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Opinião

ENTREVISTA SOBRE FRANCIS SCHAEFFER – Eclésia

ENTREVISTA SOBRE FRANCIS SCHAEFFER – Eclésia

 

 

 

 

 

ENTREVISTA SOBRE FRANCIS SCHAEFFER – Eclésia

 

 

Repórter: Carlos Fernandes

Entrevistado: Caio Fábio

 

 

1)         Ao longo de seu ministério, sobretudo entre os anos 70 e 80, qual foi o envolvimento que o senhor teve com Francis Schaeffer e seu ensinos?

 

Resposta: Conheci os livros do Schaeffer através da ABUB (Aliança Bíblica Universitária - Brasil). O primeiro livro que li foi em 1975: “A Morte da Razão”. O Livro trata da Queda e de suas conseqüências universais. Me foi muito útil, pois, naqueles dias, o tema nas Universidades era aquele, e muito relacionado a questões filosóficas básicas. Depois li “O Deus que está presente”. A ajude que tive foi de natureza Epistemológica. Ou seja: o livro trata da questão da teoria do conhecimento e da percepção. Bom livro. Então veio o “Ele está presente. E não está calado!” Nesse ponto comecei a discordar do Schaeffer. O livro jogava as pessoas no inferno com muita facilidade, e nada dizia sobre o significado cósmico da Cruz. Ou seja: para mim Schaeffer fazia a Queda ficar muito maior que a Redenção. Comecei então a ler o Schaeffer com senso mais critico. E como ele batia muito no Kirkegaard, fui ler o que o dinamarquês havia dito séculos antes, e percebi que Schaeffer não havia entendido muitas sutilezas; e que a tentativa dele de culpar o Kierkegaard pela “morte da razão”, era tola e sem sentido. De 1980 em diante minha admiração pelo Schaeffer continuou, porém, cada vez de modo mais cauteloso. Vi que o Schaeffer não estava sendo preciso na analise dele, e que ele começava a ficar cada vez mais “americano” no comportamento e na interpretação das coisas. Quando saiu o livro “Manifesto Cristão” nossas diferenças aumentaram muito, pois vi que Schaeffer estava politizando o seu discurso. Portanto, nos primeiros anos Francis Schaeffer me foi muito útil. Depois retive o que era bom e deixei de lado as coisas nas quais ele estava equivocado.

     

 

2)         Àquela época, e mesmo depois, o que acontecia e era dito em L'Abri teve algum tipo de influência sobre o surgimento do evangelicalismo brasileiro?

 

Resposta: Se por “evangelicalismo” você faz referencia ao grupo evangélico que lutava pela “missão integral da igreja”, abraçando questões também sociais na pregação, então eu diria que não. Isso porque foi o Congresso em Lausanne, na suíça, o agente que moveu tais tentativas de mudança aqui. Entretanto, o fato do congresso ter sido na Suíça, com presença forte do Schaeffer no evento, indica que o evento internacional patrocinado por Billy Graham, tive forte influência de Francis Schaeffer; pois, àquela altura, o movimento do L’abri (ministério de Schaeffer) era o salvador dos filhos dos crentes americanos ricos e que estavam em crise. Aqui, no entanto, Schaeffer sempre foi pouco conhecido até mesmo do pessoal do “evangelicalismo”.

    

 

3)         É justo atribuir à obra de Schaeffer o surgimento da chamada direita evangélica americana? De que maneira isso pôde ter ocorrido, se o próprio estilo de vida de Schaeffer era uma espécie de contraponto a tudo isso que está aí?

 

Resposta: Não! A direita americana vive desde há muito; e sempre foi poderosa. O que Schaeffer deu à direita americana foi um emblema novo: era o Schaeffer dos hippies que agora falava contra o aborto, eutanásia e outros temas da direita na América; e que propunha piquetes e barricadas na frente das clinicas. Desse ponto em diante ele deu cara nova ao movimento. O tema político em Schaeffer, entretanto, era de natureza ética e não “política”; embora, nos Estados Unidos, tudo seja a mesma coisa. Sim! Pois as grandes questões políticas na América são quase sempre decididas em termos da posição da pessoa em relação a questões de ética pessoal. Mas não seria justo fazer do Schaeffer o “avivalista” da direita.      

 

4)         Ao longo de todo o século 20, a matriz evangélica americana influenciou tremendamente a Igreja brasileira, inclusive no que se refere a ideologias, formação de lideranças, comportamentos etc. Quais as similaridades que o senhor enxerga entre o atual momento da Igreja Evangélica brasileira e o que tem acontecido no segmento cristão americano?

 

Resposta: Sim! A influencia foi profunda. Em todos os sentidos. Só pra dar um exemplo local, eu diria que o canadense-americano Bispo Roberto MacAlister foi a pessoa que mais influenciou os evangélicos no Brasil quanto aos modos americanos, sendo que aqui, todos aqueles modos ganharam vida e colorações próprios; a saber: de MacAlister vieram Edir Macedo, R.R. Soares, Miguel Ângelo; e muitos outros à reboque destes. Nesse sentido eu diria que o Brasil é bem maior que os Estados Unidos na questão da presença e poder dos evangélicos no dia a dia das pessoas, e no poder de massificação e indução de massas. Nos Estados Unidos, no entanto, se tem uma presença evangélica oficial e brasileiramente católica na influencia cultural e religiosa. O que existe nos Estados Unidos no Brasil ainda não se tem e talvez jamais se venha a ter (Assim espero! Rsrsrs). De fato o governo americano está para a igreja americana assim como o Estado brasileiro está para o cidadão deste país. Lá tudo é muito mais clean do que aqui. No Brasil, entretanto, nós aperfeiçoamos a doença e a perversão deles. Não há na Terra igreja evangélica mais influente religiosamente junto ao povo do que a igreja evangélica brasileira é no Brasil. A loucura aqui é também infinitamente maior; e Francis Schaeffer nada tem a ver com isto, nem nos Estados Unidos e tão pouco no Brasil.