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Opinião

O “SINAL DO CRISTÃO” DE FRANCIS A. SCHAEFFER

O “SINAL DO CRISTÃO” DE FRANCIS A. SCHAEFFER



Meu amigo Oswaldo Paião me pediu que fizesse o Prefácio da edição do livro “O Sinal do Cristão”, de Francis Schaeffer. Paião me pediu este prefácio apenas porque sabe o quanto Schaeffer me influenciou no início de minha formação de pensamento. O livro ainda não saiu da gráfica, mas em breve estará nas livrarias, lançado pela Abba Press. Eis o texto, e, com ele, meu estimulo para que você adquira o livro quando sair. Beijos, Caio __________________________________ O Sinal do Cristão PREFÁCIO Francis A. Schaeffer nasceu na Pensilvânia, nos Estados Unidos, e freqüentou o Faith Theological Seminary, graduando-se em 1938. Pastoreou muitas igrejas na Pensilvânia e no Missouri. Em 1940, portanto durante a II Grande Guerra, viajou pela Europa através do Concílio Mundial de Igrejas, e viu grande necessidade espiritual em toda a região; e, como resultado disso, mudou-se para Lausanne, na Suíça, em 1948, após a guerra. Enquanto vivia por lá Schaeffer tornou-se uma espécie de “missionário para os jovens”. Isto porque ele viu que as igrejas não sabiam se comunicar com a juventude e nem tinham resposta para as questões dos moços daqueles dias. Assim, no ano em que eu nascia em Manaus, 1955, ele abria sua casa para receber jovens, a fim de a eles explicar o Evangelho, aceitando também toda sorte de discussão, não importando a natureza filosófica. Nascia, assim, o Ministério L'Abri! Com seu jeito diferente, vestindo roupas que mais lembravam um homem de tempos antigos, com meias que se prendiam às pernas da calça à altura superior da batata da perna, usando cintos estilosos e largos, e camisas largas que apertavam nos punhos, também cultivando um cabelo longo e um cavanhaque moderado, ele em nada se parecia com o que o "establishment" apresentava como “imagem”, e muito menos com o que ensinavam; e menos ainda com o modo da “igreja oficial” dizer as coisas. Com a chegada dos anos 60, e com o advento do Movimento Hippie, o Ministério L'Abri — o qual se misturava com a casa de Francis —, passou a ser procurado por hordas de jovens do mundo inteiro, e que para lá acorriam em busca de resposta e de espaço para questionar. Schaeffer publicou muitos livros e numerosos artigos, os quais afetaram profundamente os cristãos de sua geração, especialmente os que buscavam respostas para os conflitos agudos que, à época, eram levantados em todo o mundo ocidental. Morreu de câncer, nos Estados Unidos, no dia 15 de maio de 1984, em Rochester, Minnesota. Chorei quando soube de sua morte, que me foi informada por um amigo que como eu o admirava. Francis A. Schaeffer certa vez escreveu: “Nós não apenas cremos na existência da verdade, mas também cremos que nós temos a verdade — a verdade que podemos compartilhar no Século XX. Você pensa que nossos contemporâneos nos levarão a serio se nós não praticarmos a verdade na qual dizemos crer? Numa Era que não acredita que a verdade exista, você crê que nós teremos qualquer credibilidade se não praticarmos a verdade...?” Schaeffer viveu num mundo no qual boa parta dos teólogos protestantes haviam embarcado no chamado “liberalismo teológico”, o qual, sobretudo, questionava a historicidade de Jesus. Assim, Schaeffer entendeu que tal proposta “teologicamente liberal” anulava o escândalo da Encarnação; e, em si mesma, destruiria a fé. Desse modo, sua cruzada era pela afirmação da Revelação como tendo acontecido “num certo dado momento histórico”, de “modo progressivo”, porém “inspirado e confiável”; a qual tinha em Jesus seu ápice e consumação. Além disso, para ele, caso o “Jesus da fé” passasse a ser apenas um “fenômeno”, um conto divino, uma construção da fé, então, o Jesus dos evangelhos passaria a ser apenas uma “viagem”, uma evasão da realidade, a mais potente e irreal de todas as drogas. Por essa mesma razão Schaeffer denunciou a dicotomia e a dissociação entre natureza e graça; e, por conta disso, insistiu numa relação com Deus que tivesse na Revelação Escrita e Proposicional (a Escritura), o fundamento histórico e o testemunho mediante o qual Natureza e Graça se fundiam; ou seja: na Encarnação. Sendo também essa a suprema manifestação da própria noção de História, visto que o eterno se encarnara no tempo e no espaço. Daí, para Schaeffer, o mundo material também ser objeto de restauração e ressurreição, conforme as Escrituras. Enfim, Schaeffer era crente numa sociedade cristã cínica e descrente! Meu encontro com os livros e pensamentos de Schaeffer aconteceu no tempo em que eu lidava o dia inteiro com os jovens e universitários da cidade de Manaus, na década de 70, quando estava sempre pregando no Campus. Ora, em razão disso, e do clima apologético exacerbado daqueles dias, acabava por discutir muito a fé com professores ateus, agnósticos, ou apenas com pessoas que queriam provar que eu estava ali sem saber dar a razão da esperança que havia em mim. Foi nesse tempo que Schaeffer começou a me ajudar muito. Começando com a “Morte da Razão”, passando por todos os seus livros, como “O Deus Que Está Presente”, “Ele Está Presente e Não Está Calado”; degustando seu livro sobre Meio Ambiente; amando o seu “A Verdadeira Espiritualidade”...; e lendo tudo o mais que achei dele em espanhol e inglês, incluindo seus filmes e documentários —, entre 1977 e 1984, consumi tudo o que Schaeffer havia produzido. Em minha formação espiritual e filosófica, três foram as grandes contribuições de Schaeffer para a minha vida. Primeiramente, com ele, comecei a entender o significado histórico, existencial e até cósmico da Queda. Há uma dimensão ecológica na descrição que Schaeffer faz da Queda, e, além disso, há proposta da fé para lidar com o “gemido da criação”. Foi também com ele que me senti estimulado a não temer encarar todas as questões de meu tempo, tendo eu, nesse caso, até mesmo discordado de Schaeffer em algumas ocasiões. Mas foi ele quem instilou em mim, positivamente, a coragem de discordar também dele, como no caso de seu livro “Manifesto Cristão”, texto que julguei por demais “ideológico e americano”; não, porém, sem dele também auferir bons e construtivos resultados para o meu pensamento. E, por último, Schaeffer ajudou-me a fincar pé com toda coragem e alegria na certeza de que a fé em Jesus fazia sentido com “o todo da realidade”. A convicção de Schaeffer acerca do “Deus que fala hoje” alentou minha alma, pois, eu cria que Deus falava, mas achava estranha a forma como a religião apregoava isto. Em Schaeffer, porém, encontrei um modo de poder manifestar a fé que era “crente e pensante”, sem me sentir culpado em razão daqueles para quem crer não implica em pensar. Schaeffer foi, seguramente, entre os cristãos de fé bíblica, o pensador-cristão mais apaixonado do século passado no que concernia a “apologética”: a defesa da fé. Nele amor e raiva coexistiam; paixão e razão brigavam; e, sobretudo, um profundo amor pelos homens gemia em sua alma ante sua fé na literalidade do inferno, ao mesmo tempo em que se sentia seu desejo e paixão quanto a esperar que a Graça de Deus alcançasse todos os homens. “O Sinal do Cristão” é seguramente um dos mais simples e práticos de seus livros, e, com veemência, apela para que os cristãos encarnem o amor de fato, ao invés de se perderem no discurso acerca de um amor desencarnado e sem praticidade. Com certeza posso dizer que Schaeffer foi um dos mais importantes agentes humanos da formação básica de minha visão intelectual da fé, especialmente nos primeiros dez anos de minha caminhada; e, assim, muitos de meus fundamentos foram dele assimilados. Fica aqui, portanto, minha recomendação para que este livro seja lido com todo carinho, atenção e vontade de encarnar aquilo que, para Schaeffer, só poderia ser visto e percebido como fato pelos homens, se fosse vivido historicamente pelos discípulos de Jesus; ou seja: a fé que historicamente atua pelo amor. Nele, Caio Fábio D’Araújo Filho Um devedor de Schaeffer