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Reflexões

AS CRIAÇÕES ARTIFICIAIS TAMBÉM MUDAM A NATUREZA DA ALMA HUMANA!

AS CRIAÇÕES ARTIFICIAIS TAMBÉM MUDAM A NATUREZA DA ALMA HUMANA!



AS CRIAÇÕES ARTIFICIAIS TAMBÉM MUDAM A NATUREZA DA ALMA HUMANA!

 

Quando meus avós paternos se conheceram na Bahia ela [minha avó] era filha de uma família tradicional de ascendência francesa, e ele era um amazonense criado no interior do Estado, no meio da floresta, embora educado, culto e refinado nos saberes acadêmicos.

 

Naquele tempo isso era obra de “padrinhos prósperos”, e que levavam a sério a educação de seus “afilhados”. Ora, meu bisavô era um homem rude, embora inteligente, e, portanto, desejava que seus dois filhos, João e Maria, gerados quando ele já passava dos 70 anos fossem bem educados.

 

O velho viveu até aos 104 anos e morreu por decisão eutanásica de não se alimentar, pois dizia que estava cansado de tantos anos, ainda que não tivesse jamais ficado doente, enxergasse bem e não sofresse de nenhum achaque da idade, mas, dizia que para ele, dera... Achava que vivera de-mais... Era bastante!

 

Todavia, como não possuísse meios para educar os dois filhos em um centro mais avançado, entregou-os aos cuidados de um compadre de mais posses. Minha bisavó morrera cinco anos após o casamento com o velho de setenta e poucos...

 

Quando chegou o tempo da educação acadêmica formal meu avô mudou-se para Salvador, onde conheceu minha avó. Ela rica, e ele pobre, porém, culto.

 

Uma vez formado, ele tinha que voltar ao interior do Amazonas a fim de cuidar do Seringal/Castanhal da família. Ela, porém, enfrentava grande resistência por parte da família e de amigos citadinos quanto seguir aquele homem bom, mas duro. Ele foi. Ela ficou. Mas ficaram amarrados um ao outro pelo amor e pelo compromisso. Ele prepararia tudo... Então ele voltaria para busca-la.

 

Seis anos passaram... Apenas papéis de carta de amor os embalavam em seus amores e compromissos. Os parentes e amigos diziam que ela deveria pegar um dos muitos solteiros disponíveis em Salvador e salvar-se daquele amor por cartas. Ela dizia: “Ele me ama, e eu o amo. Ele é homem de palavra. Ele volta!” E voltou. Sim, voltou; e a levou; e viveram um grande e fiel amor, do qual nasceram 13 filhos; e também em razão do qual criaram muitos outros...; sem falar que transformaram sua casa/hospital num abrigo para centenas e centenas de desabrigados, marginalizados e doentes, conforme narro em meu livro “Confissões de um Pastor”.

 

Meu pai era o oitavo filho daquela prole. E como meu avô já sustentasse outros filhos estudando no Rio e Salvador, estando o Brasil na guerra em favor dos Aliados, e não havendo em Manaus Faculdade de Arquitetura [sonho de meu pai], mas apenas Faculdade de Direito; e mais: já estando meu avô muito doente, disse ao meu pai que ele deveria renuncia a Arquitetura e fazer Direito; e mais: incumbiu-o de ir, aos 18 anos, passar pelo menos 4 meses do ano no Seringal/Castanhal da família, no fim do mundo; pois ele era o único filho homem disponível para aquela missão da qual a família também dependia.

 

Ora, papai não contava com uma das pernas desde cedo, quando uma injeção mal dada destruiu o seu nervo ciático. Andava de muletas...

 

E lá foi ele... Fazia a Faculdade de Direito, e, nas férias, perdendo aulas, embrenhava-se na selva por quatro meses. Eram dias e dias de solidão. Remava semanas, sozinho, sem uma alma para conversar. Aguardava o “batelão” que recolhia a seringa e a castanha, algumas vezes esperando por até dois meses na beira de um rio, sem ninguém; contando apenas com a companhia dos porcos do mato, desejosos de comerem as castanhas, com uma infinidade de mosquitos carapanã, e com a doce presença dos escritores clássicos da literatura universal. No mais, tudo era chuva, desconforto e silêncio!...

 

Por seis longos anos lhe durou aquela rotina anual. E, dizia ele, nunca lhe foi uma pena, uma perda, uma supressão de vida. Ao contrário, para ele ali se haviam nele instalado os valores mais preciosos da rigidez, da seriedade, da paciência, do silencio e da renuncia amorosa.

 

Aquele era um tempo em que o tempo era subjugado pelo espirito do homem!

E mais: era o homem quem fazia o tempo e não o tempo ao homem!

Sim, o homem se sentia senhor do tempo e das oportunidades, e não o tempo/oportunidade era senhor do homem!

 

Que diferença faz isto para a formação do caráter humano. Apenas quem vive sob o senhorio angustiado do tempo/oportunidade/velocidade não pode compreender tais coisas!

 

Assim eram forjados no homem os sentidos de rigidez, de resistência, de interioridade, de felicidade na solidão, de resignação feliz e de alegria de ser no servir quieto e útil a outros mais do que apenas o eu-próprio.

 

Hoje tal coisa é inconcebível a um menino idiotado de 18 anos; que morre de tédio se por um dia não tiver celular, balada, festa, filme, chat, MSN, SMS, e um festival de contatos aflitos e ansiosos. Sim, tendo que estar conectado com tudo e todos; usando todos os aparatos tecnológicos da pós-modernidade...

 

Ora, tais coisas não são apenas midiáticas, mas, sobretudo, existenciais e psicológicas. De fato são demônios espirituais; os quais possuem a alma como se fossem naturezas eternas do homem.

 

Mas a vida não era apenas possível sem tais coisas. De fato era muito mais feliz. Sim; era mais humana, mais nobre, mais forte, mais digna, mais sóbria, menos carente, menos vulnerável, menos tudo de mal que vejo à volta!

 

Antes um menino era tratado como homem aos 13 anos; aos 18 anos ele era respeitado; aos 21 era um senhor responsável; aos 30 era um servo da vida; aos 40 era um ser sábio; aos 50 era um avô lúcido; aos 60 era um guia exemplar para muitos. Digo: caso ele já não estivesse adoecido pela urbanidade embabacada do Rio ou de São Paulo; ou de New York ou Paris.

 

Tenho muita pena desta geração de seres retardados, tementes do tempo, apavorados com a solitude, enfraquecidos diante de qualquer que seja a espera, ainda que de minutos!

 

Sim; uma geração sem paciência, sem renuncia e sem a alegria de certas resignações saudáveis e altruístas!

 

Digo isto reconhecendo que a minha geração, embora ainda não tecnológica ao extremo — somente vi televisão a primeira vez aos 10 anos de idade, em Copacabana —, já era fraca se comparada à do meu avô e à do meu pai.

 

Ainda assim [...] tínhamos que esperar um ano pra ver um filme ganhador do Oscar ou o mesmo período para ter acesso ao Album do Woodstok.

 

Embora tivéssemos visto o homem pousar em tempo real na Lua, e, logo depois, tivéssemos visto o Brasil ganhar a Copa de 70 ao vivo e a cores no México.

 

No mais, tudo demorava muito mais... Todavia, já havia uma ansiedade latente em todos nós. Sim, uma angustia quanto ao tempo [...] e que aparentemente não existia nos mais antigos.

 

No plano da existencialidade ainda se buscava conquistar uma menina por um ou dois anos... Sim, ainda se dava tempo ao encontro, ao cortejo, à resposta...

 

E mais: não era anormal quando se ouvia falar de uma mulher que havia sido capaz de amar apenas uma vez na vida, e, não tendo sido correspondida, nunca buscara outro alguém para tapar o buraco de qualquer que fosse a carência. Havia até certa dignidade humana em tal resignação afetiva, e ninguém fazia força para desencanar tal alminha devota ao amor singular não correspondido.

 

Ainda me lembro de que havia até homens capazes de tais entregas... Sendo isto não tão comum nos homens quanto nas mulheres; mas eles ainda existiam...; e não se recomendava a eles ou elas um analista a fim de se curarem de tal “mal”. Sim, posto que amor fosse coisa de amor mesmo; e não de ocupação quase afetiva e apenas social!

 

ORA, o que isto tem a ver com o fato de que a tecnologia humana altera a alma, fazendo com que invenções meramente tecnológicas se tornem significados existenciais?

 

Nos dias de hoje meu avô seria diagnosticado como um neurótico e minha avó como uma alienada afetiva. Meu pai seria um submisso que entregara seus sonhos às necessidades da família. E a mulher capaz de amar uma única vez, negando-se a entregar-se sem amor a outro homem, seria considerada uma obcecada e adoecida, carente de uma boa analise.

 

HOJE, com todos os chats e com o Facebook não há tempo a perder. O tempo é senhor da alma. Relacionar-se é uma imposição. Sim; não importa a razão! O que não se admite é a solitude como boa companhia jamais!

 

Então, tais facilidades tecnológicas se tornam parte da alma; e não existir para atender suas demandas ou ofertas é estar adoecido e descompassado em relação ao tempo.

 

Surgem então os carentes profissionais, os tarados existenciais, os esburacados sem cura, os que se sentem perdendo tudo se não estiverem conectados; ainda que isto seja num mundo de fantasia como um “Second Life”.

 

Todos os dias na Vem e Vê TV ouço os que falam comigo no chat, e, invariavelmente sinto as angustias de suas crises existenciais/tecnológicas.

 

Quanto mais velocidade..., mais perda de tempo; mais angustia; mais pânico de solidão; mais superficialidade; menos amor; menos valor; menos convicção ser; menos individuação!

 

São almas em bits, em gigas, em megabits!

 

Todavia, são almas sem paciência, sem espera, sem sobriedade e sem paciência. Sim, são almas em frames, em nano realidades, em perfis sem verdade, em contatos sem realidade!

 

Não há faces, há facebooks; não há vidas, há perfis; não há tempo, há urgências angustiadas!...

 

Em meio a isto tudo, como vencer as tentações?

 

Sim, pois, para vencer as tentações — que são miragens da realidade — a pessoa tem que ter calma, silencio, quietude, e, muitas vezes, renuncia e resignação!

 

Todavia, tais palavras não são compatíveis com as urgências em bits que são impostas sobre a alma. Tudo é instantâneo e nada pode ser paciente.

 

Tudo é realizável, e nada pede renuncia. Tudo tem que ser atendido, e, portanto, nada demanda resignação quieta e silente!

 

A alma se tornou um fenômeno quântico, e não mais um fenômeno do tempo e da espera. Mundos paralelos nos são oferecidos enquanto se resolve alguma suposta realidade demorada.

 

Assim, pergunto: que alma humana pode sobreviver em sua originalidade natural em tempo de tanta artificialidade dada como parte da própria natureza humana?

 

Desse modo, essa coisa de Jesus de “tomar a sua cruz e segui-Lo” torna-se algo inviável em tempos de nanocruzes, de bitcruzes e de megaegos!

 

E mais: em tempos de tecnologização/midiática da alma, que amor quererá ser eterno?

Sim; quem amará porque ama, e não porque seja amado, ou desejado, ou apenas porque ame mais a conexão do que a pessoa em si?

 

O que posso dizer é que eterno é o buraco tecnológico que se abriu na natureza humana, posto que não seja humano tal vazio que se faz passar por carência humana na maioria de nós!

 

Quem ainda tiver tempo para ouvir, ouça; ou quem ainda tiver paciência para ler e pensar, por favor, considere!

 

Nele, que sempre fez tudo seguindo o tempo e a hora do Pai,

 

Caio

6 de janeiro de 2012

Copacabana

RJ