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CONVERTENDO TALHAS DE PEDRA EM CÁLICES!

CONVERTENDO TALHAS DE PEDRA EM CÁLICES!



CONVERTENDO TALHAS DE PEDRA EM CÁLICES!

 

TEXTO: João 2: 1 a 22

 

 

Vamos ler o Evangelho de João, no capítulo 2. E enquanto você se prepara para ler, eu queria que você prestasse a atenção no seguinte: o Evangelho de João é bastante diferente dos outros 3 Evangelhos:Mateus, Marcos e Lucas.

 

Marcos é um Evangelho profundamente objetivo e pragmático. Ele não tem genealogia, ele não conta histórias de Jesus anteriores ao início do ministério de Jesus. Mais do que ensinos e oráculos do Senhor, Marcos afirma fatos, feitos, acontecimentos, histórias, milagres, encontros.

 

Mateus usa essa estrutura de Marcos e acrescenta algumas outras coisas, especialmente, uma quantidade grande de parábolas e ensinos de Jesus. Acrescenta o Sermão do Monte e muitas falas de Jesus que não estão presentes em Marcos. Sem esquecer também a genealogia de Jesus, o nascimento, visita dos Magos, coisas que aconteceram na infância de Jesus, e estão presentes ali, algumas delas.

 

Lucas vai mais longe ainda. Ele tem uma genealogia que não vai apenas até Abraão; portanto, diferente da de Mateus que é bastante étnica, posto que um de seus objetivos (do evangelho de Mateus), era mostrar que Deus cumprira o seu propósito e a sua promessa conforme feita a Abraão, conforme afirmada em Davi e conforme todos os profetas de Israel, de modo que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus.

 

Lucas, entretanto, faz com que essa genealogia vá até Adão. E amplia os horizontes, vinculando-os à toda humanidade. Até porque Lucas, como discípulo de Paulo, está o tempo todo preocupado em afirmar coisas acerca do Evangelho que fossem pertinentes ao mundo inteiro, e não apenas ao judaísmo e aos judeus. Por isso, ele vai até Adão, e como quê, diz a todos: Olha, se você não é judeu, mas humano você é; e essa Palavra aqui é para todos os seres humanos.

 

A proposta do Evangelho de Lucas também é tentar apresentar uma narrativa em ordem um pouco mais cronológica. Por isto ele diz que escreveu depois de muita pesquisa, e com toda a exatidão possível, para dar a conhecer a um homem chamado de Excelentíssimo Teófilo, as coisas que tinham acontecido e estavam acontecendo naqueles dias (Atos), e antes daqueles dias (O Evangelho).

 

João, no entanto, não tem nenhuma dessas preocupações. A genealogia dele é metafísica. No princípio era o Verbo. O Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio Dele e sem Ele nada do que foi feito, se fez.

 

Portanto, João não remete o Messias apenas para o mundo das ocorrências, como Marcos; nem para Abraão, como Mateus; não remete o Messias para Adão, como Lucas; ele o remete direto para Deus. Ele é o Logus de Deus. É o Verbo Encarnado que apareceu entre nós cheio de Graça e de Verdade. E vimos a sua glória; glória como do unigênito do Pai.

 

Além disso, João não tem preocupações cronológicas, que você vê nos outros Evangelhos chamados sinópticos – Mateus, Marcos e Lucas. Neles, apesar de algumas diferenças, as coisas estão razoavelmente em ordem, na seqüência. São narrativas históricas, progressivas, que guardam coerência com a trajetória histórica.

 

João é muito sincero em relação ao que ele está fazendo. Ele não está escrevendo uma biografia de Jesus. Ele está relatando a mensagem de Jesus. A mensagem que ele, já idoso, havia discernido durante o curso da sua própria vida, e cuja síntese estava cada vez mais clara no entendimento dele.

 

É por isso que ele não guarda essa preocupação cronológica. Por exemplo: aqui, em João no Cap. 2, a gente tem o início do ministério público de Jesus transformando água em vinho, em Caná da Galiléia. Esse é seu primeiro sinal: Interveio naquele casamento que estava fadado ao fracasso, numa celebração de alegria que se empobrecia pela falência do vinho, e era assim porque o vinho tinha acabado—Sim, Ele transformou a água em vinho para que a festa continuasse.

 

Mas logo a seguir, a gente vê que Jesus sai dali, e João diz que Ele entrou no templo. E Ele olhou todas as coisas em volta e viu o comércio da fé, que estava sendo feito ali. E se insurgiu contra isso, expulsou os cambistas, os vendilhões, e todos aqueles que eram os camelôs da fé, que estavam vendendo pacotes de sacrifício e de barganha entre o homem e Deus, os enxotou dali com o azorrague que Ele, premeditadamente, construiu e que usou; da maneira mais pragmática possível, contra aqueles que ali estavam negociando com as coisas de Deus, na casa de Deus, e fazendo manipulação do sagrado.

 

Eles estavam ideologizando Deus de um lado e comerciando Deus de um outro. Vendendo Deus como fetiche. Transformando o lugar do culto a Deus num panteão de ídolos, que ali não se manifestavam conforme o panteão greco-romano. Claro! Não havia nichos com imagens de escultura, mas havia a idolatria da barganha com Deus, e do negócio com Deus, e da comercialização das coisas de Deus.

 

Ora, esse episódio, da purificação do templo, não começa, de fato; e nem acontece, de fato; no início do ministério de Jesus. Mas acontece no final, quando Ele entra triunfalmente, em Jerusalém; e logo depois vai ao templo, e faz isto.

 

João, como eu disse, não esconde a sua sinceridade quanto ao fato de que ele não está voltando e narrando o Evangelho como cronologia. Ele está narrando o Evangelho de conteúdos, de significados, de mensagem. E ele diz isso no final do seu Evangelho. Quando ele está concluindo, ele diz: Ora, Jesus fez muitas outras coisas que não estão escritas aqui, neste livro. Se cada uma delas fosse narrada, fosse contada, não haveria na terra lugar para guardar os livros que seriam escritos. Estas, porém, que eu escrevi, o fiz para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que crendo, tenhais vida em Seu nome.

 

O fato de que ele é João deliberado na construção da arquitetura do seu Evangelho, fazendo com que a própria construção do Evangelho carregue a mensagem que ele quer passar, e que também se expressa na eleição que o apóstolo fez dos milagres que ele escolheu para colocar ali. Porque foram tantos os milagres de Jesus que, ele mesmo, João, teve que selecionar alguns; que eram indicadores crescentes da mensagem que João queria afirmar para todo ser humano que lesse o seu Evangelho.

 

E aí ele começa com o milagre de Caná, que é um deles. Depois tem a cura do filho do oficial do rei. Depois, no capítulo 5, tem a cura do paralítico de Betesda, que estava ali há 38 anos. Depois tem-se a multiplicação dos pães e peixes. Depois Jesus anda sobre as águas. E você vai prosseguindo e vendo que vem a cura do cego de nascença, e a ressurreição de Lázaro. E você vê que cada um desses episódios João atrela diretamente à mensagem que Jesus falara antes ou depois. Isto porque, do ponto de vista de João, o milagre, conquanto real, era também metafórico, parabólico, ilustrativo, da mensagem que Jesus trouxera e encarnava.

 

Ou seja, Jesus, naqueles contextos, partiu de um milagre realizado, e transforma o milagre numa metáfora, para que os seres humanos compreendam o significado da mensagem.

 

Isso posto, a gente vai ler agora João, no capítulo 2, porque com essa introdução, o entendimento já cresce mais do que o tamanho dessa catedral. Se a gente ler, com essa consciência, tudo mudará.

 

“Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, achando-se ali a mãe de Jesus. Jesus também foi convidado, com seus discípulos, para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm mais vinho. Mas Jesus lhe disse: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Então, ela falou aos serventes: Fazei tudo que ele vos disser. Estavam ali seis talhas de pedra, que os judeus usavam para as purificações, e cada uma levava duas ou três metretas. Jesus lhes disse: Enchei d’ água as talhas. E eles as encheram totalmente. Então, lhes determinou: Tirai agora e levai ao mestre-sala. Eles o fizeram. Tendo o mestre-sala provado a água transformada em vinho (não sabendo donde viera, se bem que o sabiam os serventes que haviam trazido a água), chamou o noivo e lhe disse: Todos costumam pôr primeiro o bom vinho e, quando já beberam fartamente, servem o inferior; tu, porém, guardaste o bom vinho até agora. Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. Depois disto, desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias. Estando próxima a Páscoa dos judeus, subiu Jesus para Jerusalém. E encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas e também os cambistas assentados; tendo feito um azorrague de cordas, expulsou todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou a mesa e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de negócio. Lembraram-se os seus discípulos de que está escrito: O zelo da tua casa me consumirá. Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas? Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei. Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás? Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo. Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus.” Amém!

 

Oração:

 

Pai, ilumina a nossa mente; a de todos nós. A minha, para que eu não seja um elaborador de pensamentos relacionados a tua Palavra, mas apenas um instrumento que não precisa nem se servir de pensamentos; ao contrário, que eu corra atrás da própria Palavra, que ela brote de mim, numa intensidade maior do que a minha capacidade de produzi-la. E, por favor, sê com a mente de cada um de nós, de modo que ninguém fique para trás, ninguém se atrase, ninguém se distraia, ninguém se feche, ninguém se entrave, ninguém sele o coração, ninguém se deixe vencer por qualquer coisa; mas, ao contrário, que a tua Palavra nos visite, não apenas entrando pelos nossos ouvidos, mas sobretudo, ecoando como voz de muitas águas, nos nossos corações, dentro de nós; de tal maneira que não haja nada fora de nós que nos impeça a escutá-la no coração. Em nome de Jesus. Amém.

 

Vocês lembram do que eu acabei de falar antes de ler o texto. João está interessado em apresentar para nós, nessa construção que ele faz, uma mensagem.

 

E que mensagem é essa?

 

Existem vários desdobramentos dessa mensagem, mas o centro dela, simplificadamente, é basicamente o seguinte: O ministério de Jesus começa num casamento. Numa festa. Em bodas. Na experiência do encontro humano, da alegria humana, no ápice da celebração do encontro humano, que é a conjugalidade que se assume como satisfeita na intenção de que a vida inteira aconteça a dois.

 

Ali, se estava cumprindo uma determinação existencial de Deus. Num casamento, se está cumprindo um projeto existencial de Deus e rodando um softer que Ele instalou no coração humano quando o criou. Porque o criou, perfeito. Sem pecado, sem defeito, sem coisa semelhante; mas ainda que o tenha criado assim, deixou na perfeição o buraco de uma necessidade a ser preenchida. Havia um vazio no perfeito? Não! A perfeição, no homem, não prescindia do encontro.

 

De modo que não havia queda, não havia pecado, não havia coisa alguma que relativizasse a experiência do homem com Deus quando o próprio Deus deixa Adão sentir a nostalgia do desejo de um encontro com um semelhante.

 

E o Senhor, então, vê a saudade de-não-sei-do-quê que estava habitando o coração de Adão.

 

Isso interessa, em muito, a nós, porque Deus é um Deus tão extraordinariamente Deus, que Ele não faz aquilo que um deus inseguro faria. Um deus inseguro de si, criaria criaturas cuja necessidade absoluta, única, exclusiva, total e plena, fosse de Deus, e só de Deus. Mas o Deus que é, é tão Deus, que Ele cria criaturas—e aqui no caso, da criatura humana—, que antes mesmo de ter experimentado sua própria relatividade, como pecado, culpa, queda, vergonha, des- sincronia de Deus, separação—Sim! antes disso tudo, ainda enquanto o homem está vivendo a tranqüilidade pura do Jardim, nas condições daquela criação que não havia sido tocada nem poluída por coisa alguma, já havia o sentir da necessidade de um outro, de um igual.

 

Até porque, como diz o apóstolo João, aquele que ama a Deus, a quem não vê, manifesta o amor de Deus naquele a quem ele vê; de modo que, a complementaridade da consciência da fé e da relação com Deus, acontece nesse nível, horizontal: toda experiência com Deus que não desemboca no encontro com o próximo e na percepção do próximo e no amor ao próximo, não foi experiência de Deus, profunda e genuína. Não é assim hoje; e, interessantemente, não era antes de haver culpa de pecado no mundo, porque Deus estabeleceu que assim fosse; e disse: Não é bom que o homem esteja só, far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.

 

Aqui acaba aquela angústia culposa dos seres humanos têm em relação a Deus. Sim, eles amam a Deus têm fé, são cheios de esperança, foram marcados e selados pelo Espírito Santo, são habitação de Deus, são santuário de Deus, e, ainda assim, sentem falta de um abraço, de um beijo, de um carinho, de uma mão amiga, de um convívio, de um cônjuge, de um outro com quem compartilhar a vida, de uma companhia, de relacionamento; não apenas conjugal, mas também fraternal, ou de qualquer outro nível; porque está estabelecido pelo próprio Deus, antes de haver pecado, e não como decorrência do pecado, mas como decorrência da criação e da instituição do tipo de ser que nós somos, que a nossa relação com Deus não faz supressão da nossa necessidade de vinculação com o próximo. E foi Deus quem assim o instituiu, de modo que você não tem que fazer projeção e nem sublimações para Deus de necessidades que são completamente humanas, porque nem só de pão vive o homem, mas também de pão vive o homem. O homem não pode é jamais viver sem a Palavra que sai da boca de Deus.

 

Portanto, o meu conhecimento de Deus e o aprofundamento da minha vida com Deus, não faz supressão de necessidades básicas da vida, assim como eu me alimentar da Palavra de Deus não me exime da necessidade de comer pão todos os dias e de dizer: O pão nosso de cada dia nos dá hoje!

 

Se a gente entende isso, algumas coisas começam a ficar claras. Jesus está, portanto, presente, fazendo um milagre, no ponto vértice do encontro humano. E o gênesis do encontro humano, foi a criação da mulher; que é trazida ao homem por causa de um reclamo do homem, por causa de uma nostalgia de um ser satisfeito com Deus e carente de um encontro com um semelhante.

 

Porque assim como o Gênesis apresenta a chegada de um igual para complementar esse ser que carrega a imagem e semelhança de Deus, mas que no mundo só se sente também satisfeito se encontrar um semelhante, e fazer com ele, Um na caminhada—Assim também o Verbo encarnado, e que estava entre nós, inicia o seu primeiro contato explicito como o Adão da Graça, no encontro entre o homem e a mulher. Sim, Ele faz isso num casamento.

 

Só que naquele casamento, de maneira extraordinária, o vinho acaba. E acaba de modo extremamente próprio para as intenções de Jesus, no que diz respeito à Sua fala metafórica; em relação a mensagem que ele queria propor.

 

Acaba o vinho, e a mãe de Jesus, como todas as demais mulheres atentas às coisas que estão acontecendo, não apenas no salão de festa, mas na cozinha—porque essa é uma tarefa para a qual a mulher, quase sempre, tem todas as antenas ligadas—, e diz ao seu filho: Olha, acabou o vinho. O pessoal está na maior agonia. Não têm mais o que tomar, e a festa ainda está longe de terminar. Eles estão com um problemão.

 

Aí Jesus disse: Mulher, o que tenho eu a ver com isto? Com este problema, com esta hora?

 

Mas ela vai adiante, chama os serventes, aponta o filhão, e diz assim: Ó! Façam tudo quanto Ele disser.

 

Aí os caras, no ar, ficam assim, sem pai e sem mãe, diante de Jesus, sem saber o que é que viria pela frente. E Jesus olhou e viu que havia ali 6 talhas, que os judeus usavam para as purificações. Eram talhas para lavagens de mãos, aquelas ali. Geralmente os judeus tinham em casa dois tipos de talhas. Uma nas quais se poderia colocar até cerca de 7 galões e meio de água; que é o caso dessas aqui, para que se lavasse as mãos, para que se fizessem as abluções de limpezas rituais do corpo, e também para que se usasse na lavagem de colchões, utensílios e demais objetos que precisavam ser purificados conforme o rito; especialmente o rito conforme o farisaísmo que queria tudo completamente “purificado”, como se a água tivesse esse poder de purificação espiritual, em-si.

 

E havia também um outro tipo de talha na qual se poderia colocar cerca de 40 galões de água. E essas, eram usadas para o indivíduo tomar o banho inteiro, o banho purificatório. Aí ele entrava e ficava se lavando todo, enquanto fazia suas próprias orações de limpeza; era um “descarrego” do que ele estava trazendo da rua.

 

Nesse caso em questão, como eu disse, as talhas são as menores. Mas assim mesmo