Português | English

Devocionais

O NOSSO DESAPARECIMENTO DE DEUS: e dizemos que Ele sumiu!

O NOSSO DESAPARECIMENTO DE DEUS: e dizemos que Ele sumiu!


 


Uma pergunta muito comum entre os discípulos de Jesus, é aquela relacionada a por que, geralmente no início da fé, é quando mais nos acontecem as chamadas “coisas maravilhosas”, ou os milagres, ou ainda as grandes manifestações de “visibilidade” de Deus.

Eu, por exemplo, nos dez primeiros anos da jornada, vi mais coisas extraordinárias do que nos últimos 23 anos. No entanto, no que me concerne, percebo algumas indicações do por quê. A maioria das pessoas, entretanto, não sabe nada acerca de tais possibilidades, pois, mantêm a expectativa de sempre serem objeto de milagres bem quentes; e eles não aparecem no presente mais experiente como aconteciam em fartura no tempo da total imaturidade. Quando a pessoa mergulhou na incredulidade em relação a Deus ser Deus que participa na vida, portanto não crendo em milagres, fica fácil entender porque milagres não acontecem a elas.

Mas quando pessoas que esperam milagres, não os vêem hoje, embora no passado os tenham visto em grande quantidade, a não manifestação de tais “sinais” pode perturbá-las muito. No meu caso, eu sei que os sinais e prodígios diminuíram por várias razões.

Primeiramente porque no início eu estava muito mais exposto às pessoas, o dia todo, em todo lugar. Além disso, minha expectativa acerca do sobrenatural era algo permanente, pois, para mim, a conversão, seguida de grande exposição a encontros de natureza espiritual intensa, com manifestações diárias das mais bizarras e diferentes manifestações de possessos de demônios, e, além disso, vendo gente ser curada o tempo todo — introduziu em mim o choque de um traumático e inegável encontro com o mundo do espírito; o que, para mim, era como passar a ver depois de ter sido cego de nascença. Também, com a vinda de filhos, bem devagar fui tendo que me proteger mais, a fim de que sobrasse tempo para a família. Depois, as coisas explodiram de tal maneira, que acabava me recolhendo em relação a ficar em público, porque, por anos e anos, foi se tornando algo insuportável. Entretanto, sempre que de um modo ou de outro eu tinha qualquer que fosse o tempo com as pessoas, logo via que as mesmas coisas aconteciam; assim como hoje, com muita freqüência, ouço as mesmas coisas, sempre que os mesmos encontros mais íntimos e intensos se estabelecem. No entanto, mesmo vendo isso, tenho que admitir que minha mente hoje é muito mais analítica de que no passado, e, por tal razão, há muitas coisas que eu acabo discernindo antecipadamente; e, assim, muitas vezes, tratando delas por uma outra via, menos traumática. Exemplo: Há muitos possessos provocáveis. Pessoas que estão no limiar de uma possessão, e que se forem confrontadas, ficarão possessas. Porém, se forem gradualmente objeto de uma conversa na qual aquele que está ali consciente da condição espiritual do quase-possesso, apenas conversar até que a consciência prevaleça sobre a pulsão demoníaca — verá, possivelmente, uma pessoa ficar liberta sem ter a “crise da possessão”. Mas todos nós sabemos que certas manifestações são inevitáveis. A questão é que embora eu creia de todo coração em tudo o que Jesus fez (e no modo como fez) e ensinou; eu também sei que Deus mesmo nos trata como se trata a filhos; ou seja: provocando-nos no caminho da maturidade da fé. E a maior manifestação de fé não é aquela que aplaude quando Deus age, mas sim aquela que persevera ante o silêncio e a aparente indisponibilidade de Deus, conforme digo em meu livro “O Enigma da Graça”. Estava deitado vendo um dos jogos da Copa quando pensei nos filhos e decidi vir escrever isto. Sim, eu estava pensando na quantidade imensa de cuidados que já tive que ter com meus filhos. Desde recém nascidos. Cuidando. Guiando. Protegendo. Salvando de perigos. Construindo confiança. Dando certezas. Depois explicando coisas. Ajudando-os a entender. Então, a cada vez mais facilitando o andarem com as próprias pernas. Até começar a ver que eles estavam se auto-determinando. Devagar eles foram ficando cada vez melhor andando e decidindo. Surge, então, cada vez mais, aquela alegria de ver que o filho (a) virou homem; que não depende de você; embora saiba que pode confiar sempre em seu amor. Nesse ponto eles estão adultos e morando em suas próprias casas. No início é muita alegria. Somente depois é que vai crescendo aquele vazio. Aquela saudade do tempo em que todas as noites eles estavam à nossa volta. Mas eles parecem tão bem. Até que algo acontece. Uma dor. Um erro. Uma perda. Uma aflição maior do que o cotidiano. Então eles vêm; pois eles sabem que você não muda; sabem que podem confiar. E vez por outra a vida fica maior do que as dores e problemas do cotidiano; de modo que a própria vida que os leva, ela mesma os reenvia para nós. Até que chega aquele tempo em que o filho já se tornou bem pai; e agora já sente as impotências que você experimentou em relação a eles; e, aí, começa a ver você outra vez; e você cresce na percepção dele; e ele explode em gratidão por coisas que você fez, e que você achava que ele havia esquecido para sempre. Então, começa o melhor, que é quando o filho ama o pai e o pai ama o filho; e eles se revelam um ao outro; e vão se tornando um na compreensão e no entendimento.

Esses são pais e filhos fazendo a jornada da felicidade, apesar das dores da vida! Com Deus, o Pai, quando não se é incrédulo, e quando o coração não desfaleceu no amor, é mais ou menos a mesma coisa que acontece; só que numa dimensão infinitamente mais intrincada e complexa; embora a fé torne tudo simples; visto que tais complexidades excedem a todo entendimento. Mas o que sinto é que faz parte do processo deixar o filho andar, aprender, e voltar; andar, aprender, e voltar; e assim... Desde os 26 anos de idade que moro longe de meus pais. Meu pai, todos sabem, tem sido meu grande amigo desde que existo. Há algo que nos une de modo essencial, maior do que a genética e o sangue. Nos amamos. Nos compreendemos. Gostamos um do outro. Nos respeitamos. Nos admiramos. Sempre falamos a verdade um com o outro. No entanto, o que percebo é que a distancia no convívio físico e cotidiano, não teve o poder de mudar nada entre nós. Nada! Não nos roubou coisa alguma! Pois, o que é, é! E minha relação com ele é no nível do que é. Não sinto vergonha alguma de ser visceralmente eu para meu pai. Assim, mesmo não mais nos vendo todos os dias, jamais deixamos de nos atualizar o tempo todo, não por conversas apenas, mas, sobretudo, pela entrega do coração em transparência e em verdade um para com o outro. Sabendo que ele nunca me despreza. Ora, se com meu pai é assim, por que então com meu Pai seria de outro modo? Tem que ser com meu Pai infinitamente mais do que com meu pai! Assim, tudo faz parte! Mas quem sempre crê, jamais deixará de ver, aqui, ali, sempre que necessário —, aquela mesma Mão, chegando junto, e trazendo com Ela a certeza da Proteção. Pois quem ama, esse sabe que amor de pai não tem idade.

Então, como deixará o Pai Eterno de ser Eterno em Seu amor para conosco? Ou somos melhores pais do que o Pai?

Nele, que é Pai, e diante de Quem somos maus,

 

Caio

 

2006