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A Mente de Paulo

PAULO PENSAVA QUE SUAS CARTAS SERIAM ESCRITURAS?

PAULO PENSAVA QUE SUAS CARTAS SERIAM ESCRITURAS?

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From: PAULO PENSAVA QUE SUAS CARTAS SERIAM ESCRITURAS?
To: contato@caiofabio.com
Sent: Tuesday, December 05, 2006 5:31 AM
Subject: Inspiração?


Graça e Paz, Pr. Caio!


Muitos defendem ardorosamente, em relação à Palavra de Deus, algo que Paulo escreveu para Timóteo, afirmando que toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino... Muitos encaram, por exemplo, que a partir deste texto de Paulo, suas cartas são inquestionáveis em tudo. Tudo o que ele disse, é Deus falando e não se pode questionar. Daí, todos sabemos, surgiram as doutrinas...

Como você entende este texto de Paulo a Timóteo?


Um abração do seu irmão do Caminho,


Marcos Wandré
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Resposta:


Meu querido irmão do Caminho: Graça e Paz!


Em minha opinião estamos falando de duas coisas diferentes. A primeira é: estava Paulo fazendo referencia às suas cartas quando falava em “toda Escritura”? E mais: Vieram de Paulo e por causa disso as doutrinas?

Primeiro é obvio que Paulo cria que havia recebido revelação de Jesus em relação ao que ensinava como Evangelho. Ele deixa isso claro. Segundo: tais conteúdos têm a ver com Jesus e a justiça de Deus em Cristo (com todos os privilégios de consciência espiritual que daí advêm) — e não com formas de governo, indicação de presbíteros, bispos, pastores, mestres e líderes.

Para Paulo o que era revelação era o “mistério outrora oculto e agora revelado”; a saber: “Cristo em nós a esperança da glória”. Já os governos e suas formas eram elementos vinculados ao bom-senso e à ordem, mas não eram Revelação, como se fossem parte do Evangelho. Tinham a ver com a necessidade histórica, com o momento, e com aquilo que o bom senso recomendava — sempre conforme o espírito do Evangelho.

Todavia, afastados os dogmas, as doutrinas da “igreja”, fundamentam-se profundamente naquilo que para Paulo era circunstancial, e não final.

Quanto às “doutrinas” que têm em Paulo sua maior inspiração, saiba: tal coisa pouco tem a ver com Paulo, mas sim com os doutores da igreja; especialmente depois do concílio de Nicéia.

Assim, voltando ao início de tudo, vale perguntar: “Estava Paulo fazendo referencia às suas cartas quando falava em “toda Escritura”?

Não! Paulo não estava falando de “todo escrito”, mas sim de “toda Escritura”. Portanto, escrevendo a Timóteo, Paulo falava da Escritura que ele chamava de Escritura, que eram os livros que nós chamamos na Bíblia de Antigo Testamento.

Entretanto, vem de Pedro a afirmação por inferência quanto à inspiração do que Paulo escrevia, posto que Pedro diz que havia pessoas que pervertiam e corrompiam o que Paulo dizia e escrevia, como de resto faziam “com todas as demais Escrituras” — colando os textos e falas de Paulo entre os conteúdos inspirados como “as demais Escrituras”.

Paulo, entretanto, não olhava para o futuro da História como muitos passaram a fazer depois de alguns anos; e, depois, por quase dois milênios. Para Paulo o tempo estava próximo, às portas. Ele não olhava para o futuro e via mais milhares de anos de História; muito menos via algo a ser chamado de “História da Igreja”; e tampouco pensava que suas cartas estariam num livro, em pé de igualdade com Isaías, Jeremias, todos os profetas, etc (em alguns aspectos em vantagem, pela atualidade de suas compreensões em relação a Jesus).

O que Paulo desejava não era a manutenção de suas cartas. Ele ambicionava era que o Evangelho por ele pregado não fosse deturpado em seu conteúdo acerca de Jesus. Paulo só tinha coração para o que dizia respeito a Jesus. As demais coisas ele fazia a fim de proteger o rebanho daqueles que eram os “falsos ministros” e “falsos apóstolos” desse “evangelho” que ora diminui, ora acrescenta coisas, ora suprime por completo os conteúdos do Evangelho.

Na visão de Paulo a questão era fazer Timóteo alguém que encarnasse a compreensão e o entendimento do Evangelho que Paulo explicava em suas cartas, epístolas e pregações. Ele pensava assim, pois esse era o modo hebreu de pensar. Além disso, o próprio Jesus havia tratado tudo com total “despreocupação” em relação a carregar com Ele um escriba, anotando todas as coisas. O primeiro texto-evangelho sobre Jesus apareceu apenas 15 a 20 anos depois. Portanto, Paulo cria do mesmo modo. E o que ele transformava em carta, era o que ele sabia fazer como “mídia”. Não como Escritura.

É também por tal razão que Paulo trata a Timóteo como Jesus tratara os apóstolos. Por essa razão é que Paulo pede ao discípulo que ande como ele, Paulo, andava; que servisse no espírito do serviço que ele, Paulo, mostrava; e que assim fosse feito, pois, o que nele, Paulo, se podia buscar ver, ouvir e entender, era sempre Evangelho.

Para Paulo a absorção do Evangelho não era uma questão de transferência e absorção de conhecimento, mas sim de assimilação de caráter, entendimento e percepção aplicável à vida. Assim é que ele manda Timóteo olhar para ele e imitá-lo no procedimento, na fé, no amor e no saber; pois, ele, Paulo, fazia isso como quem era uma Escritura viva de Jesus; uma carta viva, escrita pelo Espírito.

Para Paulo a doutrina era o modo de viver, e não um pacote de saberes. Para Paulo doutrina era equivalente a crer na verdade, e não uma elaboração de informações. Sim! Para Paulo doutrina era entendimento do Evangelho aplicado à vida.

O mais, meu amigo, é tolice de quem deseja um álibi para não levar a sério a Palavra do Evangelho. Afinal, como era nos dias de Paulo, também é em nossos dias.


Um beijão carinhoso!



Nele, que é a Palavra Eterna e a Doutrina da Vida,


Caio