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EVANGÉLICOS GANHAM PODER ENTRE SEM-TETO DE PE

EVANGÉLICOS GANHAM PODER ENTRE SEM-TETO DE PE

31/08/2003


Reverendo anglicano comanda invasões. Movimentos sociais no estado eram dominados pela ala progressista da Igreja.

RECIFE. Depois de registrar crescimento de 100% na última década — eram 500 mil e agora somam mais de 1 milhão, segundo o IBGE — o rebanho evangélico começa a ocupar espaço nos movimentos sociais que antes viviam sob hegemonia da ala progressista da Igreja Católica. Eles saíram dos púlpitos de igrejas como a Anglicana, a Presbiteriana e Assembléia de Deus e agora militam no PT, no Movimento dos Sem Teto (MTST) e têm até o MTC (Movimento de Trabalhadores Cristãos). O MTC é herdeiro da antiga ACO — Ação Católica Operária, criada entre os anos 70 e 80.

Na Região Metropolitana de Recife é um reverendo da Igreja Anglicana, Marcos Cosmo, quem mais comanda invasões de terra. Ele é o líder do MTST, que coordena 35 ocupações urbanas no Grande Recife. No município do Cabo de Santo Agostinho — a 31 quilômetros de Recife — também é um evangélico, José Francisco da Silva, quem lidera o MTST. Silva pertence a uma igreja conservadora, a Assembléia de Deus. Já foi preso três vezes, diz que “vez por outra enfrenta olhar atravessado dos irmãos”, mas continua comandando as invasões.

Em Recife, o mais novo dos movimentos dos sem-teto, o MLT (Movimento de Luta dos Sem Teto) também é liderado por Aldeniro Santos, da Igreja Presbiteriana. Todo esse espaço era ocupado antes pela Arquidiocese de Olinda e Recife, que liderava as ocupações de terras com sua então atuante Comissão de Justiça e Paz (CJP). Depois da luta pela anistia na década de 80, a CJP, então sob a liderança de dom Hélder Câmara, passou a mobilizar os sem-teto de Recife na ocupação de terrenos vazios. Pressionava o governo por casa própria.

Segundo o coordenador da CJP na época, Pedro Eurico de Barros, só entre 80 e 83 a Arquidiocese liderou 102 ocupações na capital, mobilizando 150 mil pessoas. Com a nova orientação da Igreja em Pernambuco, foi reduzida a participação dos católicos nos movimentos sociais, conta Pedro Eurico, agora um moderado deputado do PSDB.

— Em política não existe espaço vazio. Chega alguém e ocupa — afirma Cosmos.

Ele diz que com a chegada de dom José Cardoso Sobrinho — que substituiu Dom Hélder — os padres e freiras progressistas se retraíram.

— Nossos bispos ocuparam esse vácuo — acrescenta.

Para o presidente da seccional pernambucana do Movimento Evangélico Progressista, Maurício Amazonas, as igrejas evangélicas também mudaram nas duas últimas décadas:

— Não é só uma questão de vacância deixada pela igreja Católica. A ocupação dos espaços sociais por igrejas evangélicas é resultado da conscientização política — diz.

Apesar de ter recuado na ocupação de terrenos, a Igreja Católica não chega a recriminar a ação dos evangélicos.

— Temos que dar graças a Deus para o fato de os evangélicos estarem despertando para essa necessidade. O momento é de somar forças para o bem dos pobres — diz o arcebispo auxiliar, dom Fernando Saburido.

Ele lembrou que embora não mais atue na ocupação urbana de terras, a Igreja Católica permanece trabalhando junto aos desfavorecidos:

— Temos a Comissão Pastoral da Terra, a pastoral carcerária, centros comunitários de promoção social, trabalhos com idosos e o Pró-Criança que atende a menores em situação de risco — enumerou.

Jornal: O GLOBO Autor:
Editoria: O País Tamanho: 562 palavras
Edição: 1 Página: 18
Coluna: Seção:
Caderno: Primeiro Caderno

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