Português | English

Reflexões

AINDA QUERO VIVER OUTRAS VIDAS?

AINDA QUERO VIVER OUTRAS VIDAS?


AINDA QUERO VIVER OUTRAS VIDAS?



Em 1997 eu estava com a família na festa de um casal de amigos. Naquele tempo eles eram as pessoas mais íntimas que eu tinha no universo das amizades.

 

Ele fora meu amigo desde a infância.

 

Ela foi minha ovelha.

 

Casei ambos, além de ter dado um boa força para eles se unirem, namorarem...

 

Agora, anos depois, fazíamos o que sempre fazíamos: nos reuníamos para estar juntos.

 

As crianças conversavam... Havia muitas conversas paralelas e muita alegria em todas as conversas.

 

Era muito bom!

 

Uma senhora presente ao encontro disse o seguinte:

 

“Eu gosto de ver o pastor Caio porque ele 'manda ver'... vai mesmo... sem medo... vai enfrentando e vai fazendo!”

 

Então, concluiu dizendo que gostaria de ter minha fome de viver e a ousadia para tal.

 

Ah! Lembro-me muito bem...

 

Eu disse: “Ainda quero viver pelo menos mais umas quatro vidas!”

 

Todos pararam e ficaram me olhando.

 

Eu mesmo não sabia direito o que havia dito.

 

Perguntaram-me como seria isso.

 

“Fui uma criança muito feliz e intensa... um adolescente ousado... um pastor apaixonado... um cristão que gosta de novos desafios... sinto prazer em empreender... Então, gostaria de fazer algumas outras coisas bem diferentes. Pode até ser que na velhice eu vá embora daqui para um campo missionário bem distante!” — foi o que respondi.

 

Em 1998 o telhado do céu desabou sobre minha cabeça!

 

O ar ficou geladamente metálico e meu corpo fervia de frio e tremia de calor.

 

O apocalipse acontecera. Eu o via com os meus próprios olhos. Era como quem diz que morre, sai do corpo, olha de fora, se vê morto, mas você ainda é você... mesmo que não esteja em você, você é mais que você... você vê você quando você não se vê.

 

Era assim que eu estava.

 

Foi então que houve um sonho.

 

Vou repeti-lo aqui embora ele esteja presente neste site.

 

Em Janeiro de 1999 eu já estava separado conjugalmente da mãe de meus filhos havia 10 meses.

 

O mundo político também já havia desabado sobre mim — todo desabamento posterior foi aftershock.

 

Naquela ocasião ouvi o seguinte sonho a meu respeito e que me foi contado por alguém que à época estava passionalmente magoada comigo. Por isso, o sonho ganhou ainda mais significado para mim.

 

Ela contou:

 

Era uma praça européia, com cara de coisa antiga. Eu e duas amigas nossas estávamos lá. Havia uma feira e muitas frutas.

 

De súbito, um alarido. A multidão correu. Uma grade alta impedia a passagem do povo para o pátio.

 

Ao fundo, um paredão de fuzilamento.

 

Então entra você. Cinco de você.

 

Você como eu te conheci aos 18 anos.

 

Você aos 30 anos, alto, imenso, um gigante; só que nesse teu rosto havia um espelho: quem olhava para você enxergava a si mesmo. Você era o rosto de todos e todos viam seus rostos em você.

 

Depois veio você como você hoje — janeiro de 1999.

 

E depois de você com cara de hoje, veio você mais baixo, mais magro e muito mais sólido — apesar de sofrido.

 

Por último veio você-seu-pai. Você velho, manso, sábio e pacificado.

 

Vocês cinco foram levados para serem fuzilados.

 

A praça se revoltava contra o ato.Eles apontaram para atirar.

 

Mas você-de-hoje levantou a mão ao céu, exaltou o nome de Deus em palavras que ninguém entendeu, e trouxe a mão ao peito em solenidade. O que você não viu é que seu braço direito havia se tornado em espada —uma adaga— e que ao voltar-se sobre o seu peito atravessou seu coração.

 

Uma criança ao meu lado chorava o choro de muitas gerações. E perguntava: "Quem vai nos falar de esperança agora?"

 

Foi quando eu vi que você-hoje morreu para que você-antes e vocês-depois pudessem viver.

 

Você vai ficar um velho sábio e pacificado — ela concluiu.

 

Psicológica, histórica e existencialmente esse sonho tem sido profético para mim. E, à época, vindo de quem veio, pareceu-me tomado de total soberania.

 

Seja como for, quero ficar velho e sábio.

 

Eu só não tinha a menor idéia é de que eu viveria outras vidas mesmo!

 

Hoje estou aqui... escrevendo num site... sendo visitado por pessoas de todos os lugares...e olho em volta... e não fossem por meus filhos, algumas pessoas amigas de sempre e cúmplices de peregrinação (novos e antigos), tudo o mais é completamente diferente.

 

Sabe o que é isto?

 

Completamente diferente!

 

Você é você, mas sua vida é outra... A existência se reinventou de um modo impossível de ser criado, concebido, imaginado, programado, desejado ou que, em sendo proposto, você tivesse a coragem de “topar”.

 

Jamais... jamais... jamais eu toparia.

 

O corredor de agonias é grande e infindavelmente longo... Você parece descrer que um dia aquilo vá virar pelo menos um pesadelo noturno — porque viver aquele pesadelo como vida acordada faz você ter vontade de desaparecer para sempre.

 

Eu queria outras vidas dentro do controle e da ordem de poder que aquela minha vida tinha. Nada além disso.

 

E a pedagogia não tem fim...

 

Assim que aconteceu... depois de uns meses, para mim o mais difícil era encontrar os desmemoriados: gente que conta para mim coisas que aconteceram com elas e nem lembram que era eu quem estava lá.

 

Já ouvi gente me contando de portas que elas próprias haviam aberto para suas vidas com todo aquele ar de conquista... esquecidos de que eu que havia sido usado por Deus para abrir aquela porta, investir aquele recurso, bancar aquele sonho, tornar aquela pessoa conhecida, promovê-la por absoluto carinho e chamá-la e indicá-la para tudo o que eu julgasse que faria bem... e, então, você encontra essas pessoas e elas contam tudo aquilo olhando para você como se você fosse um estranho, e, ainda pior: burro e sem memória.

 

No início desta atual nova vida eu ficava cansado... Via como a inveja havia se transformado em proximidade apenas para usufruir, como a cobiça se chegara vestida de genuinidade só para se dar melhor e como muita fraternidade não passava de uma lábia de lobby circunstancial. E pior: como quase todos os que mais aproveitaram não apareceram nem para dar condolências aos enlutados. O defunto? Esse então!... cheirava mal!

 

Depois fui me acostumando.

 

Agora estou aqui... assentado sobre esta outra vida.

 

Reaprendendo tudo... tudo mesmo... desde fazer minha própria agenda a ter que dar jeito em minhas próprias indisciplinas.

 

Sou conhecido, mas nem sempre reconhecido.

 

Olham-me... falam pelas costas... Eu quase ouço. Às vezes, ouço. Vejo como tentam não me ver e percebo como muitos tentam me demonstrar que me reconhecem — o que, em si, já significa algo como: "Puxa, você ficou muito tempo fora, mas sei que você é você!"

Ou seja: já é algo que denuncia a falta de espontaneidade, e que mostra como as pessoas não sabem o que fazer diante de quem voltou da morte.

 

Tem até gente que diz: "Vamos matar esse Lázaro. Se ele ficar vivo, muitos crerão em Jesus... E depois, perderemos o poder e o nosso próprio lugar. Acabará o nosso 'negócio'. Ele vai dizer que ressurreição existe e ele é prova disso. E ele diz que quem faz isto é Jesus, não nós!"

 

Hoje o que sinto é como a ressurreição incomoda...

 

Ressurreição é Graça... e Graça incomoda!

 

Sinto-me ressurgido.

 

Vejo espanto em muitos... e olho para eles com aquele olhar de quem de fato nunca deixou de ver, mesmo quando estava fora do corpo!

 

Hoje eu sei que não é fácil viver muitas vidas.

 

Viajar pelo National Geographic Channel é simples.

 

Foi o que eu fiz a vida inteira.

 

Você vai para qualquer lugar do mundo, mas volta sempre para o mesmo lugar.

 

Mas viver muitas vidas implica em nascer de novo dentro de outro contexto sem perder a memória de quem você é e muito menos sobre qual foi o caminho percorrido para você ter chegado ali.

 

Ou seja: é a negação conceitual do reencarnacionaismo, pois aquele que reencarna tem que aprender, embora não saiba o quê nem o porquê.

 

Nessa nova vida você renasce em outro mundo, mas nunca esquece nenhum dos outros e tem que crescer e aprender cada nova vida com os olhos no presente, as certezas de todos os passados e as confianças acumuladas no Senhor de todos os Amanhãs.