Português | English

Reflexões

DEUS, REVELA-ME A TUA CAUSA!

DEUS, REVELA-ME A TUA CAUSA!



Qual é a causa de Deus? Pergunto isto porque vejo que há pessoas que parecem ter certeza sobre a “causa” de Deus, assim como um homem politicamente fanático parece saber qual é a causa pela qual sua ideologia existe. Se Deus tivesse uma causa Deus deixaria de ser Deus, pois qualquer coisa que fosse a Causa de Deus, tornaria Deus seu próprio efeito. Assim, Deus não tem causa-causal e nem causa-final. Há muitos, todavia, que nos falam sobre a “causa de Deus” e nos dizem que vivem para servir a tal causa. Houve um tempo em que eu achei que poderia mapear as causas de Deus na Terra. Hoje, entretanto, não tenho mais tal pretensão. Para tais pessoas, com as pretensões que um dia eu tive, Deus tem uma causa muito parecida com aquilo que a palavra “causa” significa para um ser humano que existe para um propósito. Se assim fosse, teríamos que perguntar a Deus: Senhor, para que existes? Quem assim entende, pensa que Deus advoga certas causas como um ser humano as advoga; e que Ele está disposto a se considerar vencedor se os resultados forem mensuráveis do mesmo modo como os homens medem suas conquistas. Quem pensa assim acredita que Deus fará qualquer coisa para “ajudar”—digo, no sentido humano da palavra “ajuda”—aqueles que servem a causa divina. Quando a gente pensa com tais categorias, Deus ganha um significado muito pequeno, pois, de fato, fica nas mãos dos homens, e tem Sua causa em total dependência de Seus agentes humanos. Não, amados amigos! Deus não tem uma causa que seja mensurável, nem tem conquistas a serem ganhas por nós! Deus não tem causa porque Deus não tem um igual. Para Ele tudo o que seja digno de uma causa, é NADA, visto que para Ele em um instante tudo pode virar coisa nenhuma. O desejo de servir a Deus não é algo que possa ser visto como uma ajuda a Deus, mas a mim mesmo, ainda que isto me ponha na mais difícil e doce de todas as situações. Desse modo, se alguém deseja servir a causa de Deus deve saber que isto implicará, sobretudo, em Exame. Quando eu me ofereço para servir à causa de Deus, de fato o que estou fazendo, mesmo sem saber, é me voluntariar para viver sob o exame divino. A causa de Deus é meu coração, não o de meu próximo, nem as conquistas da igreja. Desse modo, quanto mais me ofereço para a causa de Deus, mas me ofereço para ser escrutinado pelos Seus olhos. Isto porque Deus não tem causas temporais, e nem tem em Sua causa algo que se relacione ao que os homens chamam de causas. Deus pode cuidar de qualquer que seja a Sua causa por conta própria. Eu é que me torno não uma causa, mas um Caso para Deus quando penso que sou o defensor da causa de Deus. O simples fato de Deus permitir que o homem perverso tenha seu próprio caminho neste mundo, já revela que Sua causa é revestida de outras Majestades, que não são as nossas. Desse modo, tenho que saber que não sei qual é a causa de Deus, pois se a causa Dele fosse como a minha, certamente os meus inimigos já não andariam na terra. O simples fato de Deus ser Deus e os homens serem como são, já revela que a causa de Deus não está disponível aos sentidos, pois se fosse o caso, por amor à Sua causa Ele já teria acabado com todas as coisas. A grande punição do perverso é que Deus não o vê; e passa por sobre ele, sem fazer dele e Sua causa. Todavia, sem fazer esforços como os nossos, e andando sem causa, Deus acaba por realizar a Sua vontade, ainda que ninguém saiba como. Jesus disse que a causa de Deus era que fosse feita a Sua vontade. Todavia, Ele não exacerba poderes a fim de realizar o que deseja. Sim, Ele não transforma pedras em pães, e nem faz a água do poço de Jacó subir contra a gravidade a fim de matar a sede do filho de Deus ao meio dia (João 4). Assim, a “passividade” de Deus ante aquilo que dizemos ser “Sua causa”, é o que mais choca a nós e ao mundo. O mundo não entende, nem a igreja, que Deus não age como age o homem; e nem chama de poder aquilo que nós chamamos de poder; além disso, Sua vitória nada tem a ver com as nossas conquistas. Ora, Deus é espírito; daí Sua causa se focar na construção de um mundo invisível, por mais inseguros que fiquemos. Quando Ele diz que o reino não vem com visível aparência, e que se instala em nós, Ele chama sua causa para dentro de mim; não como se eu fosse a causa para Deus, mas apenas como quem é o Caso de Deus. Deus não tem causa senão aquela que faz de mim a razão de ser de minha própria missão, que é tornar-me eu mesmo, conforme a Sua imagem. Pobre daquele que pensa que sua missão é em algum lugar que não seja o seu próprio coração. Desse modo, os que entenderam a causa de Deus são aqueles que se ofereceram como chão para que a vontade de Deus seja plantada. Todo aquele que pensa na causa de Deus como algo a ser construído fora, perde o significado de si mesmo, ainda que diga que vive para a “causa de Deus”; visto que minha missão no mundo é a missão de quem se sabe como sendo o grande ser-lugar onde a missão acontece. A causa de Deus é fazer em mim e de mim alguém que seja conforme a imagem de Seu filho. No fim, temos que admitir, como fizemos no início, que a palavra “causa” é uma violência quando usada em relação a Deus; afinal, Deus não tem uma causa para ser defendida; mas apenas uma causa para ser vivida, e que não é a construção de uma torre, mas a transformação da consciência de um homem. A causa de Deus—se assim eu puder agredi-Lo com tão inapropriado termo—é a Consciência; pois todas as coisas existem por amor de nós; logo, todas elas existem para emular nossas consciências. Quando todas as coisas couberem na consciência, então, saberemos que Deus nunca teve causa, mas apenas a causa de nos fazer ver que não há causa. Nesse dia a verdade surge, e a gratidão passa ser o sentido da vida. Caio