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Reflexões

LIVRE DA NEUROSE MISSIONÁRIA

LIVRE DA NEUROSE MISSIONÁRIA

 

 

 

 

LIVRE DA NEUROSE MISSIONÁRIA

 

 

 

 

Hoje sei que sofri de uma profunda neurose missionária, enquanto, também, era movido por muito amor. Mas nem por isto a neurose não estava lá. Só que em mim ela somente passou a fazer mal quando a motivação do amor diminuiu, abrindo espaço para que a motivação do objetivo tomasse conta quase que por completo de meu coração. 

 

Bons eram os objetivos. Mas sem amor nenhum bom objetivo me aproveitará!

 

E mais: intensos objetivos que não são fruto do amor, se tornam neuroses.

 

E para onde foi o amor?

 

Foi para as muitas atividades. Foi para um surto imenso de dívida para com todos em razão dos dons que em mim havia. Foi para a vontade de ver na História uma diferença. Foi para alvos cada vez mais amplos e difusos. Foi para a sutil alegria de sentir os resultados nas vidas das pessoas como compensação para a sua tristeza pessoal. E, sobretudo, foi-se embora pela desilusão de ver que no horizonte histórico a “igreja”, que deveria ser “sinal do reino”, não se fazia melhor do que o resto da humanidade — digo: não melhor em qualquer forma de superioridade moral ou de qualquer coisa dessa natureza, mas, sim, em saúde humana, psicológica e espiritual; e, além disso, de experiência profunda de Deus.

 

Antes eu tinha as minhas alegrias em Deus e tinha a alegria de ver a Graça de Deus agindo em indivíduos.

 

Mas agora, muitos anos depois, eu me via forçado a conviver com os “líderes” (coisa que no passado não havia, pois eu apenas pregava e eles apareciam para ouvir) — e tal convívio me foi horroroso, visto que quanto mais admitia a presença deles ao meu convívio (na maior parte das vezes recebendo-os, mas também tendo que aceitar seus convites solenes para pregar), mais me desiludia quanto ao fato de que pudesse ainda haver salvação para o fenômeno humano e histórico chamado de “igreja” (com toda a sua visibilidade institucional).

 

Desse modo, em não mais do que cinco anos, mesmo depois de ter sido movido sobretudo por amor a maior parte de minha existência na fé, agora, me via levado pelos movimentos e pelas obrigações da posição, da representação, da necessidade, da importância, e das diplomacias que de mim se demandavam.

 

Ora, se o amor é esfriado, o que sobra, na melhor das hipóteses, é a neurose missionária.

 

O foi o que sobrou em mim em alguns poucos anos. O coração sabia o modo certo de fazer as coisas. E fazia. Mas o mesmo coração havia perdido a alegria do amor.

 

E você pode até dar a volta ao mundo falando do amor de Deus em tal estado. E você pode ver coisas lindas e milagrosas acontecerem mesmo com o coração em tal estado. E você pode ficar laborando em auto-engano em razão da fantasia que tais afirmações externas trazem a você.

 

Deus, entretanto, queria me dar descanso. E mais que isto: queria me libertar da neurose missionária.  

 

Antes de conhecer a Adriana sonhei três vezes que uma mulher que tinha exatamente a aparência dela, vinha a mim e dizia que viera para me dar descanso.

 

Ainda antes disso eu escrevera que o personagem “Abellardo Ramez II”, do meu livro “Nephilim” (1999), buscava mais que tudo em Deus a possibilidade de sentar e descansar. Sim! Ele não agüentava mais viver em pé mesmo quando deitava. Sofria de Neurose do Dever.

 

Ora, nos sonhos que eu tivera com a mulher que era a como a Adriana, eu sofria por ter (cansado de tudo) tido energia para abrigar a muitos, menos a mim mesmo, que estava em pé, na casa de minha avó, enquanto todos dormiam.

 

Assim que conheci Adriana, ela que acabara de ler o “Nephilim”, me disse que gostaria muito de ver o “Abellardo assentado”. E há muitos outros intrincamentos históricos calcados em elementos subjetivos, e que marcam nosso encontro. Todavia, um dos mais significativos, foi esse aspecto do descanso e do assentar-se em paz.

 

Hoje, depois de trabalhar pela manhã, estava andando pelo jardim molhando as plantas, alimentando os passarinhos, e plantando e mudando de lugar umas plantas, com a ajuda de meu amigo, cujo apelido faz-lhe jus ao nome, o “Jovem”.

 

Depois, subi, respondi mais uns e-mails, e, após isso, olhei de cima para o jardim lá em baixo, cheio de passarinhos, e me dei conta do quanto minha alma mudou nos últimos 10 anos. Ora, naquele tempo, nem nas férias eu me sentia relaxado. Parecia que relaxar era negar a intensidade da vida.

 

Hoje eu sei que não é assim. Afinal, sem tanta correria, minha vida continua bem intensa, mas, diferentemente de antes, a cada dia me sinto mais e mais intensamente relaxado.

 

Intensamente relaxado não é algo outra vez intenso, só que ao contrário?

 

Não! O que estou dizendo é que existe uma intensidade temática e de pensamento em meu ser, mas tal intensidade não carrega no meu sentir a obrigação de fazer disto um “algo”, uma “coisa”, um “fato”, uma “realidade” — todas essas coisas externas a mim, e para o bem dos outros.

 

O que é, é. Assim, faço minha parte com calma, e não me desespero, pois, Deus fará o que lhe aprouver.

 

Assim, sinto que a cada dia mais ando descansado. Mas ando... Só que ando descansado. E melhor do que tudo é andar; e ir; mas fazer isso descansado na alma.

 

Ora — isto ao mesmo tempo em que falo acerca de todas as coisas viscerais das quais falo e com as quais me envolvo.

 

Se o mundo está acabando, minha oração é uma só: quero viver tudo, com todos, com toda alegria, com toda paz, e com todo amor.

 

Afinal, este mesmo seria o meu chamado para ser nesta ou em qualquer outra geração ou tempo histórico; pois, o chamado para ser é um só, e não mudará, mesmo que este seja o último dia.

 

 

Nele, que é o nosso descanso,

 

 

Caio

 

21/03/07

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