) — ele dormia em Niterói e passava a tarde toda ao meu lado, enquanto eu escrevia no site.
 
Nos 50 anos de casamento de meus pais, ele saiu com uma de suas muitas pérolas.
 
“Eles provaram que podem casar. Eles vencerem tudo. Podem casar!”
 
No dia 25 ele passou boa parte do dia comigo. Mas no dia 26 tive que ir à Vitória, e não o vi. Adriana disse que ele chegou lá em casa, e ao saber que eu voltaria somente à noite, sentou no sofá muito triste. Quando cheguei liguei direto pra ele. Estava bem. Só com saudades. Programamos nos ver no dia seguinte. Dia 27 de março. Ele, todavia, não pôde. Falamos ao telefone.
 
Naquela noite haveria um show de um amigo de infância dele — amigo da igreja Presbiteriana Betânia, o Vitinho, filho do presbítero Valdemir, meu amigo e odontologista.
 
Ele não estava muito a fim de ir. Disse-me ao telefone que iria dormir cedo. Mas como a Bruna e o Daniel (meus filhos – enteados) estariam indo ao show com Davi, Tatiana e Juliana, eu mesmo dei força a ele para ir.
 
“It is okay, Dad! I will be there!”— disse-me ele em inglês, língua que ele usava prioritariamente para tudo o que me dizia respeito. Só falava comigo em inglês, pois falava melhor que o português em razão da maior parte da educação dele ter sido naquela língua.
 
Foi na volta do show, às 4 da manhã... —que ele foi atravessar a rua e entrou na Praça da Cidade Santa!
 
Que alegria para ele!
 
Que horror pra nós!
 
Juliana e Valéria (cunhada do Davi) viram tudo!
 
Davi chegou depois e caiu sobre o corpo dele em prantos de dor atroz. Juliana orava e clamava com Valeria. Bruna me ligou. Sua voz me contava o que ela nem precisou dizer. Davi tomou o telefone aos gritos de dor e dizia: “Pai... ele foi... ele foi, pai!”
 
Eu, cá, com Adriana, não sabia se estava vivo ou morto!
 
A dor do dia 10 de janeiro de 1982 voltou como que me dizendo: “Eu era esta hora!”
 
Nesses três anos sem ele... — só Deus sabe como tudo foi. Aqui no site, em Histórias, está tudo o que escrevi pra não morrer de dor...
 
Voltei a pregar depois de ficar 20 dias sem sair da cama porque disse a mim mesmo que se ali ficasse morreria de tristeza.
 
Os meninos, os meus, os de Adriana (ou seja: os nossos) ajudaram muito. Ficaram ali. Calados. Silenciosos. Chorando com serenidade. Ciro ficou ao meu lado, ao lado da cama, o mês todo. Davi me disse que precisava trabalhar pra não mergulhar em depressão sem fim. A Jú ficou perdida entre dores, saudades e certas negações. William, discreto, ficava em silencio. Bruna ora chorava, ora me consolava, ora fazia silencio. Daniel só me beijava e abraçava. Alda estava anestesiada de agonia. E Adriana foi meu e nosso consolo. Esteve comigo e com todos o tempo todo. Sem ela teria sido infinitamente mais insuportável.
 
No dia 27, dia da ida... — Davi e Ciro não me deixaram ir ao local da morte dele. Adriana foi cedo ao necrotério e ficou algumas horas à sós com ele. Foi ela quem o lavou, limpou, arrumou, vestiu e tirou os traços marcantes do choque do carro em seu corpo.
 
Quando cheguei ele nem parecia que tinha sido jogado longe... pelo carro que “triscou” no ombro dele... levando-o para a carruagem de Elias.
 
Minha mãe, que já perdeu um filho de 19 anos, meu mano Luiz, me disse que essa dor não passa, só fica muda. E é verdade. Não fico falando. Mas é raro o dia que não choro.
 
Há alguns dias, sem nada me dizer, Adriana escreveu um texto, e que narra uma conversa de coração, amor e certeza que ela teve com o “Lukas” morto, no necrotério.
 
Eis o texto. Lindo e dolorido. Nele ela narra o que sentiu e disse a “ele” naquelas duas ou três horas de solidão — ela e o corpo; enquanto nos aguardava.
 
                                        †
 
Madrugada de perplexidade, perda, dor. O fato é sem conseguir ser.
 
Não pode, não é, é tudo que respiramos sem que haja ar algum, nem brisa, o vento pára; pára o ar devagar; ficar sem ar; parar sem pensar, sem continuar; parar, chorar, chorar e chorar.
 
Ele foi.
 
Ele não está aonde chego só.
 
Ainda assim o lavo com o cuidado de quem não quer incomodá-lo.
 
Cubro feridas que já não doem. Curamos o tempo cruzando Nele a fronteira, como quem conversa em franca intimidade.
 
Reconhecimento da morte da morte no amor pleno que não precisa do tempo; nesse entendimento onde tudo é explicado.
 
Ficamos unidos esperando eles chegarem; oramos juntos e fechamos bem os lábios; eu os seus; e você os de todos nós.
 
Ficamos sós, esperando, preparando impotentes a cada chegada... a deles; da Alda e do Caio.
 
Clamamos para que pudesse ser o melhor. Eu me uni ao desejo dele não confessado, mas tacitamente firmado em nossa cumplicidade Nele — o conforto, o entendimento, a paz, a certeza, o amor e a inseparabilidade eterna que Ele nos garante.
 
Foi só então que ele chegou...eles chegaram.
 
Você na casa do Pai, alegre para sempre.
Nós, os outros, ainda precisamos caminhar no que Ele decidir, até que como vivos possamos viver.
 
 Ao Lukas meu ente amado, a quase três anos daquela madrugada de dor e silêncio, honrando seus pais Alda e Caio, dedico nossas lembranças e o nosso segredo a eles.
 
Vivemos mais profunda e intensamente juntos do que o “tempo” e os olhos perceberam...
 
Sinto do céu o seu sorriso, que nele espelha o meu coração.
 
 
                                                                   Até Nele, Lukinhas!
 
                                                                   Sua Boadrasta
                                                                                             
                                                                                              Dri
 
                                              †
 
Ela, Adriana, discreta como é, e sem querer me levar a mais choro que a dor de todo dia impõe, só me mostrou esse texto-conversa semana passada.
 
                                               †
 
Deus de meu filho. Diga a ele que estamos muito bem. Doídos, mas salvos e felizes no Filho. Sim! Paizinho, diga a ele que sofremos felizes pois sabemos que ele entrou em Tua eterna Glória.
 
                                               †
 
Luk, meu filho amado, você foi meu canguruzinho e me fez um pai canguru. Minha “bolsa” sente o vazio de tua ausência todos os dias!
 
Ah, filho amado! Como eu gostaria que você visse que tudo e todos estão bem. Mas eu sei que você sabe!
Aqui está também a saudade eterna de sua mãezinha.

“De repente tudo mudou

O fio de prata se rompeu

Planos e sonhos foram cancelados

Um menino interrompido

A vida ficou menos colorida

sem um dos seus mais lindos sorrisos

Morreu para o mundo ... nasceu para o céu”

Saudades da mamãe. ( 10/01/2007)

 

(Por Alda - Mãe do Lukas)

De seu eterno Dad,
 
 
Caio
 
10/01/07
Lago Norte
Brasília