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MONTANHAS DE

MONTANHAS DE "FÉ" QUE NÃO REMOVEM MONTES



Para muita gente Fé é algo Objetivo, assim como o monte do Pão de Açúcar. Para tais pessoas a Fé tem um “corpo de doutrinas” e pode ser objeto de verificação Objetiva. Não é preciso repetir que em minha opinião isto não é Fé, mas apenas um “corpo de sistematizações doutrinárias”. Portanto, nada gera na subjetividade do ser, exceto a arrogância da presunção da Certeza, o que já não é Fé, visto que a Fé habita o reino da Subjetividade, não da certeza Objetiva. Como disse Paulo: “Não andamos pelo que se vê, mas pelo que se não vê”. E mais: “Se alguém vê, já não espera. Mas se não vemos, com paciência o aguardamos”. De fato a Fé é certeza...mas de coisas que se esperam e se não vêem. Sendo assim, é certeza que nasce do incerto, e é objetividade que brota do subjetivo. Portanto, a Fé é a certeza instalada na subjetividade, e não decorre da objetividade estudável ou comprovável. A questão é que a Religião ficou cativa do reino da Objetividade. Daí a “Fé” ter si tornado em algo que não é ela, visto que o que dela se fez, contradiz a própria natureza da Fé, pela certeza da Objetividade, e que nega a certeza como Subjetividade. Fé, como fenômeno real, e conforme a Palavra da Revelação, é de fato uma “Objetiva Incerteza” que é agarrada firmemente mediante uma apropriação pessoal e apaixonada, e cujo ambiente de existência é a Subjetividade. Sem dúvida esta é mais séria verdade que pode acometer um ser humano! Como diria Kierkegaard, nesse ponto a estrada se divide, visto que o conhecimento objetivo é suspenso, e a pessoa é deixada apenas com incertezas e, paradoxalmente, é justamente isto que aumenta a sua fé como paixão interior. “A Verdade subjetiva é precisamente o desafio e a aventura que decorre da escolha da incerteza objetiva, e que é feita com infinita paixão”—diz Kierkegaard. Paulo diz que a observação objetiva da criação nos dá a demonstração dos atributos invisíveis de Deus, bem como de Seu poder e de Sua divindade. Assim, ver a criação nos permite observar onipotência e sabedoria divinos. Todavia, ao invés de isto resolver os problemas do coração, apenas aumenta a sua inquietação, visto que a soma de todas as coisas que Deus criou é de fato carregada de objetiva incerteza, enquanto que interiormente é esta objetiva incerteza o que de fato me mergulha na certeza subjetiva, que é Fé. Matematicamente existe certeza objetiva, no entanto, para a minha alma, tal certeza não faz nenhuma diferença, à menos que seja confirmada pela Fé, e que existe como paradoxo, visto que ela não se alimenta de certezas objetivas, mas de verdades subjetivas. Assim, como também disse Kiekegaard, “ter nenhuma incerteza pode corresponder a nenhum risco; porém onde não há risco, também não há fé”. Desse modo, Fé é a contradição entre a paixão infinita do meu interior em encontro com a incerteza do que é objetivo; pois ainda que sendo objetivo não é a certeza que minha subjetividade chama de descanso e confiança. Assim, se eu “capturo Deus” pela via da objetividade, não foi Deus mesmo quem eu encontrei, mas apenas uma formulação acerca de uma divindade. Desse modo, eu tenho um sistema de doutrinas, mas não tenho Fé. Assim, se eu desejo ser da Fé, eu preciso manter-me na incerteza objetiva; do contrário, já não é Fé o que existe em mim, mas apenas a sua presunção. É por esta razão que a comunhão mais profunda com o Espírito acontece como “gemidos inexprimíveis”. Para quem duvida, eu pergunto: O que me deu paz nesses últimos dois meses, após a morte de meu amado filhote, o Lukas? Foi qualquer objetividade de uma doutrina sobre a imortalidade da alma que deu tal paz? Ou foi a verdade que me habita como fé, e que faz com que para mim, interiormente, a imortalidade já não seja uma esperança, apesar de meu filho estar morto? Assim, objetivamente eu sou um mortal, enquanto subjetivamente já tenha passado da morte a para a vida. Ora, é esta certeza que não me deixa armar uma tenda ao lado da sepultura dele—o que seria cuidado objetivo com aquilo que é objetivo: o corpo. E mesmo sem assim fazer, experimento um outro conforto, e que decorre do fato-subjetivo que me faz ver a eternidade. Ora, a eternidade não é vista quando se olha para as estrelas, mas quando se olha para o coração. Caio