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A Mente de Paulo

QUANDO AS ANTAS FOREM OS JUÍZES DOS HOMENS

QUANDO AS ANTAS FOREM OS JUÍZES DOS HOMENS



Não sei se pela minha amazonicidade e espírito florestal, mas desde o início da jornada que sempre me senti afetado pela declaração de Paulo de que a natureza geme, aguardando a redenção, visto que ela está sob escravidão, e que a tal servidão não foi a ela imposta por qualquer transgressão dela própria, mas em razão da vaidade de outrem.

Boa parte de meu sentir ecológico se origina daí. No entanto, não me era possível visualizar o que teria sido o espetáculo histórico que teria permitido a Paulo ter aquele vislumbre.

Revelação e vislumbre. Vislumbre e Revelação.

Isto porque para mim, que sou filho do século XX e invasor do século XXI, é fácil ler aquelas palavras e dar a elas um sentido esmagador, e que me vem da constatação global e cósmica que possuo como filho deste tempo global e cósmico. Para mim é fácil ver que a presença do homem na Terra é a tirania da vaidade sobre a vida e a natureza. Eu posso ver isto. Mas como poderia Paulo ver isto? Sim, pois nos dias dele a natureza, do ponto de vista ecológico, ainda não estava totalmente esmagada pela vaidade do homem. A Terra ainda era dona da maior parte de si mesma, e a natureza ainda se pertencia com significativa liberdade.

Digo isto porque não creio que Paulo psicografasse. Ele não recebia revelações em transe. As revelações nasciam-lhe na consciência. Era como o explodir de uma luz interior e que se firmava como entendimento espiritual. No entanto, para poder dizer que a natureza estava sujeita à vaidade, e fazer isto com um sentir que se exprimisse como cósmico—como é o caso do “sentir” em Romanos 8—, e sem ser por visão ou psicografia, só se o indivíduo tivesse sido exposto a algum cenário esmagador, e que bem propiciasse o sentir, a fim de que bem demonstrasse o conceito.

E de onde pode ter vindo a Paulo essa “visão” da sujeição da natureza à vaidade do homem?

Ora, sabe-se que entre as elegantes crueldades da estética e hedonista sociedade romana, havia o enfrentamento entre gladiadores e feras. Tais espetáculos tinham grande significado social, político e psicológico. E havia um encadeamento entre eles. Tudo ligado por sangue e riso.

Nos arredores de Roma havia viveiros—zoológicos—de animais: elefantes, tigres, leões, veados, rinocerontes, e muitas outras criaturas; e que eram trazidas de vários lugares diferentes do império romano, e que ali ficavam, aos montes, com espaço razoável, comendo homens-sentenciados, a fim de abrirem o apetite para comerem gladiadores na arena.

Na realidade havia homens que buscavam os favores do imperador através da organização permanente desse tipo de entretenimento, posto que até o ato de atiçar o interesse das feras pela carne humana, era feito com um show no qual criminosos eram entregues para serem comidos pelos bichos ensandecidos de fome, e perante um delirante público.

Parte do poder do Imperador vinha da arte de entreter!

Dizem que metade dos dias do ano eram ocupados com esse tipo de diversão e carnificina.

Assim, quando os animais estavam já bem “felino-homicidas”, então, eram postos para lutarem contra os gladiadores armados e treinados.

Milhares de animais belos, lindos, raros, e de terras distantes, eram mortos sob o delírio de arenas lotadas e ao som dos apupos da morte feita diversão.

Era imenso o rodízio de animais nos Viveiros romanos. E, assim, no dias de Paulo, os animais experimentavam uma das mais perversas manifestações do governo da Vaidade sobre a Natureza.

Eu não tenho dúvida de que tais espetáculos muito devem ter impressionado a mente de Paulo. Daí lhe ter sido natural e próprio dizer: “...a natureza geme...suporta angustias...está sob vaidade...por causa daquele que a sujeitou.”

Se levarmos em consideração todo o tempo de datação da vida na Terra, veremos que em bilhões de anos, vindos das formas mais primitivas de existência, até o homem, bilhões de anos se passaram. A nossa existência chega no sexto dia. E se tomássemos “1 hora” como medida referencial do tempo todo da vida na Terra, a existência do homem teria começado nos últimos 8 segundos.

Sim, todos os poucos milhares de anos de nossa existência na Terra equivaleriam a apenas oito segundos, se toda a vida na Terra fosse medida, desde seu começo, tendo-se 1 hora como escala de tempo!

No entanto, nesses 8 segundos de tempo, nós nos mostramos a maior desgraça que já acometeu a Terra.

Se baleias pensassem, diriam: “E Deus criou o diabo!”—referindo-se ao homem.

O mesmo diriam todos os demais animais da Terra, exceto os que se tornaram “domésticos”, perderam a identidade, e se tornaram dependentes de seus senhores.

O pior é que em menos do que 10% de apenas 1 de nossos 8 segundos de existência na Terra, nós conseguimos criar um sistema que é capaz de acabar, por si mesmo, todo equilíbrio natural, e destruir boa parte da vida, especialmente a nossa própria.

Do ponto de vista da Natureza nada aconteceu na Terra mais estúpido do que a criação da “inteligência”: a do homem.

De fato, os humanos são o câncer deste planeta, são a Aids da natureza, são a gripe espanhola do eco-sistema, são a peste bubônica da existência.

Se homens julgarão anjos; saibamos, todavia, que as criaturas, todas elas, incluindo os plânctons, cracas, lesmas, e minhocas, julgarão aos homens.

“E eis que vi um anjo voando pelo meio do céu, o qual tinha um evangelho eterno para pregar; e que dizia: Temei a Deus, e dai-lhe glória; a Ele que criou os céus, a terra, o mar e as fontes das águas”—viu João como séria advertência no Apocalipse de nossas próprias ações.

O homem se acordou do sono da inocência, e iniciou a destruição da Terra!

Quem pode negar que esse bicho, além de inteligente, também não é burro? e que além de esperto, não é também um idiota? e que além de belo, não é também diabólico? e que além de amoroso com os seus, não é também um câncer faminto para tudo o mais? e que além de ser homem, não é também seu pior inimigo? Sim, seu próprio inimigo, e da própria vida?

Sim, quem pode negar que o homem é pecador? Ora, ele é o canibal da vida!

Até os bichos nos convencem de pecado!


Caio


Escrito em outubro de 2004