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Opinião

O CÓDIGO DA VINCI: o romance-evangelho da pós-modernidade

O CÓDIGO DA VINCI: o romance-evangelho da pós-modernidade



Acabo de ver o documentário “O Código da Vinci”, no National Geographic Channel. Eu não li o livro. Não tive o menor interesse. Mas quando Ciro, meu filho, entrou lá em casa, com o livro não mão, e disse: “Boa trama. Bem escrito. Instigante. Rico em detalhes. Cheio de suspense. Legal. Boa diversão. Mas, no mais... Papai, o cara é um idiota. Cheio de equívocos, de lendas transformadas em fatos, de atribuição de importância a qualquer tolice, e completamente ignorante dos contextos do Novo Testamento... Ele baseia tudo em lendas, e nos textos dos gnósticos dos evangelhos apócrifos...; e o mais é criação. Bem feita. Mas muito tolo pra quem tem um mínimo de conhecimento histórico. Estou até a fim de escrever uma lista de grandes erros históricos do livro.” Ora, Ciro além de ser meu filho, é também alguém a quem respeito imensamente a cultura (gostaria de ter 15% da dele), a inteligência, a isenção reflexiva, a objetividade, o bom senso e mente aberta. Portanto, fiquei completamente desinteressado, pois sei quem o Ciro é; e sei que ele é bem justo nas apreciações que faz. E como não tenho tempo a perder, esqueci que o livro estava em todas as prateleiras, e passei por ele sem entender a razão de seu sucesso. Depois vieram os livros que o trucidaram, no mesmo espírito das coisas que o Ciro me havia dito. No entanto, mesmo desmascarado como texto sério, o livro prossegue, e, em quase todas as festas, aniversários, conversas de restaurante, papos de praia, o tal do livro volta, quase sempre trazido por uma alma boa e desejosa de se mostrar atualizada. Em suma: o livro “O Código da Vinci” diz que Jesus e Maria Madalena eram marido e mulher, que tiveram uma filha chamada Sara; e que depois da morte de Jesus, em razão dos perigos locais, Maria, sua filha, e mais duas outras mulheres, acabaram por ser levadas pelos ventos do litoral de Israel até o litoral da França, atravessando o Mediterrâneo numa quase canoa. Lá a filha de Jesus e Madalena casou com o rei, e, daí para frente, fez parte de todas as importantes famílias reais da Europa. Dan Brown, autor do livro, fala no assunto com fervor religioso. Ao invés de tratar a coisa como ficção, ele defende a “veracidade” de sua teoria como se fosse um fundamentalista evangélico. Nervoso, intenso, com cara de fuinha aflita, ele faz ousadas asseverações baseadas em tolices. O mais chocante de tudo é que ele disse que teve seu interesse despertado para a sua “religião”, quando um professor mostrou o quadro da “Última Ceia”, de Leonardo da Vince, e perguntou: “Onde está o Cálice neste quadro?” Ele diz que procuraram, e não viram nenhum cálice. Então o professor disse: “Se o Cálice é o Santo Gral, por que não está na “Última Ceia”?” Disse isto, e concluiu: “É claro que o Gral está na Ultima Ceia.” Então, disse Brown, “ele nos mostrou uma mulher ao lado de Jesus na ceia, e disse: Eis o Gral! É a mulher de Jesus. É Madalena!” Ora, tudo isto foi crido como fato, embora a tal ‘pessoa’, na Ceia, ao lado de Jesus, sempre tenha sido vista como João, o íntimo, o que perguntava o que ninguém tinha coragem, e o que reclinava a cabeça em Seu peito. Assim, desde o início, Dan Brown deixa claro que creu em algo e saiu pra procurar. Ora, ele encontrou material farto para justificar suas decisões preestabelecidas; visto que as lendas européias e os textos — a maioria deles de inspiração gnóstica — que formam o corpo dos evangelhos apócrifos de Tomé, Madalena, Filipe, e outros; são fartos nesse tipo de informação ambígua. Na verdade, se alguém lê tais textos, encontrará aqui e ali coisas interessantes, porém, na maioria das vezes ficará chocado com as infantilidades neles manifestas; de tal modo que somente alguém com muita vontade de criar uma história poderia levá-los a sério. O melhor modo de desfazer qualquer tipo de falsa impressão acerca desse assunto é ler os textos originais em questão, os quais, hoje, estão disponíveis em português, todos juntos, no livro “Apócrifos e Pseudo-epígrafes da Bíblia”, da Editora Cristã Novo Século (nseculo@brasilsite.com.br). Ora, a simples leitura de tais textos já mostra seu caráter ficcional e tolo, muitas vezes; visto que é de vários deles que também nos vêm todas aquelas histórias malucas sobre a infância de Jesus; em cujas narrativas Jesus é muitas vezes um capetinha cheio de superpoderes. Patético! Dan Brown inicia dizendo que as pessoas não viram o que ele viu, simplesmente porque as pessoas vêem o que se lhes diz que devem ver. E, a meu ver, ele, Brown, é um caso patético de alguém que só vê o que lhe foi dito para ver. Fica aqui meu estimulo para que sejam lidos os evangelhos apócrifos. Isto porque, a meu ver, eles são apócrifos simplesmente porque são apócrifos mesmo. E me sinto à vontade para dizer isto, posto que já me utilizei duas vezes de pseudo-epígrafes, como o Livro de Enoque (Nephilim) e o Apocalipse de Moisés (Tábuas de Eva), a fim de escrever dois livros de ficção. No entanto, uma coisa é usar a ficção para a ficção; e outra é tentar fazer dela texto inspirado. Quem lê os evangelhos vê textos simples, lúcidos, conseqüênciais, coerentes e sensatos. Quem lê os apócrifos tem que estar muito esotéricamente interessado em ali achar revelação, a fim de poder levá-los a sério. A diferença é gritante. Somente muita credulidade e disposição de achar o que busca é que pode atribuir a tais textos qualquer significado, se comparados aos quatro evangelhos. Assim, o sucesso “O Código da Vinci” é um fenômeno religioso-esotérico; e também mostra a sua ligação com movimentos de natureza sócio-política. Isto porque esta geração precisa de um Jesus casado, visto que o “Jesus filhinho de Maria” (Católico), dos séculos anteriores, já não preenche as expectativas da pós-modernidade. O Jesus pós-moderno precisa transar, e precisa ter uma mulher que seja a apóstola dos Apóstolos, e que seja a detentora de mistérios gnósticos que somente os iluminados podem acessar. Assim, a necessidade pós-moderna de ter uma mudança no paradigma das Marias — saindo a Virgem, e vindo a Maria Plena, fêmea, casada, e dona de conhecimentos e mistérios, a Madalena — nada mais é que o resultado social de fazer os “arquétipos ocidentais do Cristianismo” servirem ainda a essa ‘nova era da humanidade’; a qual é feminista, de um lado; e profundamente mística e esotérica, de outro lado. De fato “O Código da Vinci” é o “Romance-Evangelho” desta nova geração de religiosos tão crédulos quanto os que eles dizem superar em lucidez. Isto porque pensam que estão fazendo progressos em relação ao obscurantismo da “Igreja”, sem verem que eles estão se entregando, sim, às lendas da Idade Média. Na realidade, o que estamos vendo é a troca de uma religiosidade por outra; e ambas são igualmente obscurantistas e mágicas. Assim, necessidades psicológicas e religiosas do Século XXI estão sendo chamadas de “descobertas históricas”. Esta, entretanto, é muito mais uma questão para uma analise de natureza psico-social-religiosa do que um debate histórico que possa ser chamado de sério ou relevante do ponto de vista do Novo Testamento. É um gibi de meninos desejosos de não perderem de todo o “Super-Herói Ocidental”, Jesus; e, assim, estão criando sua própria versão de um Jesus Pós-Moderno. Esse Jesus é a versão modernosa de um “deus” feito para atender nossa própria necessidade de consumo; e, sobretudo, de adaptação da “imagem de Jesus” a uma figura mais convenientemente palatável para a nossa moderna credulidade, e para o nosso novo-velho obscurantismo. Quem, todavia, prega o Evangelho, nem deve parar para debater tais questões, mas apenas prosseguir anunciando a Boa Nova, e nunca esquecendo que Paulo disse que dentre as coisas que muito corrompem a fé simples e pura, estão as discussões infrutíferas, e fundadas em lendas e fábulas. Caio