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Opinião

ENTREVISTA: Acerca da conversão de presos como

ENTREVISTA: Acerca da conversão de presos como

1) Como teve início a evangelização do Carlos Gregório, Escadinha e dos 48 de Bangu I?

Resposta: Em 1992, quando era presidente da Associação Evangélica Brasileira, o pastor Washington Souza, também membro da entidade, me sugeriu que fossemos ao então Secretário de Segurança, de Justiça e Vice-Governador do Rio, Nilo Batista, para pedirmos a ele permissão para entrarmos em Bangu I, a fim de fazermos um trabalho de ajuda e capelania entre os apenados daquela instituição prisional — coisa que jamais havia acontecido.

Fomos até ele, e não somente obtivemos tal permissão, mas também vimos o próprio Nilo ficar interessado não apenas no que pedimos, mas também na Palavra que a ele preguei na ocasião, em meio a uma conversa na qual ele descobriu que eu conhecia a esposa dele desde a adolescência. Assim, enquanto íamos a Bangu I, também vi o Nilo iniciar um processo de fé na Palavra. Depois vim a batizá-lo.

De início não fui a Bangu I — mas somente o pastor Washington. Depois de dois meses ele me disse que os presos gostariam de me ver. Então fui. E já encontrei o Gordo crendo, pois, sua sogra dera a ele uma Bíblia, a qual ele vinha lendo. Além disso, ele me contou uma experiência que tivera com Deus, antes da leitura da Bíblia, numa solitária, alguns anos antes.

Daí em diante foi uma sucessão de portas abertas dentro da cadeia, o que de início gerou o batismo de 10 a 12 apenados — dentre os quais “O Gordo” (Gregório), Miltinho, Jóquei, Isaías do Borel (com Aids), e alguns outros. Quase todos do chamado “Comando Vermelho”.

2) Eles se converteram realmente ou só "se esconderam" atrás do Evangelho para ter uma fachada?

Resposta: Eu passei a ir à Bangu I duas vezes por semana desde então. Quando não podia outra pessoa ia em meu lugar. Mas perseverei. Ora, uma das minhas preocupações era zelar pela genuinidade da confissão que eles haviam feito perante Deus e o país inteiro. Na realidade paguei grande preço por crer que eles poderiam encontrar a Jesus e viver o Evangelho, mesmo em cadeias. Na realidade não vi ninguém se “escondendo” atrás do Evangelho. O que muito vi foi carência transformada em “conversão”. O que não era animador.

De fato, a maioria demonstrava querer mais a minha ajuda do que o Evangelho. Devagar fui entrando em todas as galerias, e passei a falar também com o pessoal do “Terceiro Comando”. Os ‘grandes ganhos’ naquele período não foram por mim percebidos na forma de “conversão”, mas na diminuição das inimizades e mortes entre os grupos antagônicos dentro e fora de todo o sistema prisional do Rio. Além disso, como foram ficando meus amigos, pude ajudar muitas famílias do lado de fora. Através da Vinde dava sustento para quem passava fome, e ajudava os filhos a estudarem. Houve casos de presos que tinham problemas de gente drogada e viciada em cocaína em casa, e, em tais casos, buscava em clinicas internação para esses familiares.

Quando a Fábrica de Esperança surgiu, coloquei mais filhos de apenados estudando lá, sob outro nome, pois, por exemplo, quando as escolas ouviam o sobrenome “Encina” (do “Escadinha”) — logo rejeitavam as crianças; ou então era porque os colegas agiam com tanto preconceito, que as crianças não suportavam. Do lado de fora, na cidade, quando havia guerra, frequentemente eles mesmos pediam para que fosse “pacificar”. Também, do lado de dentro, sempre que havia conflitos eles pediam minha intervenção. Cuidei também para que houvesse advocacia gratuita para os que já tinham prazos vencidos, e tinham direito a progressão de regime, pudessem receber o benefício da lei. Afinal, havia pessoa que já estavam presas a mais de 25 anos, e, por serem famosas no mundo do crime, e por terem sido ‘mitificadas’ pela mídia, não obtinham o que lhes era direito por essa razão. E muitas outras coisas que agora não vale comentar.

Entretanto, de todos, o que mais vi desejar uma nova vida foi Gregório, o Gordo — a quem, quando consegui, tirei não só de Bangu I, mas da cadeia, levando-o para trabalhar na Vinde comigo por vários anos. Apesar de ser difícil, dado o envolvimento passado, sei que Gregório fez tudo o que conseguiu para ficar longe da antiga forma de vida. Houve pequenas quedas, mas sempre conversei com ele — e ele, prontamente, caía em si, e voltava ao passo. Sei, todavia, que tal trabalho é dos mais ingratos; pois, quem o faz, precisa fazê-lo em amor profundo, sem visar sinais externos estimulantes. Desse modo, eu diria que os maiores beneficiados na forma de “conversão”, não foram os de dentro, mas seus filhos e famílias do lado de fora. Dentro da cadeia vi mais sinais de humanização do que de “conversão”. E isto falando com as categorias que se vinculam ao espírito da pergunta que me foi feita.

3) Quando Gregório foi assassinado, comentou-se que ele teria voltado a traficar porque não tinha um trabalho (além de taxista) que pudesse manter o padrão de vida da família. PERGUNTA: O que fazer para que o convertido, ao sair da cadeia, não volte para o mundo do crime? Para vocês pastores é muito difícil dar prosseguimento ao acompanhamento espiritual a essas "ovelhas"?

Resposta: O Gregório não ficou abandonado nem dentro e nem fora da cadeia enquanto pude. Trabalhou seis anos na Vinde, durante cujo tempo tive que chama-lo às falas duas vezes; e não por drogas, mas em razão dele aparecer por lá com carro importado — e eu sabia que a grande fixação dele era carro; posto que havia sido o mais ‘mítico’ ladrão de carros da história do Brasil até então. Depois de 98 — quando chegou o meu dilúvio — ele foi trabalhar numa fundação evangélica; na qual permaneceu por alguns anos. Poucos meses antes de morrer ele esteve comigo. A última vez foi na inauguração do Café com Graça, em Copacabana. E lá estava ele, com a cara amiga e risonha de sempre. Sim, o que posso dizer é que ele morreu emboscado em razão de acertos antigos; e por ele ter ‘facilitado’ meses antes, dando ocasião a que velhas rixas e ressentimentos se acendessem contra ele no seu antigo mundo. Sei, entretanto, onde ele está. E sei que ao chegar virá me saudar. Não mais com aquele meigo “meu reverendo”. Mas, agora, em glória, com o olhar dos glorificados. Gregório era como o ladrão que ouviu Jesus dizer “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. E, acerca de sua alma, a minha só tem bom testemunho a dar. Quanto ao “vocês pastores” de sua pergunta, sinceramente, não sei responder. A “categoria” me criticou até mesmo por ter chegado “perto demais” deles. Alguns me perguntavam: “Mas o que você ganha com isto?” Portanto, pergunte a eles.

Caio Fábio