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Opinião

ENTREVISTA: A MORTE DO PAPA E O FUTURO DA CRISTANDADE

ENTREVISTA: A MORTE DO PAPA E O FUTURO DA CRISTANDADE



Concedida a um portal cristão. 1- A morte do Papa abalou a Igreja Católica e seus fiéis no mundo inteiro. O que pensa sobre essa comoção popular e os pedidos de canonização do Papa? Resposta: Acho que a morte do Papa deixa saudades porque os cristãos da Cristandade Ocidental sabem que ela simboliza a morte de uma era. É obvio que além disso, nunca tinha havido um Papa que tivesse tido os meios de se locomover, de se comunicar, e com a habilidade para faze-lo, como João Paulo II teve. Ver o compacto dos 26 anos de seu Pontificado passado e repetido nos mínimos detalhes, dia após dias, e com manifestações do mundo inteiro, fez até o Arnaldo Jabor confessar que chorou. Eu acho que é como se a alma ocidental chorasse a morte de um pai, um representante de uma era que já não se faz mais crer pelas demandas dos tempos. Além disso, o rito carrega consigo o poder de evocar lembranças infantis. O mundo ouviu musica da alma durante mais de uma semana, e foi emulado pela mais mágica memória ocidental: os ritos do catolicismo. É carinho pelo que está moribundo. Não creio que o cristianismo vá jamais acabar como religião, mas ele tende a ir perdendo em espaço real, minguando em significado espiritual, até a morte... como vem acontecendo. Isto porque quando se trata de vida interior, espiritualidade, consciência universal, sentimento de igualdade com todos os humanos, que é a única forma de sentir espiritual que os humanos mais sensíveis admitem como caminho de verdadeira fé— o cristianismo se mostra na idade da pedra do sentir, e, sua insistência em não discernir os tempos à luz da Palavra, e, a Palavra à luz dos tempos, o torna irrelevante. Para além disso, se “ele” (o cristianismo) não entender que Deus não é uma crença a ser propagada, mas uma realidade a ser experimentada, e que faz melhor o ser— então toda vida verdadeira acabará acontecendo fora dessa religião-estado; ou de seus filhotes anões: os protestantes históricos e os evangélicos amorfos. Nesse caso, surgirão milhões de cristão que se organizarão de uma outra forma, mediante redes e malhas de relacionamentos, e, também, fazendo surgir muitas caminhadas de fé em Jesus. É o que eu creio que vai acontecer. 2- A substituição do Papa levantou novamente a discussão sobre a pedofilia e o homossexualismo dentro da igreja e fora dela, já que alguns indicados para o cargo abafaram casos em suas regiões administrativas. Acredita que a repressão sexual e o incentivo ao celibato pode contribuir para esses tipos de comportamentos sexuais? Resposta: Creio que a repressão sexual de modo geral cria essas pulsões, amplificando-as muito mais do que seria normal. A proibição do casamento para o sacerdote, apenas expressa de modo clerical aquilo que a moral católica faz àquele que a ela se devota: gera toda sorte de compulsões, em razão de que um bom católico, conforme os manuais da igreja, é um ser sexualmente reprimido, culpado, e, por conseguinte, ou atrofiado sexualmente, ou tendente à tara. A Igreja Católica está na Idade da Pedra da Consciência Psicológica e Existencial. Decidiu ignorar todos os achados das ciências da alma no que tange ao fato de que certas coisas da psique humana funcionam como um ‘aparelho’. Se são criadas aquelas circunstancias, grande é a probabilidade de se ter aquele resultado. É irônico, porém psicologicamente coerente, que a Instituição Ocidental mais conservadora sexualmente falando, e mais agressiva em relação à homossexualidade, seja a que mais expresse a caricatura de seu Inconsciente Coletivo pela via do homossexualismo e da pedofilia de tantos de seus próprios líderes. 3- A eleição de um Papa brasileiro pode influenciar o crescimento do movimento evangélico no país? Resposta: “Os Evangélicos sempre os teremos entre nós”, juntamente com os católicos. Pois com a Universal em campo, mesmo que o novo Papa seja brasileiro, em nada os evangélicos se abaterão, visto que o que hoje é genuinamente evangélico é tudo aquilo que se parece com a Fé de Macedo; que é a corrente prevalente no espírito evangélico, embora com matizes aparentemente diferentes; em essência, porém, são a mesma coisa. Portanto, a religião evangélica continuará a crescer entre as almas que gostem de formas primitivas de espiritualidade; aquela espiritualidade das barganhas e das trocas; e que pensa em Deus como sendo apenas aquele poderoso que pode fazer a gente se dá bem nos negócios e no amor. 4- O que pensa sobre a eutanásia e principalmente sobre a retirada dos tubos que alimentavam aquela moça americana? Resposta: Acho tudo uma grande hipocrisia. A mulher estava morta. Essa caridade é desumana. Gera uma fabrica de zumbis. Mantém seres em coma para sempre. Eu duvido que se o Papa tivesse ficado num estado crônico, porém, ainda assim, capaz de ser mantido no tubo, por anos, a igreja o teria feito ficar vivo na máquina. Sim, eu duvido. Os interesses do Pontificado e da instituição fariam, humana e dignamente, o Papa partir. Mas quando se trata de alguém em algum lugar..., então, a instituição prefere defender suas “leis de vida”. E são leis de vida apenas orgânica, não psicológica. De fato, são leis do sêmen... as leis da fixação da moral católica. Eu acho que um ser humano tem direito a desejar não ficar mais neste mundo, e, também, de pedir que não tentem nem abreviar a sua partida, nem tampouco mantê-lo em coma, com vida artificial, se todas as chances ‘de voltar’ acabaram. Acho que quem está morrendo e desejando morrer, deve ser deixado em paz. Mas também acho que é covardia do individuo que deseja praticar a eutanásia pedir que haja um ‘profissional’ (um verdugo de luxo) que execute tal procedimento. Eu acredito em tiros de misericórdia. Ora, nesse caso, também acredito que pessoas que estão morrendo possam ser ajudadas a morrer sem dor. De fato eu creio que ninguém nada tem a ver com isso. Muito menos a igreja. A verdadeira Igreja está neste mundo para pregar a verdadeira vida, não para ser a reguladora dos procedimentos da morte. E vida não é somente sêmen. Vida também é alma. Mas é porque para a “igreja” vida é somente sêmen, que ela está perdendo a chance de se comunicar com a vida que é alma, visto que ela própria, a “igreja”, anda sem sua própria alma... enquanto regula semens. Caio