Português | English

Opinião

PAN-ACIDENTE E PAN-DESGRAÇA

PAN-ACIDENTE E PAN-DESGRAÇA

 

 

 

   

PAN-ACIDENTE E PAN-DESGRAÇA

 

 

 

Avião é coisa séria. Sim, talvez o aeroplano seja o veículo mais “do meio do caminho” que os homens já tenham inventado. Mais que o navio ou o submarino poderiam representar, pois, o avião pode além de quase todos os limites imediatos dos humanos.

 

O avião levou o homem ao panteão dos deuses feitos pelo próprio homem. Além disso, a dimensão do céu azul é a que mais se associa à transcendência do homem em relação a quase tudo.

 

O avião é o instrumento que torna a profecia de Naum algo mais que poético, político ou interior (apenas), mas também físico e factual, quando diz: “Ainda que faças o teu ninho entre as estrelas, de lá ti derrubarei, diz o Senhor!”.

 

O aeroplano nos colocou na zona dos deuses e dos desgraçados.

 

Através dele cruzamos a Terra e visitamos o espaço. Todavia, é também por ele que nossas tragédias se tornam irreparáveis. Se ele vai; vai e chega. Se vai... e perde força, cai e ninguém “sobra” — exceto por “acidente”. Sim, pois o grande acidente em queda de avião é escapar dela. Quem prova tal possibilidade sabe o que é milagre como “acidente” e acidente como “milagre”.

 

Eu já poderia ter morrido em avião muitas vezes — que eu saiba. É obvio que digo isto para diferenciar dos salvamentos e livramentos que eu não soube.

 

Quase morri quando o Davi nasceu. E foi por muito pouco que não caí pra sempre na Floresta amazônica, somente eu e o George, um amigo americano, em 1977.

 

Depois daquele episódio estive em avião que saiu da pista; que não conseguiu parar...; que rodopiou; que caiu em valas; que ficou preso horas na neve; em isolamento (eu dentro); que tive a porta aberta em pleno vôo (esse era pequeno e eu viajei segurando a porta de Macapá até Belém); que perdeu a turbina no meio do vôo; que pegou fogo na descida; que abriram as portas de emergência e eu pulei pelo escorrega (três vezes); que evacuaram as pessoas entre gritos de desespero do pessoal de bordo e dos passageiros; e também em aviões que posam e arremetem quase não conseguindo; etc.

 

Por isso creio que tenho uma atitude à priori resignada quando acontece um acidente de avião.

 

Entretanto, uma coisa é acidente de avião; e outra bem diferente é praticar a aviação em estado de acidente!

 

Acidente de avião é o preço que os humanos pagam por tentar ir voando... Há um preço, é claro!

 

Aviação como acidente, entretanto, é o preço que você paga por não saber que todo acidente que pode acontecer, está de fato aberto para acontecer — simplesmente pelo descaso dos que deveriam cuidar da vida humana posta sob tal “chance e azar” estatísticos.

 

 

Assim, dois aviões que se chocam no ar é um absurdo. Mas um avião que cai voando não é. Todavia, nada se compara ao avião que cai estando no chão (do chão para o chão); enquanto corre no chão...; pois, o tal chão está liso e impossibilitando o avião de sair do chão. Ora, esse já não é um acidente de aviação, mas sim de natureza “rodo”-viária e burro-viária.

 

No Brasil estamos mal nos céus e no chão. Nos céus não há controle de trafego que nos dê segurança. No chão as pistas são “brasileiras” — lisas, curtas, esburacadas, mal acabadas, e consertadas sem acerto.

 

O acidente de ontem é uma aberração. Ainda mais porque desde o inicio do ano que aquela pista de Congonhas já nos dizia que iria matar. Antes de ontem um avião menor experimentou quase a mesma possibilidade fatal que o de ontem conheceu como catástrofe consumada.

 

Assim, a surpresa é a dor das perdas e do descaso!

 

Todavia, o aeroporto de Congonhas a ninguém enganou. Sim! Avisou que estava para deixar a bandeja cair... Disse sem rodeios que qualquer hora o avião e a rodovia se uniriam num dueto de morte no meio de São Paulo.   

 

Por pouco o avião não esmagou o táxi no qual eu ia...” — disse uma senhora.

 

Avião e táxi colidem no Brasil” seria uma manchete internacional digna de nossa confusão nacional.

 

Assim, sem nem mesmo sentir que posso ou devo falar da dor humana envolvida na perda que esse acidente trouxe, quero apenas expressar minha raiva pela “evitabilidade total” do acontecido; pois, de fato, estamos falando não do céu, mas da pista curta e mal acabada do aeroporto de Congonhas. 

 

Para um país que não libera os Cassinos, o Brasil é, assim mesmo, a maior Las Vegas do mundo quando se trata de voar como “jogo de sorte”.

 

Não se sabe mais se o vôo sairá na hora, nem no dia marcado. Não se sabe se saindo não colidirá com outro em pleno vôo. Não se sabe se saindo posará em condições adequadas. Não se sabe se posando conseguirá parar. E não se sabe se saindo, conseguirá descer; pois, apesar de todas as nossas tecnologias, os aeroportos jamais antes andaram tão “fechados”.

 

O pior é que não há responsáveis. Sim! Não se busca ninguém para culpar, mas, pelo menos, pede-se que haja responsáveis que falem e não se escondam.

 

Enquanto isto fica esse jogo de empurra. O Presidente diz que não é possível... Dá prazo pra acabar. O Ministro diz que não possível, mas que está tudo quase bem... Os presidentes das autarquias ou empresas responsáveis pela operação nos aeroportos nada dizem.

 

E nós... - compramos passagens, e voamos com fé; e nos resignamos ante as mais improváveis situações de acidente — enquanto como viciados em jogo não deixamos de ir à Las Vegas e voar para a chance...

 

E isto em pleno Pan-americano...

 

Pandemônio!

 

Agora se saberá que todo o dinheiro investido na grande distração político-social que o Pan significa para o Rio - Brasil hoje, de nada servirá para melhorar a imagem internacional da cidade e do país; pois, com o acidente de ontem, o Pan passa a inexistir na agenda mundial no que concerne ao Brasil; e o acidente aero-rodoviário passa a ser o “Pan-demônio” brasileiro para o mundo.

 

É bom ver o Pan-americano. Mas não enquanto não se termina nem mesmo as pistas de vôo que levam e trazem os atletas.

 

Num momento como o nosso, um Pan é uma orgia. Sim! Enquanto não houver Pan-aeroportos, com Pan-controles; e enquanto não houver Pan-hospitais, Pan-rodovias, Pan-escolas; e com Pan-pão nas mesas — todo Pan é escárnio e prelúdio para o pandemônio.

 

O que fazer?

 

A ministra disse que a receita é simples: “Relaxa e goza!”

 

Esta é uma receita que ela deve hoje levar aos familiares das centenas de vitimas!

 

Sim! Que Marta vá e diga isso a eles; e que veja se é possível dizer algo além de “Enrija-se e morra!

 

 

Com toda tristeza,

 

 

 

Caio

 

18/07/07

Lago Norte

Brasília