Português | English

Devocionais

O Pai e todos os paizinhos!

O Pai e todos os paizinhos!

Pai... No homem o pai teve que crescer no macho, e está ainda em processo de crescimento... A própria Bíblia nos ensina, pela realidade, que a figura do pai, nem sempre foi terna; ou seja: nem sempre carregou ternura, alma! Em toda a Bíblia há para mim há apenas três figuras paternas que me inspiram, ainda que em parte. Sem ser “em parte”, na Bíblia, o único pai, é o Pai. Abraão é pai, essa parece ser sua missão na existência: pai de nações. Seu nome já carrega a semente: Pai Grande...depois passou a ser Pai de Muitos. Os dramas paternos de Abraão revelam sua força de paternidade. Durante a vida ele tem que despedir para longe de sua vida e cuidados o filho que teve com Hagar, o jovem Ismael. E a Bíblia não esconde a dor do patriarca ao ter que cumprir tal determinação: sofre pela mulher e sofre pelo filho! Além desse horroroso drama, só compreendido pelas nossas mentes modernos em razão da fé, há outro ainda mais inconcebível. “Toma Isaque, teu filho, teu único filho, a quem amas; e oferece-o a mim em holocausto num monte que te mostrarei”—dizia a incompreensível Voz de um outro, a Voz do Pai. Pai Abraão obedeceu a Deus Pai! E foi justificado pela fé no fato que Deus era poderoso até mesmo para ressuscitar a seu filho, Isaque, dentre os mortos... Abraão teve que aprender que um pai sempre tem que crer que Deus pode ressuscitar a seus filhos até dentre os mortos... Davi é outro pai que carrega alma, embora pareça ter amado mais que sido capaz de expressar em gestos simples e cotidianos o seu próprio amor. A sensação que me dá é que Davi amava muito os filhos, mas achava que sendo ele um homem bom, justo, sincero, amante de Deus e íntegro em sua humanidade, que seus filhos iriam enxergá-lo. Davi não podia imaginar que seus filhos pudessem desejar não imitá-lo naquilo que era bom. Absalão foi o supremo exemplo de que as coisas boas não são por si mesmas transferíveis. Isto para não se falar no incesto de Amnom, possuindo sua meio-irmã Tamar; ou no assassinato de Amnom por Absalão, vingando o incesto e a violência praticada contra a irmã e deixada impune pelo pai, o rei Davi; ou mesmo para não se falar no assassinato de Adonias, que rebelara-se contra as ordens de Davi, que passava a sucessão do trono para Salomão; a resistência e a sublevação que Adonias tentou criar terminaram em sua própria morte, pelas mãos de seu meio-irmão Salomão. Davi teve que aprender que não basta amar os filhos. Sim, ele teve que aprender as terríveis realidades do amor paterno. Aprendeu que amor implica em tempo, educação, disciplina, capacidade de desagradar, coragem e paciência para frustrar, e, sobretudo, ser capaz de, muitas vezes, agir contra o próprio instinto, a fim de ver o filho internalizar uma lição que pode salvar a sua vida. Aprendeu sem ser o beneficiário imediato das lições. Mas nós podemos aprender com ele. O último pai sobre o qual desejo fazer um rápido comentário, é aquele que se tornou conhecido justamente por não ter sido o progenitor. Falo de José. Sim, do irmão José, marido de Maria, pai adotivo de Jesus de Nazaré. José é o maior herói homem entre os machos da Bíblia. Ele engole, pela obediência a um sonho, uma gravidez inexplicável. Maria aparece grávida e diz que é de Deus. E José tem que viver com esse santo barulho. Ainda recebe em sonho a visita de um ser masculino, chamado Gabriel, e, por esse mensageiro, é informado que o filho era de Deus mesmo. José levanta e recebe tanto a mulher quanto o filho que ela carregava no ventre. Falasse muito em Maria. A Virgem que concebeu. Faz-se constante louvor de Suas embutidas virtudes—digo embutidas apenas porque nas páginas da Bíblia, relacionado a Maria não há nenhum um outro grande evento que a caracterize de outra forma especial, para além de ter sido a Virgem! Mas suas virtudes são louvadas, mitificadas, imaginadas e até fantasiadas. Afinal, para ser a mãe de Jesus, imaginam as pobres cabecinhas, tinha que ser a mulher das mulheres; e a mãe de Deus! Engano! Maria era mulher gente boa de Deus, sim! Mas o critério nunca foi o da virtude própria, sempre foi o da Graça, e isto até na Encarnação. Quem tem aquela genealogia—digo: a de Jesus—, não tem do que se gloriar a não ser no Pai e na certeza de ser Quem sabe ser! Mas lá está José... Calado, angustiado, perdido em tristezas, porém sereno e digno em sua humanidade e sem sua fé. José é o exemplo máximo da hospitalidade digna; e da dignidade humana entre os mortais. Muitos sem o saberem acolheram a anjos. José, sem exatamente o saber, acolheu a Deus, e o criou em Jesus, ensinando-lhe um ofício de paciência, delicadeza, força, senso estético, criatividade, carinho com os detalhes, meticulosidade nos acabamentos e, sobretudo, um ofício de sensibilidade. “Não é este o carpinteiro, filho de José?”—perguntavam uns. “Este é o filho de José, o carpinteiro!”—afirmavam outros. Na Bíblia José é o primeiro homem-pai num universo de padastros progenitores. A natureza fez o homem progenitor com atitudes de padastro. É apenas na Graça de Deus que os homens aprendem com o Filho do Carpinteiro, com o próprio carpinteiro, e com o Pai de ambos, que um Pai é de fato um ser chamado para ser muito mais que um macho que tem saco e carrega semém. O caminho de um macho é aprender a ser um homem. E o caminho de um homem nunca estará concluído se ele não aprender, mesmo que não seja gerando seus próprios filhos, o significado de ter uma alma paterna. Uma alma genuinamente paterna demanda uma boa dose de carpintaria, de delicadeza, de sensibilidade, de apreciação da beleza, e de paciência para fazer, refazer, até ficar bonito, até se poder dizer: É muito bom! Feliz diz dos pais pra todos! Minha netinha me ligou, e disse: Vô, hoje é dia dos pais e eu quero ficar com você! Davi, meu filho, e paizinho dela, me disse que ela, esperta como é, arranjou uma saída diplomática: Pai, você é meu namorado, o vô é teu pai; então, eu quero ficar lá na casa dele hoje, tá? Meus filhos estão todos aqui. Que o Senhor tenha misericórdia de nossos filhos! Que o Senhor nos ensine a sermos pais, mesmo quando os filhos parecem não nos reconhecer. E mais, meus amigos pais, se tal se der com qualquer de nós, lembremo-nos do Pai: Ele criou, educou, acompanhou e sempre amou, mas nem todos os Seus filhos o reconhecem. Pai tem que aprender a ser pai. Mas não pode se condenar quando os filhos não o enxergam. Pois, se assim fora, Deus teria morrido de tristeza. Eu sei, todavia, que Ele está alegre. Pelo menos foi com esse sentimento que Ele me visitou hoje de madrugada. Um beijão pra todos, Caio