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Reflexões

“UBI TU CAIUS, IBI EGO CAIA”—do Latin

“UBI TU CAIUS, IBI EGO CAIA”—do Latin



Foto: festa fantasia na casa de meu filho Davi. Era aniversário da cunhada dele, a Valéria. Adriana está de "toureira" e eu estou de "indio vestido para a guerra". __________________________________________________________________________________ Tradução do Latin: Onde fores chamado Caio, aí eu serei chamada Caia. Ou seja: onde fores Alegria (Caio), aí serei a tua mulher (Caia: mulher de...) Hoje, dia 4 de maio, posto outra vez este texto em alegria pela minha Caia, Adriana, que amanhã faz aniversário! _____________________________________________________________________________________ Hoje pela manhã minha mulher me deu esse texto do latim, e que foi encontrado casualmente por ela numa revista. Inspirado nele decidi escrever para ela o Meu Cântico dos Cânticos, com as liberdades amazônicas, e com as ternuras dos igarapés! Para Adriana: Beija-me com os beijos de tua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Suave é o aroma dos teus ungüentos, como perfume derramado é o teu nome. Convida-me para entrarmos no nosso quarto. Vem! Apressemo-nos! Vê, meu marido, eu estou morena, porém formosa. Não olhes para o eu estar morena, porque o sol da vida me queimou. Os filhos de minha mãe se indignaram contra mim por causa de teu amor; me puseram por guarda de vinhas; a vinha, porém, que me pertence, não a guardei. Dize-me, ó amado de minha alma: onde apascentas o teu rebanho, onde o fazes repousar pelo meio-dia, para que não ande eu vagando junto ao rebanho dos teus companheiros à tua procura? Vê, minha mulher: Se tu não o sabes, ó mais formosa entre as mulheres, sai-te pelas pisadas dos rebanhos e apascenta os teus cabritos junto às tendas dos pastores, pois aí me acharás. Tu és mais bela em teu porte de mulher viçosa do que as éguas livres das Campinas! Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites; o teu pescoço, com os colares, são pura sedução. Enfeites de ouro te farei, com incrustações de prata, e neles mandarei inscrever com fogo: “Ubi tu Caius, ibi ego Caia”. Ó, meu marido, enquanto como rei estás assentado à tua mesa, o meu nardo exala o seu perfume até a tua alma; por isso me desejas. Ó, meu amado, és para mim um saquitel de mirra, posto entre os meus seios! Te sinto onde vou, o dia todo, e me embriago com os teus odores! Farejo o ar como égua no cio! Porque tu és para mim, meu marido, como um campo que exala todos os bons cheiros de sedução! Eis que és formosa, ó querida minha, eis que és formosa; os teus olhos são vivos e limpos como os das pombas imaculadas. Como és formoso, amado meu, como és amável! O nosso leito é de viçosas folhas, as traves da nossa casa são de cedro, e os seus caibros, de cipreste. Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales! Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha querida entre as mulheres. Quem as comparará? Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os homens; desejo muito a sua sombra e debaixo dela me assento, e o seu fruto é doce ao meu paladar. Leva-me à sala das danças, e põe o teu amor sobre mim como uma bandeira, para que todos o vejam! Sustenta-me com passas, conforta-me com maçãs, pois desfaleço de amor por ti. Que a tua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e que a direita me abrace! Conjuro-vos, ó todas as mulheres! Sim, pelas gazelas e cervas do campo, peço-vos que não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira. Pois forte é o seu poder e esmagadora a sua força. Quem o suportará? Ouço a voz do meu amado; ei-lo aí galgando os montes, pulando sobre os outeiros, correndo em minha direção. Como anseio pelo seu abraço! O meu amado me espreita mesmo quando não está presente. Eis que está detrás da nossa parede, olhando pelas janelas, espreitando pelas grades... e estou toda excitada! O meu amado fala e me diz: Levanta-te, querida minha, formosa minha, e vem. Porque eis que passou o inverno, cessou a chuva e se foi; aparecem as flores na terra, chegou o tempo de cantarem as aves, e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira começou a dar seus figos, e as vides em flor exalam o seu aroma; levanta-te, querida minha, formosa minha, e vem. Pomba minha, que andas pelas fendas dos penhascos, no esconderijo das rochas escarpadas, mostra-me o rosto, faze-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e o teu rosto, amável. Apanharei raposas, as raposinhas, que devastam os nossos vinhedos, porque as nossas vinhas estão em flor, e não serão tocadas por ninguém! O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios! Antes que refresque o dia e fujam as sombras, volta, amado meu; corre para mim como os animais no cio, pois em ti está todo o meu desejo. f De noite, no meu leito, busquei o amado de minha alma, busquei-o e não o achei. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade, pelas ruas e pelas praças; buscarei o amado da minha alma. Busquei-o e não o achei. Encontraram-me os guardas, que rondavam pela cidade. Então, lhes perguntei: vistes o amado da minha alma? Mal os deixei, encontrei logo o amado da minha alma; agarrei-me a ele e não o deixei ir embora, até que o fiz entrar na Casa de Minha Mãe e na recâmara daquela que me concebeu; ali dei a ele o meu amor! Conjuro-vos, ó todas as mulheres! Sim, pelas gazelas e cervas do campo, peço-vos que não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira. Pois forte é o seu poder e esmagadora a sua força. Quem o suportará? Como és formosa, querida minha, como és formosa! Os teus olhos são como os das pombas e brilham até na noite escura, não há véu que os possa encobrir. Os teus cabelos são cheirosos como a primavera encantada. Os teus dentes são perfeitos e limpos. Como é doce a fragrância de tua boca, é como um poço de todas as boas essências. Os teus lábios são como um fio de desenho que não se pode melhorar; o teu rosto é como a oferta das melhores frutas, por isso tanto gosto de te morder e te provar com a minha língua. O teu pescoço é altivo e nele toda jóia fica bem. Os teus dois seios são como duas crias gêmeas de uma gazela, e que passeiam entre os lírios. Assim digo eu, o teu marido: Antes que refresque o dia, e fujam as sombras, irei ao monte da mirra e ao outeiro do incenso e nele me deleitarei. Tu és toda formosa, querida minha, e em ti não há defeito! Vem comigo, mulher minha, vem comigo; olha para os rios de minha terra, ouve o canto noturno das Guaribas, e deixa-me acordar-te com o canto do Uirapuru. Arrebataste-me o coração, minha irmã, mulher minha; arrebataste-me o coração com um só dos teus olhares, com uma só pérola do teu colar de amor me compraste a alma para sempre. Que belo é o teu amor, ó minha irmã, mulher minha! Quanto melhor é o teu amor do que o vinho, e o aroma dos teus perfumes é melhor do que todas as preciosidades do mais rico mercado de cheios! Os teus lábios, minha mulher, destilam mel. Mel e leite se acham debaixo da tua língua, e a fragrância dos teus vestidos é como a do Ópio. Jardim fechado és tu, minha irmã, mulher minha, manancial recluso, fonte selada... só minha, és tu! De ti exalam todos os cheiros que me encantam a alma. Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes: a hena e o nardo; o nardo e o açafrão, o cálamo e o cinamomo, com toda a sorte de árvores de incenso, a mirra e o aloés, com todas as principais especiarias. És fonte dos jardins, poço das águas vivas, torrentes que correm mais fortes que o Amazonas! Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul; assopra no meu jardim, para que se derramem os seus aromas. Ah! Virei eu, que sou o teu amado; sim virei ao meu Jardim, e nele comerei todos os seus frutos excelentes! Sim, já entrei no meu jardim... Colhi a minha mirra com a especiaria, comi o meu favo com o mel, bebi o meu vinho com o leite! Estou farto e feliz! Eu dormia, mas o meu coração vigiava; eis a voz do meu amado, que está batendo: Abre-me, minha mulher, pomba minha, imaculada minha, porque a minha cabeça está cheia de orvalho, os meus cabelos, das gotas da noite. Deixa-me entrar no meu Jardim! Já despi a minha túnica, hei de vesti-la outra vez? Já lavei os pés, tornarei a sujá-los? O meu amado meteu a mão por uma fresta, e o meu coração se comoveu por amor dele. Levantei-me para abrir ao meu amado; as minhas mãos destilavam mirra, e os meus dedos mirra preciosa sobre a maçaneta do ferrolho. Abri ao meu amado, mas já ele se retirara e tinha ido embora; a minha alma se derreteu quando, antes, ele me falou; busquei-o e não o achei; chamei-o, e não me respondeu. Conjuro-vos, ó todas as mulheres! Sim, pelas gazelas e cervas do campo, peço-vos que não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira. Pois forte é o seu poder e esmagadora a sua força. Quem o suportará? Sim, peço-vos, ó mulheres, que se encontrardes o meu marido, que lhe digais que desfaleço de amor! E vós me perguntais: Que é o teu amado mais do que outro amado? E por que ele te vê como a mais formosa entre as mulheres? Que é o teu amado mais do que outro amado, que tanto nos conjuras para que o achemos para ti? O meu amado é moreno e forte, o mais distinguido entre dez mil. A sua cabeça me vale mais que o ouro mais apurado, os seus cabelos são para mim como cachos de palmeira, são castanhos como os igarapés de sua terra natal. Os seus olhos são águas límpidas e neles eu vejo a minha beleza. A sua barba é cheirosa como um canteiro de bálsamo, como colinas de ervas aromáticas; os seus lábios são lírios que gotejam mirra preciosa; as suas mãos são firmes como cilindros de ouro, embutidos de jacintos; o seu ventre é para mim como o mais agradável leito. As suas pernas, colunas de mármore, assentadas em bases de ouro puro; o seu aspecto, como é como o do Pão de Açúcar, e esbelto como as altas madeiras das florestas do norte. O seu falar é muitíssimo doce; sim, ele é totalmente desejável. Tal é o meu amado, tal, o meu esposo, ó todas as mulheres! Então, dizei-nos: Para onde foi o teu amado, ó mais formosa entre as mulheres? Que rumo tomou o teu amado? E o buscaremos contigo. O meu amado procura por mim, tenta achar o seu jardim, busca-me nos canteiros de bálsamo, intenta colher os lírios de meu amor! Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele pastoreia entre os lírios. Formosa és, querida minha, mulher minha. Desvia de mim os olhos, porque eles me perturbam. Os teus cabelos descem ondeantes pelas curvas de tuas costas. Eu estou enfeitiçado pelo teu amor! Por isso fugi de ti, pois, temi não mais ter poder sobre a minha própria vida! Sessenta são as rainhas; oitenta, as amantes; e as virgens, sem número... Mas uma só é a minha gazela de amores, a minha pomba, a minha imaculada... Vêem-te as mulheres e te chamam ditosa; vêem-te as rainhas e as concubinas, e te louvam e te invejam, pois, meu amor é todo teu. Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, pura como o sol, formidável como um exército com bandeiras? Esta é a única, a minha amada, o meu Jardim selado! Que formosos são os teus passos dados de sandálias, ó filha de príncipes! Os meneios dos teus quadris são como a sedução das ondas de um lago de desejos. A tua genitália é taça a que não falta bebida; o teu ventre é como um monte de desejáveis doces, cercado de todos os bons vinhos. Os teus dois seios... Ah! são como dois travesseiros de prazer... e deles exala o cheiro do saputi e do mel. O teu pescoço é um convite ao deslize... Os teus olhos são com piscinas que convidam a que se dispa e se afogue em ti. O teu nariz anuncia tua nobreza e a tua inteligência; e também, grita acerca do refinamento de teus desejos. A tua cabeça é altiva; a tua cabeleira, como um sonho de verão; um rei está preso nas tuas tranças... para sempre! Quão formosa e quão aprazível és, ó amor em delícias! Esse teu porte é semelhante à palmeira, e os teus seios, a seus cachos. Dizia eu: subirei à palmeira, pegarei em seus ramos. Sejam os teus seios como os cachos da vide, e o aroma da tua respiração, como o das maçãs. Os teus beijos são como o bom vinho... Vinho que se escoa suavemente para o meu amado, deslizando entre seus lábios e dentes. Somente para ti, ó meu amado! Eu sou do meu amado, e ele tem saudades de mim! Vem, ó meu amado, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos cedo de manhã para ir às vinhas; vejamos se florescem as vides, se se abre a flor, se já brotam as romeiras; dar-te-ei ali o meu amor com toda a minha paixão. As mandrágoras mágicas exalam o seu perfume, e às nossas portas há toda sorte de excelentes frutos, novos e velhos; eu tos reservei, ó meu amado. Conjuro-vos, ó todas as mulheres! Sim, pelas gazelas e cervas do campo, peço-vos que não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira. Pois forte é o seu poder e esmagadora a sua força. Quem o suportará? Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura, o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas. As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios, afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens da sua casa pelo amor, seria de todo desprezado. . Eu sou como uma muralha, e os meus seios, como as duas torres de uma fortaleza; sendo eu assim, fui tida por digna da confiança do meu amado. “UBI TU CAIUS, IBI EGO CAIA” De Caio para Adriana 21/01/05