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Reflexões

AS MUITAS LETRAS NUNCA ME FIZERAM DELIRAR...

AS MUITAS LETRAS NUNCA ME FIZERAM DELIRAR...



CERTAS pessoas pensam que não as enxergo. Mas elas são muito óbvias. No início eles diziam que eu não podia mais pregar em razão do que me acontecera em 98. Depois, eu só poderia voltar a pregar se fosse como “ministro formal de alguma denominação”. Depois, começaram a dizer que era eu “liberal”. Depois, vendo que o Evangelho é o que eu prego, e isto eles não podem negar, passaram a dizer que eu era contra a Igreja. Como me vêem pregando na Catedral do Rio (formal e histórica), e, no Caminho da Graça (informal e recente), ficam perturbados. Não podem dizer que não prego o Evangelho, não podem dizer que não creio na Igreja, podendo apenas, agora, dizer mais duas coisas (por enquanto): 1) que sou contra o ensino formal teológico; 2) que estou tentando re-inventar o que já está inventado. Hoje li um texto de alguém que fazia uma critica a uma opinião minhas sobre o movimento Igreja Com Propósito. Muito jeitosamente o articulista se queixava de que os jovens estão me ouvindo muito, e que eu, embora tivesse conhecimentos parciais sobre algumas coisas, usava, no entanto, de minhas “habilidades” com as palavras, a fim de convencer as pessoas acerca daquilo que eu não conhecia com profundidade. Fiquei rindo da ironia... Realmente, desde o início (73) que me neguei a perder tempo nos bancos de seminário. Porém, não foi em razão disso que deixei de ler até mais do que a grande maioria dos que não fazem outra coisa. E li de tudo durante uns 20 anos, de modo ávido, variado, multifacetado, e, sobretudo, todas as coisas e de todas as linhas de pensamento; indo dos Pais da Igreja, aos Apócrifos; das Pseudo-Epígrafes, aos Doutores da Igreja (lendo suas teses, e Sumas, como a de Tomas de Aquino); dos os Filósofos, aos Filósofos anti-filosóficos; e os Pensadores em geral, dos mais ortodoxos aos mais heterodoxos; dos crentes e aos céticos, como Marx e outros; especialmente os anarquistas e existencialistas. Sim, li dos seres angustiados, porém sinceros, aos acalmados em santa burrice—estes últimos, em geral, pregadores ou teólogos professores. Sou como uma casa sem telhado. Estou aberto para tudo. Examino tudo. Me interesso por tudo o que não sei. Mas tenho total falta de interesse nas coisas que sei tanto, que não as suporto mais, de tão básicas e resolvidas que se tornaram. É por conhecimento acadêmico auto-didático e contínuo, que deixei de me interessar pelo academicismo; e isto apenas por não ter mais tempo a perder, e por verificar que tais coisas são bons acessórios para o saber, mas que são paupérrimas quanto a serem úteis para vida; isto quando se tornam apenas conhecimentos de informação, como, em geral, é o que acontece. E mais: sei que tal academicismo gera o auto-engano na pessoa que o ostenta de modo imaturo e sem vida e conhecimento de Deus, pois, pelo desconhecimento do Evangelho existencialmente, tais pessoas acabam por crer que a vida com Deus é algo que se aprende em livros, ou que é algo que vem da acumulação de informação teológica. Portanto, foi e é o saber acadêmico variado justamente aquilo que me provou que ele é pouco útil para a experiência da existência; especialmente se a pessoa diz que o saber acadêmico é algo que promova o conhecimento de Deus, posto que não é verdade. A maioria dos “doutos” se sente “formada em Deus”; e, depois disso, se alimenta de informações sobre o tema. Mas a Deus mesmo, poucos acabam por conhecer, visto que a primeira coisa que acontece com aquele que provou Deus, é saber que só se O conhece se se O provar existencialmente. Assim, quando não fico mencionando um monte de escolas disso ou daquilo a fim de embasar qualquer coisa, não é porque as desconheça, mas apenas porque elas são irrelevantes à proposta do Evangelho; a qual, para mim, é urgente, e não mudou. Todavia, só me sinto tranqüilo em fazer isto porque não deixei de ler pelo menos umas 100 mil páginas sobre o que hoje discorro livremente. Não há nada novo debaixo do céu, portanto, não estou tentando re-inventar nada, mas apenas clamando para que todos vejam qual é o Sentido de nossa fé. E, com certeza, a menos que alguém diga que Jesus era um sonhador adoecido, embora divinamente bem intencionado; ou a menos que diga que o que Ele ensinou é Verdade, mas infelizmente não dá certo —, é que posso admitir que o ideal seja esse que nesses últimos 2 mil anos a “igreja” criou em substituição ao “idealismo impraticável de Jesus.” Ora, se alguém tiver a coragem de dizer qualquer dessas coisas, sinceramente, eu respeitarei muito mais. Porém, não dizer isto, se dizer discípulo de Jesus, e, ainda assim, chamar o Evangelho puro e simples de “invenção”, e advogar que é mais certo viver conforme os mandamentos dos homens—; então, para mim, isto sim é a institucionalização da “re-invenção”; posto que nesse caso, o que vigora não é o que Jesus ensinou, mas sim o que se diz que Ele quis ensinar, tendo tido o problema oral e pedagógico de se fazer explicar e compreender. Sendo esta a razão pela qual a “igreja” decidiu “re-inventá-Lo”, a fim de pintar um quadro mais adequado para as mentes pagãs. Que todos os que se interessarem fiquem sabendo a respeito de meu sentir acerca do Evangelho: 1. Eu vivo como se eu mesmo fosse testemunha da Ressurreição; ou como se Ele tivesse interrompido meu caminho contra Ele mesmo, e tivesse me enviado a pregar aos que são como eu. E isto em cada dia chamado Hoje, como do dia de hoje. 2. Conheço o que se pode e deve conhecer acerca da História da Igreja; o suficiente para me habilitar a discutir com qualquer um, onde escolherem, acerca de qualquer que seja o tema ou assunto. Não fui convidado a falar nos eventos mais “ilustres” do mundo “cristão” porque as pessoas admiravam a minha ignorância, mas justamente pelo contrário. 3. É por conhecer tais coisas, e, sobretudo, por conhecer a Jesus, conforme o Evangelho, e conforme revelação Dele em meu coração; e, além disso, conforme três décadas de experiência intensa com o povo, com os acadêmicos, com a vida, com a multi-formidade da existência, com os demônios, com os homens, com as mulheres, com a “igreja”, com os filhos (meus e dos outros), com os poderosos, com os fracos, com os que governam, com os que estão presos, com os que soltam os encarcerados, com os que enlouquecem, com os que voltam a si, com os que julgam, com os que se convertem após caírem, com os caem após se converterem; com os que crêem, porém nunca confessam; com os que almejam, mas nunca têm coragem de arriscar; com os que julgam, embora morram de admiração; com os que estribucham contra, justamente porque estão fascinados; com os que acusam apenas em razão de prejuízos que a verdade pode lhes causar, etc...—sim, é por conhecer estas coisas que não me impressiono com nada, a não ser com a fé que brota do coração daqueles que explodem em verdade contra tudo e todos, e confessam o amor ao Evangelho. 4. Também não cito as variadas escolas de pensamento porque só o faria no caso delas trazerem alguma luz para o que digo. Porém, como minha disposição existencial é a de deixar que tudo o que li, vi, soube, me tocou, entrou em mim, foi processado, e se tornou parte de mim — seja o material inconsciente de minha aproximação das coisas, evito até mesmo as pesquisas sobre temas quando tenho que pregar ou escrever; e isto justamente porque assim fazer, para mim, é parte de minha escolha intelectual, existencial e psicológica de observação das coisas. Ora, em relação ao Evangelho, busco chegar a ele pela via mística, e, também, pela vereda do conhecimento dos contextos antigos (razão pela qual fui mais de 30 vezes a países de geografia e história de contexto bíblico); e, sobretudo, com o desejo de discernir o espírito da Palavra, a qual é espírito, e só pode ser discernida espiritualmente. O fato é que me sinto cheio do Evangelho, como se eu mesmo tivesse andado com Jesus pelas estradas e caminhos da palestina. E isto não é jactância. É a mais pura verdade do sentir de meu ser. Aliás, eu não teria qualquer outra razão para ser discípulo de Jesus se para mim não fosse assim. Por esta razão, Paulo é para mim o paradigma de todos os que foram nascidos fora de tempo. É com a mesma paixão existencial pelo Jesus ressuscitado e vivo, que eu busco servir a Deus no mundo mediante o anuncio do Evangelho; e nada mais. Nele, Caio 13/09/05