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Opinião

COPA: A BOLA ORDEM E PROGRESSO

COPA: A BOLA ORDEM E PROGRESSO



O Brasil acabou de perder da França. Não perdeu o Hexa, mas sim a Copa. Afinal, o Hexa ainda pode ser ganho numa outra Copa. Mas nós perdemos outra vez da França; e pior: de nós mesmos! Aliás, o Brasil sempre perde de si mesmo desde que me entendo por gente. Perdeu em 1966 por excesso de talentos e de gente mandando. Em 1974 perdemos de excesso de confiança. Parecia que depois de 70, nada mais existiria que nos contivesse. Mas a Holanda havia inventado um “Carrossel”. Então, 1978 perdemos por estarmos “quase-bem”. Já em 1982 tivemos em campo a 2ª melhor seleção que já vi jogar ao vivo. Mas, conforme Junior me disse na casa de Baltazar, logo depois da Copa de 82, o Brasil “perdeu de vaidade e orgulho.” Perdeu pro “já ganhou”; e Paulo Rossi nos despachou. Em 86 perdemos porque não tínhamos porque ganhar. Em 1990 perdemos porque não merecíamos ganhar também — mas ainda corríamos em campo e sofríamos a cada fracasso como time. Já em 1998 nós perdemos para a Nick e para os “jogadores-produto”, observados como num leilão de cavalos árabes. E hoje... Ora, hoje perdemos para a nossa vitória prévia; perdemos para o dream team; perdemos para os super-stars; perdemos para a prevalência da idade sobre a vontade; perdemos para o Parreira. Sim, Parreira foi um dos nossos tropeços também. E aqui, sinceramente, não vai aquela reclamação clássica acerca do técnico quando o time perde. Nunca senti algo tão focado na responsabilidade do técnico como nesta Copa. O Parreira não jogou e não deixou jogar. Prendeu os jogadores em Caixas Pretas; pois nunca houve Quadrado Mágico. E no meio de campo ficou um Buraco Negro. Mas só o Parreira poderia conceber que a boa bola pudesse ser algo que acontecesse num “quadrado”. Para mim o jogo valeu pela beleza do futebol ao estilo Ademir d’Guia jogado por Zidane. Sim, Zidane me fez lembrar de como o Brasil costumava jogar bola. Entretanto, olhando daqui de meu quarto, pela televisão, vejo e sinto que perdemos esta Copa em razão do “espírito” que cercou a Seleção; e também em razão da reação da mídia, dos anúncios de publicidade de preço e de imagem de “deuses do Hexa”, que pesavam sobre as mentes daqueles homens-meninos. Sim, em jogo também há contratos milionários; o que gera um excessivo sentido de auto-preservação; e que é um demônio que agora também oprime e, por vezes, até “possui” nossos jogadores-estrelas. Ora, é isto que gera esse “medo da bola” que atualmente “possui” os nossos jogadores quando estão na Copa do Mundo de Leilão de Jogadores e de Estrelas. Mas não consigo ainda esquecer o Parreira. Isto porque também perdemos para a gordura e para o peso de Parreira. Ele, o técnico, esteve em todos os jogos mais pesado do que Ronaldo, mesmo quando estava carregando uns kilos a mais, e megatons de peso de expectativas, as mais diversas, que sobre ele são “projetadas”, e por ele assumidas. Mas Parreira pesou bem mais que Ronaldo. Voltar com o mesmo time de hoje para o segundo tempo e somente tirar Cafu faltando 20 minutos, colocando Cicinho (que deveria ter jogado desde o 1º jogo), e tendo posto Robinho no time apenas quando faltavam 12 minutos (sem falar que Adriano entrou antes de Robinho) — quando, numa situação daquela, de estado psicológico moribundo e rendido ao medo de jogar e de arriscar — assim arriscando tudo pela inércia — Parreira deveria ter posto os três logo na virada do 1º para o 2º tempo. Quem sabe o espírito de auto-preservação bem menor que habita a alma dos mais jovens pudesse nos dar sangue, coragem, alegria, vontade, destemor, ousadia, e ambição maior do que a própria carreira ou imagem. O peso da arrogância e da soberba do Parreira, contribuíram bastante para todos os atrasos que marcaram as mudanças obvias que o time necessitava, mas que Parreira jamais fez ou só fez na hora errada. A “bola” que o time do Brasil jogou hoje foi equivalente à que está dentro do “quadrado deitado” que cerca a “bola” da bandeira brasileira. Sim, jogamos a “bola” da bandeira brasileira, que é como a “bola do Parreira”; e que falsifica a alma do povo e da Seleção Brasileira de Futebol; posto que o que está escrito na bola da bandeira é a negação da alma do povo brasileiro; afinal, nós NÃO somos o povo da “BOLA ORDEM E PROGRESSO”; mas sim o da bola de Garrincha, de Pelé, de Gerson, de Tostão, de Zico, de Sócrates, de Romário, e do Ronaldo quando era diminutivo ainda. Somos o povo da bola da irreverente, mas humilde. Mas Parreira é o técnico da Bola Ordem e Progresso; que soa séria, mas não tem vida. Sim, porque somos o povo da bola da alegria, da criatividade, da paixão, da raça, da anarquia irresistível, das loucuras, dos suicídios salvadores, do samba no pé, da liberdade de ser e da irresponsabilidade confiante. Foi assim que aprendemos a jogar bola e só sabemos jogá-la pra ganhar-ganhando se assim for. Enfim, faltou-nos o que somos: o povo da bola da alegria, e que joga com espírito de confiança leve! Nesta Copa, até se tivéssemos levado o time do Santos com Robinho (2004-05), teria sido ainda bem melhor do que esta Seleção de Deuses Apavorados —; pois, pelo menos, teríamos um time. E se Filipão fosse o técnico desse Santos-Brasil, sem dúvida nossas chances seriam bem maiores. Mas enquanto a bola de Parreira for a “bola oficial” da Seleção Brasileira, o que nos resta é torcer para que a final desta Copa possa ser algo que tenha o estilo de Zidane e a raça de Filipão. Pois Zidane e Filipão são, até agora, as coisas mais brasileiras desta Copa. Se o espírito da “Bola Ordem e Progresso” for o que continuar a prevalecer, seja pela decisões e escolhas parreirenses, seja pelo peso dos contratos envolvidos, seja pelo comportamento de tesouros ambulantes que marca nossos jogadores estrelas — veremos a bola virar quadrada, como quadrado foi o “quadrado” de Parreira, dentro do qual a magia morreu de medo. O Cosmos de estrelas que está sobre a nossa cabeça, se move, mas é fixo em suas rotas. Tudo nele é redondo, mas pela fixidez, tudo se faz quadrado. Já no micro-cosmos, onde não há estrelas, mas fótons, prótons, elétrons, etc — não há nenhuma fixidez; e a lei prevalente é a das totais possibilidades, visto que tudo está em estado de permanente impermanencia. Assim, no Macro-Cosmos, há Ordem e Entropia, que não é progresso, mas retrocesso, perda, e desvanecencia. No Micro-Cosmos, diferentemente, não há ordem alguma, nada é fixo; nada é pontuável, pois tudo é possível. Sou do tempo em que a Seleção do Brasil jogava um futebol quântico, das totais possibilidades, de milagres, de loucuras da própria física, como Garrincha; e das totais genialidades, como as de Pelé e vários outros. Hoje o futebol do Brasil é de Estrelas, mas elas são todas fixas. Hoje elas são do Macro-Cosmos. Mas nessas estrelas tudo é previsível; como totalmente previsível na sua lentidão e quadradismo é o Parreira. Infelizmente, sem nenhuma depressão, e já chutando a minha bola com alegria e sem temor para frente, prossigo. Pois, quem ficar chorando sobre o acontecido, merece chorar mesmo. Caio