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TEÓLOGO PROPÕE RESISTÊNCIA À GLOBALIZAÇÃO

TEÓLOGO PROPÕE RESISTÊNCIA À GLOBALIZAÇÃO

Teólogo propõe resistência como resposta à globalização
René Padilla

Frente ao sentimento de impotência e de que não existem alternativas ao predomínio da globalização e suas conseqüências negativas, os cristãos não têm outra opção do que resistir à sociedade de consumo, um sistema construído sobre falsas premissas e valores distorcidos. A conclusão é do teólogo equatoriano René Padilla em conferência apresentada na II Consulta Mundial sobre "Impacto da globalização nos pobres", que se realiza de 22 a 26 de setembro na cidade mexicana de Querétaro, reunindo 200 participantes de 50 países. O encontro foi convocado pela Rede Miquéias, presidida por Padilla, e que agrupa 50 membros individuais e 250 organizações e igrejas evangélicas com o objetivo de promover a missão integral e incidir no âmbito global e regional sobre o tema da pobreza. Na conferência, Padilla refutou a idéia de que a globalização capitalista seja uma nova etapa da modernização. O desenvolvimento, defendeu, inclui temas de valores e atitudes, e não diz respeito apenas aos interesses materiais envoltos na expansão capitalista. O fato, disse, é que a cultura-ideologia do consumismo tem suas raízes nos tempos modernos. "Os membros da classe transnacional, que possuem e controlam as maiores corporações, são descendentes diretos do Iluminismo, e as corporações transnacionais são a última e mais sofisticada materialização de pensamentos que foram formulados na Europa antes do século XVIII". Ele também rejeitou a tese de que "a integração das economias locais no sistema global capitalista é a porta que conduz ao progresso econômico". O sistema econômico global "está quase totalmente orientado à acumulação da riqueza, e não à satisfação das necessidades humanas básicas", disse. "Nos países da América Latina aprendemos, dolorosamente, que, gostemos ou não, somos parte de um sistema econômico mundial sobre o qual nossos Estados e governos têm muito pouco ou nenhum controle", indicou. Assim, falar de globalização nos dias de hoje é "basicamente falar de uma realidade econômica transnacional que condiciona decisivamente a vida humana em todo o mundo, tanto em nível individual como comunitário", afirmou o conferencista. O efeito mais dramático da economia mundial de mercado "tem sido a emergência de uma nova divisão da sociedade que ressalta uma nova 'polarização de classe', entre ricos e pobres, que se tornou mais visível no Terceiro Mundo. Na parte de cima da escada social estão 'os eleitos', que se beneficiam do sistema, os proprietários de ações financeiras, os consumidores por excelência", apontou o teólogo. Para os cristãos, "o problema que o capitalismo global apresenta não é meramente, nem sequer fundamentalmente, econômico ou técnico, mas moral e espiritual. Como disse Cynthia D. Moe-Lobeda, o chamado de 'ama o teu próximo como a ti mesmo' inclui um chamado a subverter as estruturas de exploração e formar alternativas de fé". Padilla lembrou que numa reunião da Convenção de Lausanne, há anos, disse que "por detrás do materialismo que caracteriza a sociedade de consumo encontram-se os poderes de destruição", as forças espirituais "contra as quais lutamos", e à quais Paulo e o Novo Testamento fazem referência. "A sociedade de consumo é a situação social, política e econômica na qual o mundo dominado pelos poderes da destruição tomaram forma hoje", afirmou. Diante dessa situação, o primeiro a fazer é confiar no poder do Senhor e colocar a armadura de Deus. Em outras palavras, a resposta à desumanizante globalização é "reconhecer com absoluta seriedade que nossa vida e missão estão arraigadas no Evangelho", acrescentou. Em segundo lugar, "devemos entender que o Evangelho inclui um compromisso com Cristo, como o Senhor da totalidade da vida e de toda a Criação. Isso significa que o Evangelho, sem negar o seu conteúdo pessoal, íntimo, é uma mensagem pública que deve ser proclamada no contexto da globalização econômica que ameaça a vida". Para Padilla, a missão integral acontece quando ela é genuína expressão da vida em Cristo, através do que a Igreja é, faz e diz como testemunha de Jesus Cristo, o Senhor da totalidade da vida. "Se o Evangelho da reconciliação mediante Cristo deve ser encarnado na comunidade cristã, não há forma de eludir o tema colocado pela divisão da sociedade, tanto em nível local como global e ao longo das linhas social, cultural, econômica, racial, política ou de classe", sublinhou. O primeiro requisito para a missão nesse tempo de mudança de século é a formação de igrejas que encarnem o Evangelho da reconciliação. "Se os cristãos têm sido salvos para servir, não há lugar para a divisão que muitas vezes fazemos entre evangelho pessoal e evangelho social, entre evangelização e responsabilidade social. Num mundo profundamente afetado pela pobreza, a exploração, a violência institucional e a injustiça, a Igreja é chamada a encarnar o amor e a justiça de Deus", destacou Padilla.

Enviado por Mauro Pellegrini