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Opinião

RETROSPECTIVA 2005: O APOCALÍPSE JÁ COMEÇOU!

RETROSPECTIVA 2005: O APOCALÍPSE JÁ COMEÇOU!



No dia 9 de novembro deste ainda ano de 2005, o Presidente Bush deu ao mito Muhammad Ali, a medalha do mérito. E disse que Ali era um orgulho para a América. Então, deu um passo atrás, segurou com as duas mãos os braços de Ali, e, depois disso, ele próprio fez posição de quem vai boxear, abaixando um pouco a cabeça, encolhendo os ombros, e dando uma balançada de cabeça. O que se vê a seguir é extraordinário. Ali olha para aquele patético Bush e, lentamente, fitando fundo nos olhos do ensandecido presidente, começou a rodar bem devagar o seu dedo indicador contra a sua fronte direita, fazendo aquele conhecido sinal que indica que o outro é maluco ou está fazendo ou falando bobagem. Hoje, os mais jovens, vêem uma cena como aquela, e não avaliam o seu significado histórico. Mas os de minha geração olham aquilo de um outro modo. Quem só viu Ali de 25 anos para cá, apenas enxergou a sombra de um dos seres humanos mais intensos que surgiram no horizonte do Século XX. Dono de uma auto-imagem narcisista, que, nele, era verdadeira, pois ele fazia jus a ela, ele dançava e bailava diante de seus oponentes, muitas vezes dominado-lhes a mente, tamanha era sua segurança de si. E, como se não bastasse, ainda se metia em questões de natureza racial, mediante protestos e muitas falas diretas e instigantes; ou ainda em atos de desobediência civil, como quando se negou a ir lutar na guerra do Vietnam; e, por cuja razão, ficou impedido de lutar por três anos. Isto sem falar em seu modo “rapista” de falar, de sua capacidade de criar fatos, de seu carisma extraordinário, e de sua agilidade mental espantosa. O documentário “Quando Éramos Reis”, que mostra os bastidores do que estava acontecendo antes, durante e depois da luta magistral entre ele e George Foreman, na África, apresenta um quadro pequeno, porém bastante ilustrativo acerca da personalidade de Mohamed Ali. Ora, estou dizendo isto apenas para atualizar os mais jovens acerca desse personagem importante na construção de meu imaginário juvenil. Além disso, também desejo que se saiba um pouco de quem ele foi, exatamente para se entender o impacto do gesto de Ali diante de Bush. É que já faz tempo Mohamed Ali vem sofrendo de Mal de Parkinson; o que, a meu ver, cumpre uma horrível profecia contra a obstinação de Ali quanto a ganhar a qualquer preço. Na espera da luta contra Foreman, na África, e que durou meses, Ali quis conhecer um lugar de cultos nativos. E, num desses eventos, uma mulher a quem ele consultou acerca de sua luta contra seu adversário, lhe disse o seguinte: “Vejo que vencerá um homem de mãos trêmulas”. Confesso que sempre que vejo as mãos outrora poderosas e ágeis do grande Mohamed Ali, e as comparo às mãos tremulas do homem de hoje, minha mente se reporta à maligna profecia proferida contra ele naquela ocasião. Equívoco espiritual aparte, Ali foi um dos ícones da minha geração. Mas como dizia, quem o vê confinado à prisão física que o Mal de Parkinson trouxe a ele como reclusão, não imagina a velocidade com a qual aquele homem, hoje quase babante, ainda pensa; e nem tampouco com que força se revolta; e com que intensidade se manifestaria se ainda pudesse se expressar. Todavia, mesmo impedido, andantemente-quase-tetraplégico, lá está ele, olhando nos olho de Bush, e com um gesto, dizendo: “Para mim você é um louco varrido. Um insano!” Essa imagem de Ali chamando Bush de maluco fez parte da seleção dos acontecimentos mais marcantes deste ano de 2005. Aliás, eu só falei de Ali porque queria falar deste ano. Meu Deus! Que loucura foi este ano! Insanidade é a palavra do ano! A gravidade de natureza apocalíptica que devastou a Terra este ano não tem tido comparações desde as Eras das Grandes Catástrofes naturais. Acontecimentos esses que acabaram com seres dominantes no planeta, como os Dinossauros, assim como também, em outra ocasião, “submergiu o mundo antigo”, conforme a linguagem bíblica do Dilúvio Universal. Já houve anos nos quais morreu mais gente na Terra do que neste ano de 2005. Na Segunda Guerra Mundial, para dar um exemplo. Mas, nesses outros anos, tais mortes, por mais catastróficas que tenham sido, ainda eram coisa de natureza tópica, e, na maioria das vezes, algo localizado em certas geografias. Este ano, todavia, foi o ano catastroficamente mais universal de todos os anos desde Eras Diluvianas. Tivemos de tudo. E pior: muito do que de mais grave nos aconteceu é resultado direto do que nós estamos fazendo à natureza, não apenas quando a devastamos, mas também em razão do “sistema” que criamos, operamos e dele dependemos (mundo, no sentido bíblico negativo); o qual, pela inevitável via dos múltiplos entrançamentos do próprio sistema cujo motor é poder e luxuria, nos põe na situação na qual a cada conforto que almejamos, fazemos nossa parte no sepultamento coletivo da civilização humana na Terra. Ora, isto esquecendo-nos dos ódios universais, dos poderes em conflito, das disputas territoriais, das guerras santas e das petrolíferas; dos Bushs, dos Bin Ladens, dos Chaves, dos Chineses, dos Coreanos do Norte, dos incêndios franceses, do neo-nazismo crescente, da espremeção de tumores de corrupção aqui e em toda parte; e, sobretudo, ainda neste âmbito político, sem falar no potencialmente armagedônico conflito entre israelenses e palestinos, trazendo à reboque, hoje, não apenas o Oriente Médio, mas também parceiros que defendem, à distancia, múltiplos interesses na região, tanto de natureza econômica, quanto estratégica ou religiosa. E isto pode acontecer tanto pela via de uma coalizão petrolífera com o mundo árabe, como também pela via dos interesses americanos em manter um aliado estratégico na região. No mar as lulas morrem... Mas no Brasil elas silenciam ante os dutos das sujidades! Em 2005 Deus parece ter começado a destampar as panelas da Terra e a derramar cálices dos céus! Porém, o que hoje cai do céu é apenas conforme a medida do que na Terra se abre de panelas para receber. E nós somos os fazedores do guisado que ferve nas panelas envenenadas pelas nossas luxurias e desbragadas cobiças. Panelas são os artefatos principais daqueles para os quais “seu deus é o ventre”, na linguagem de Paulo. A lista de calamidades é infindável. Os prognósticos só podem ser otimistas se a pessoa tiver se entregado ao exercício do auto-engano ou de alguma mágica psicológica de auto-alienação. Do contrario, somente os mortos não vêem o que já está acontecendo e o que ainda está por vir; e isto se nós apenas continuarmos vivendo como estamos vivendo. Sim, ainda que parassem as guerras que geram mais calamidades ainda, assim mesmo nosso destino está sendo traçado e tricotado pelas nossas perversas ou omissas mãos. Não! Perdoem-me os feridos pelas minhas negativas palavras, mas não posso negar, à luz de minha inteligência, discernimento, memória, estudos e observações, que a humanidade piorou e só piora, pois, quando se acha que se fez algum progresso em alguma direção (exemplo: direitos humanos), em medida infinitamente pior aparecem tumores explodindo no corpo da humanidade. E o quadro apenas se agrava, e os volumes dos problemas vão se tornando impossíveis de serem resolvidos, como quando se tenta acabar com uma famigerada metástase. É um cenário crescentemente invocador de uma “solução” e de um “solucionador”. O desespero ainda crescerá tanto que os homens entregar-se-ão a quem quer traga à Terra qualquer chance de sobrevivência. Na minha maneira de ver tal “poder” jamais terá unanimidade e nem será homogêneo, embora, boa parte da civilização humana venha a dele depender e a ele se entregar de corpo e alma. Ontem vi um documentário sobre os elefantes assassinos da África e da Índia, e países onde há alguma população desses lindos e majestosos animais. Até mesmo os “elefantes sagrados” dos monastérios tibetanos estão começando a surtar e a matar seus mestres e cuidadores. Há lugares nos quais os elefantes invadem de modo sorrateiro e inteligente as casas apenas para matar pessoas. E à luz de tais fatos os especialistas estão de perguntando o que está acontecendo. A conclusão unânime é a de que os elefantes estão com raiva dos homens. E eles têm boa memória e são extremamente inteligentes. É como se os elefantes estivessem dizendo aos humanos: “Deu” — conforme hoje a moçada diz, quando que dizer que “passou da conta”. Nossos antibióticos estão perdendo o poder sobre os zilhões de monstrinhos micro-bióticos do planeta, e, já há quem veja um cenário de proporções apocalípticas sendo construídas na direção de epidemias indizíveis. A Água vai acabar. O mundo inteiro não se entenderá. Os mares nos assustarão cada vez mais. Os suicídios aumentarão. Os homens terão Síndrome do Pânico em escala crescente. A inafetividade dominará. Na América o “politicamente correto”, de um lado (simbolizado pela garotinha algemada porque não se “comportou bem”); e o fundamentalismo evangélico, de outro lado (simbolizado pelo garotinho “julgado em tribunal” porque deu um “selinho” numa coleguinha) — produzirão os seres humanos mais estranhos e gelados da Terra. O ódio islâmico aumentará bastante. E haverá crescente unidade religiosa e ideológica entre eles. Nossas últimas riquezas serão dizimadas. Nossa Floresta Encantada será ferida mortalmente. Estou profetizando? Ouvi uma voz? Tive uma visão? Não! Nenhuma dessas coisas me aconteceu. E isto para minha tristeza, pois preferia dizer que sim. Todavia, minha calamidade é ainda maior, posto que não tenho que fechar os olhos e invocar o místico para ver tudo isso. Não! Eu não tenho que fazer nada. Basta não fechar os olhos. Afinal, o apocalipse passeia pela janela de minha casa; e faz as suas curvas até aqui mesmo, nas vizinhanças de onde eu durmo, onde há centenas de almas sem esperança, e, por isto, anestesiam-se ante a morte lenta que cínica nos ri o riso “apatia faminta”. Estou pra baixo? Ah, nem pensar! Sinto um misto de tristeza e de alegria. Choro pela total evitabilidade dessa tragédia se nós nos convertêssemos à Vida como bem supremo. No entanto, mesmo sabendo que provavelmente tal conversão de consciência não venha a acontecer, ao invés de sucumbir à Síndrome Coletiva de Pânico, levanto cabeça, e digo ao céus: “Maranata! Vem Jesus!” Todavia, existencialmente provando sempre o Evangelho como ‘contradição’, ergo e erguerei a minha voz com tom de esperança; pois, ninguém sabe nada sobre nada; e, de um sonho universal Deus pode levantar a humanidade para enxergar a vida, e, assim, ganhar mais vida. E todo aquele que Nele tem essa esperança jamais será confundido, nem mesmo se caírem pedras dos céus! Pois, para todo aquele que crê haverá novo céu e nova terra, nos quais habitará a justiça. Nele, que virá e enxugará de nossos olhos toda lágrima, conforme prometeu, Caio